 |
::01 |
 |
Localiza-se numa grande ilha à margem
esquerda do médio rio Uaçá. É
um arruado em forma de meia lua, contornando o campo alagado.
A vila cresceu muito nos últimos anos, não
se restringindo unicamente ao contorno do campo, estendendo-se
para o interior da ilha. Atualmente há 163 casas
ocupadas em média por seis a dez pessoas. As casas
estão muito próximas umas das outras e o
espaço disponível para novas construções
está se esgotando. Muita mata já foi destruída
e o solo está dando sinais de erosão em
vários pontos. A distribuição espacial
das casas na ilha se faz através de quatro "pontas".
A mais antiga é a ponta do Manga ou do Capitão.
No meio da ilha localiza-se a rua Vila Nova. Finalmente,
a rua Ponta da Bacaba. A rua do Porto ou do Posto, também
chamada antigamente de Ponta do Grupo, por causa da escola,
não inclui habitações indígenas.
Ali se localizam o Posto da FUNAI, a escola, a enfermaria,
alojamentos de professores e a sede do CIMI. Um pouco
mais próximas do centro, a igreja e o sino da comunidade
e a Casa da Festa ou Casa Grande, imponente pelas suas
dimensões, totalmente reconstruída pela
comunidade em 1996 e inaugurada no dia 5 de agosto para
a festa de Santa Maria. Atualmente este trecho se divide
em três blocos que representam, na verdade, as instituições
e/ou agentes externos, presentes na aldeia.
As edificações da FUNAI
estão em estado precário de conservação.
As escolas, novas edificações e reformas
de antigas construções foram financiadas
através do Convênio Governo do Amapá/APIO.
O CIMI mantém, apenas, uma casinha humilde. A
área comunitária, com a Igreja e a Casa
de Festas, fica no centro da Vila. Este último
trecho é mantido pela própria comunidade
através de mutirões e "equipes de
trabalho" sob a orientação de um
líder. Estes líderes, chefes de famílias
extensas que ocupam uma área da aldeia são
também responsáveis pela arrecadação
das contribuições de cada família
para pagar o combustível, necessário à
iluminação da aldeia e, às vezes,
outros serviços.
Pode-se falar de uma tentativa de
"urbanização" da vila de Kumarumã,
pelo traçado de ruas e postes de iluminação
elétrica. Foi construída uma grande torre
para sustentar uma caixa d'água e foi implementada
uma rede de tubulações para o abastecimento
de água nas casas, mas até hoje não
estão em funcionamento. A tendência ao
crescimento é rápido, especialmente na
Ponta da Bacaba onde a área construída
se estende bem além do campo de pouso. Por outro
lado, toda a área de mata entre a Vila Nova e
a Ponta do Manga já está totalmente destruída
e ocupada por novas moradias. A oferta de água
potável, a falta de esgoto e a acomodação
do lixo, caseiro e da farmácia, são problemas
que vão demandar soluções urgentes.
Do ponto de vista social surge outra preocupação,
a impossibilidade de um jovem casal construir, por falta
de espaço, sua casa próxima à casa
da mãe/sogra, desestruturando assim a regra da
residência matrilocal, uma das poucas instituições
tradicionais ainda funcionando.
Para chegar à aldeia a partir
do leito do rio, as canoas usam um canal, le canal bax
que leva até o posto da FUNAI. Hoje duas grandes
pontes de madeira passam por cima dos campos alagados
no inverno, lamacentos no verão. No inverno,
as canoas conseguem chegar até às margens
da ilha onde se encontram as casas de farinha, ou cabê
e os estaleiros individuais dos índios onde constroem
suas canoas. Algumas famílias ainda usam, no
verão, pontes improvisadas com troncos de miriti.
As casas são na maioria palafíticas,
de plano retangular com paredes e assoalho de tábuas
de madeira. Uma pequena escada permite o acesso à
entrada. Há geralmente uma ou várias divisões
internas, separando a sala dos quartos de dormir. Os
Galibi-Marworno normalmente dormem em esteiras de junco
coberta por um grande mosquiteiro, onde repousam o casal
e filhos pequenos. Hoje, porém, muitos usam redes
e mesmo camas. Mosquiteiros armados durante o dia indicam
presença de pessoas doentes ou de uma mulher
que deu à luz. A cozinha é uma área
parcialmente aberta, atrás da casa, onde há
um fogão de barro, às vezes um fogão
à gás. Há mesas , mas geralmente
usadas para empilhar coisas, a "mesa" para
as refeições é posta no chão,
quando a família se reúne para comer o
peixe assado ou fervido acompanhado de farinha, sal
e tucupi. Não há muita mobília
nas casas Galibi-Marworno, mas hoje, várias possuem
uma televisão e uma antena parabólica
além de um prosdócimo, como dizem os índios,
ou freezer, que permite preservar alimentos e gelar
água e bebidas.
Sempre perto da linha da água
situam-se as casas de farinha, chamada de "cabê",
servindo a várias famílias nucleares e
onde especialmente as mulheres passam muitas horas do
dia, descascando, ralando e torrando farinha de mandioca.
No cabê encontramos artefatos tradicionais como
as peneiras finas e grossas, os cochos, os cestos cargueiros,
os viradores de beiju, os abanos de palha, além
dos grandes fornos.
Muitas famílias ainda vivem
segundo o padrão tradicional: os homens após
o casamento passam a viver na casa dos pais de suas
esposas durante dois a três anos, tempo suficiente
para o casamento se consolidar, geralmente com o nascimento
de um ou dois filhos. Tempo, também, para o jovem
marido reunir o material necessário para a construção
de uma nova casa. Hoje, às vezes os jovens preferem
construir uma casa em alvenaria, desfigurando assim,
o estilo tradicional da aldeia.
A relação entre sogro
e genro é tranqüila e de ajuda mútua.
Nos mitos, porém, as tensões entre afins
são explicitadas, evidenciando um movimento de
expulsar a afinidade do cotidiano para o plano mítico.
Entretanto o status de sogro tem o seu peso. Em uma
sociedade onde não se fala uma língua
indígena, um jovem, entretanto, extende aos irmãos
do sogro o termo pelo qual chama este último:
beau-père. |