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HISTÓRICO DA OCUPAÇÃO   
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HISTÓRICO DA OCUPAÇÃO

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Não temos conhecimento da existência de documentos escritos sobre os Ikpeng antes de sua entrada na região dos formadores do Rio Xingu. Para reconstituir esse itinerário, é preciso analisar as narrativas (relatos semi-míticos e tradições orais) dos próprios Ikpeng. Estas, porém, nos permitem uma reconstrução histórica intermitente e compouca profundidade cronológica, numa zona imprecisa
em que figuras originárias de determinado grupo de parentela atualmente existente não se distinguem dos grandes antepassados com poderes sobrenaturais de que falam os mitos.

A seguir, será apresentada uma síntese do itinerário ikpeng, que é contado com maior detalhamento na obra Em nome dos outros. Classificação das relações sociais entre os Txicão do Alto Xingu, de minha autoria (ver o item Fontes de informação).

Na fala ikpeng, Kantavo é o demiurgo original, cujas histórias remontam a um tempo em que esse povo tinha grandes inimigos, tendo como sólido aliado o povo Txipaya. Suas relações com os Txipaya eram amigáveis e prestativas, embora os Ikpeng contem que aprisionaram e criaram um grupo deles, a quem atribuem a origem das formas e da confecção de cestaria, da tecelagem do algodão, entre outras técnicas. Confessam, além disso, deles terem recolhido vários cantos e elementos rituais que foram integrados aos seus. Indo ao encontro desse relato, fontes antigas (como Nimuendaju, 1948 e Snethlage, 1910) estiveram entre um grupo Xipaya que habitava as margens do Iriri, afluente principal do Baixo Xingu, levando a crer que os Ikpeng teriam habitado aquela região.

Já por volta de 1850, os Ikpeng ocuparam uma área caracterizada por muitos rios convergentes, onde guerrearam com uma série de grupos. Mas os nomes que dão aos rios não permitem identificar a região. Porém, a configuração geral da bacia hidrográfica, a descrição de certos recursos naturais (como castanha) e de acidentes geográficos, bem como as evidências sobre nomes e características dos seus inimigos, permitem supor que se trata da bacia do Teles Pires-Juruena, mais precisamente na zona intermediária da confluência do Rio Verde-Teles Pires e da confluência do Teles Pires-Juruena.

Quanto aos inimigos, eles mencionam os Tapaugwo e os Abaga, estes podendo corresponder aos Apiaká, que nesse período (entre 1850-1900) ocupavam uma área entre o Juruena e seu afluente Arinos. Também fazem referência aos Kumari, que não corresponde à designação conhecida de nenhum povo dessa região, mas que talvez se trate dos Kaiabi. Comentam também a presença de um grupo de brancos, que possuíam cavalos e gado, entre os quais os Ikpeng capturaram uma ou várias pessoas. Curiosamente, os Ikpeng chamam Tupi a este último grupo. Essas hostilidades permanentes, mesmo que irregulares, provocavam sucessivos deslocamentos das aldeias ikpeng.

Pouco antes de 1900, pressionados por seus adversários, que, por sua vez, eram pressionados pelo avanço da frente de colonização ao longo do Teles Pires, os Ikpeng atravessaram a Serra Formosa, barreira natural insignificante que assinala a divisão entre as bacias do Teles Pires-Juruena e o Alto Xingu. Nessa região, parecem ter se confrontado novamente com os inimigos do Teles Pires – Abaga e Kumari – além de um grupo que chamaram de Pakairi, cuja composição incluía “brancos e alguns negros”. Trata-se evidentemente dos Bakairi de Paranatinga (com mais probabilidade do que os do Rio Novo), já vivendo as conseqüências do contato com os não-índios, vestidos como brancos e criando gado, misturados com caboclos.

As sucessivas aldeias ikpeng na região alto-xinguana – cerca de 12 ao longo da primeira metade do século XX – situavam-se todas perto de pequenos afluentes ou braços mortos do Jatobá ou do Batovi, aproximadamente a 13o de latitude Sul. Por volta de 1930, iniciam os ataques contra as aldeias xinguanas mais meridionais: wauja, nahukwá e mehinako. Dessa maneira, pode-se supor que o histórico de ocupação territorial ikpeng corresponde à habitação na região do Iriri pelo menos até a primeira metade do século XIX, posteriormente uma migração para o Alto Tapajós e, depois de algumas décadas, o deslocamento para o Alto Xingu, entre o final do XIX e o início do século XX.

