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A guerra
é uma questão central na cultura ikpeng,
presente nos mitos e na visão de mundo desse
povo. A importância da guerra só acessoriamente
é a obtenção de bens. A sua
principal orientação é vingar
os mortos, ou mesmo vingar a morte. Para os Ikpeng,
é a feitiçaria dos inimigos que provoca
a morte, e os prisioneiros de guerra são
substitutos dos defuntos. |
Qualquer morte idealmente pode suscitar uma
expedição de represálias. Isso
porque a morte, para os Ikpeng, nunca é um fenômeno
natural, acidental ou contingente. Resulta sempre da
ação, direta ou indireta, do estrangeiro-inimigo
(uros). Na guerra, a vontade assassina do inimigo
pode manifestar-se numa violência mortífera
visível; noutras ocasiões, a feitiçaria
é o meio a que recorre o inimigo para obter os
mesmos fins, principalmente pelo envio de doenças.
Esse inimigo não é uma entidade abstrata,
mas são pessoas próximas à aldeia,
geralmente grupos vizinhos. Como são raríssimos
os casos de homicídio entre os Ikpeng
e, quando sucedem, acredita-se que o assassino tenha
sido possuído pelos espíritos e não
soubesse o que fazia , o mal voluntário
só existe, e sempre existe, entre os inimigos.
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Mas o
inimigo, uma vez capturado, é incorporado
à sociedade ikpeng, sendo bem tratado e motivo
de prestígio para a família que o
adotou. Esta procura ridicularizar sistematicamente
sua cultura de origem e exaltar a dos Ikpeng, e,
como resultado, muitos capturados recusaram-se a
voltar para o grupo de origem, mesmo quando as circunstâncias
o permitiram. |
Nesse sentido, a reprodução social
recorre a duas modalidades distintas e em grande medida
opostas: o nascimento biológico e a incorporação
sociológica. Assim sendo, pode-se nascer Ikpeng
(quando os pais o são), mas também pode-se
passar a ser Ikpeng por captura ou incorporação,
porque se substitui um Ikpeng que morreu. A despeito
do número de cativos incorporados na sociedade
ikpeng ser muito pequeno, há uma necessidade
intelectual e moral de substituir os mortos por prisioneiros.
Um outro elemento relativo ao estatuto do cativo
é que o valor deste que pode receber um
nome ikpeng ou manter o nome de sua língua, mas
que freqüentemente assume também um apelido
étnico que evoca sua origem mede-se em
parte pela sua capacidade nomeadora. O cativo
é, com efeito, um designador privilegiado desde
que consiga mobilizar na sua memória nomes estrangeiros,
do que resulta que parte dos Ikpeng atuais tenham nomes
xinguanos.
Portanto, a substituição dos mortos
efetua-se através dos nascimentos tanto ou mais
do que através das capturas, e uns e outros são
integrados na totalidade social através do sistema
de designações.
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