| As
crenças religiosas manifestam-se de forma diversa
nos diferentes grupos da bacia do rio Uaçá.
Entre os Karipuna e Galibi-Marworno, prevalece um catolicismo
popular, acrescentado de uma vertente progressista,
engajada, devido à influência do Cimi (Conselho
Indigenista Missionário), pelo menos até
recentemente. O catolicismo dos Galibi, há séculos
incorporado às suas crenças e práticas,
é da chamada linha tradicional.
O xamanismo continuava vivo até
a década de 60, sendo os pajés galibi
reputados e conhecidos entre todos os povos indígenas
do Amapá, assim como também o eram os
seus vizinhos, na outra margem do Oiapoque, os negros
Saramaká de Tampac. Atualmente, entretanto, não
há mais pajé atuando no grupo. Os emblemas
do último pïyei (pajé), o pakará
(cestaria) e o maracá, estão devidamente
guardados pelos Galibi. Porém, as crenças
relativas ao universo xamanístico não
se extinguiram. Mais de uma vez, os Galibi afirmaram
que, comparados aos dos outros grupos, seus xamãs
eram "verdadeiros" e competentes. O Sr. Lod
descreve minuciosamente os rituais de iniciação,
as sessões de cura e de contato com os espíritos.
Estes se dividem em duas categorias, os que vêm
do alto, do céu, os anjos da guarda, sempre bons,
e os espíritos da floresta e da água,
perigosos, com os quais é preciso negociar. Nestas
ocasiões, quem age é o espírito
do xamã, preparado para esta tarefa, nunca ele
mesmo, apenas um homem comum. Para os Galibi, Deus fez
tudo, sabe tudo e domina tudo, enquanto o xamã,
por melhor que seja, apenas possui uma visão
parcial do mundo, podendo sempre ter o seu caminho "fechado"
por outro xamã mais poderoso. "Primeiro
vem Deus, depois o maráca".
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Antigamente, dizem os Galibi, os espíritos
dos homens e dos animais, que eram gente no seu mundo,
se comunicavam. Mas agora isso acabou. Segundo o Sr. Lod,
em algum momento "alguma coisa aconteceu", houve
uma ruptura e hoje eles não se comunicam mais.
Isto teria acontecido devido à incompreensão
dos colonizadores europeus com relação à
sabedoria dos índios. Uma perda e uma pena, segundo
ele.
Entretanto, os Galibi continuam acreditando
que tudo na natureza tem dono, os animais e as plantas.
Por isso agem com cuidados especiais nas suas atividades
predadoras de caça, pesca e derrubada de árvores.
Ou, como dizem em francês, "il ne faut pas
les vexer", maneira delicada de caracterizar as
negociações que se travam entre os diferentes
domínios do cosmos.
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