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A pacificação dos Ikpeng conseguida pelos irmãos Villas-Bôas representa uma ruptura determinante na história desse povo, contribuindo para instaurar uma nova relação com as outras etnias da região. A condição de atacantes e temíveis guerreiros inverte-se em 1960, quando os Ikpeng capturam duas jovens wauja. Estas seriam portadoras da morte “branca”, pois os Ikpeng começam a morrer de doenças respiratórias provocadas pelo vírus da gripe. Além
disso, os Wauja resolvem se vingar e conseguem armas de fogo com um brasileiro. O conflito provoca 12 mortes entre os Ikpeng, mas os wauja não conseguem recuperar as moças. Em razão da doença e das armas dos “brancos”, os Ikpeng perdem assim em poucos meses metade de sua população.

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Em 1964, os Villas-Bôas os encontram numa situação bastante precária, doentes e subnutridos. Procuram então auxilia-los e lhes fornecem instrumentos de metal. Mas os grupos não-indígenas que invadem a região ameaçam cada vez mais a sua existência, trazem-lhes novas doenças e, em 1967, os Ikpeng aceitam a transferência para outro território, dentro dos limites do Parque.

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Sob a proteção das autoridades do Parque Indígena do Xingu, os Ikpeng entram numa fase de dependência. Do ponto de vista sanitário e alimentar, recebem o apoio cotidiano do posto indígena. Além disso, os indigenistas estimulam os outros povos do Parque a serem generosos com seu antigo inimigo. Assim, os Ikpeng se dispersaram por um curto período, indo cada grupo familiar hospedar-se em uma aldeia. Mas as relações com seus hospedeiros foram
difíceis, uma vez que os ressentimentos decorrentes do período de guerras ainda estavam latentes.

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No início da década de 1970, reagruparam-se e fizeram uma aldeia nas proximidades do Posto Indígena Leonardo Villas Boas, na estrada que desemboca na convergência do ro Kuluene com o rio Tatuari. Não se adaptaram ao local e, entre os final dos anos 70 e início dos 80, mudaram-se para a região do Médio Xingu, abaixo da aldeia Terra Preta, dos Trumai. Em 1985, Megaron Txucarramãe, então administrador do Parque,criou o Posto Indígena Pavuru,
distante cerca de 15 minutos da aldeia Moyngo. Atualmente, este Posto é administrado pelos Ikpeng, constituindo quase que uma outra aldeia, onde vivem as famílias dos funcionários da Funai (chefe de posto, assistentes, motorista de barco etc.), um dos professores e funcionários ikpeng do distrito de saúde. Há ainda uma família responsável pelo Posto de Vigilância Ronuro, próximo à região tradicional ikpeng, no rio Jatobá. De modo, geral, os Ikpeng são muito envolvidos na defesa do território do Parque, vigiando e apreendendo invasores, como madeireiros e pescadores.

Mas o principal alvo dos Ikpeng ultimamente tem sido a reconquista de seu território anterior à transferência para o Parque, na região do rio Jatobá, contígua ao PIX, mas que está fora de seus limites. Em setembro de 2002, foi realizada uma expedição ikpeng a esse território, com fins de reconhecimento e para trazer recursos como plantas medicinais e conchas para a confecção de brincos.


01:: Ikpeng trocam presentes com os irmãos Villas Bôas na época do primeiro contato.
Foto: Eduardo Galvão, 1964.

02:: Primeiro contato dos Ikpeng com a expedição liderada pelos irmãos Villas Bôas. Foto: Eduardo Galvão, 1964.

03:: Ikpeng junto ao avião que levou a expedição liderada pelos Villas Bôas ao seu encontro. Foto: Eduardo Galvão, 1964.

04:: Primeiro contato com os Ikpeng. Foto: Eduardo Galvão, 1964

05:: Foto: Geraldo Guimarães, 1980

Patrick Menget
antropólogo, professor da L'Université Libre de Bruxelles
pmenget@yucom.be

Colaboração de
Maria Cristina Troncarelli
Projeto de Formação de Professores Indígenas do Programa Xingu

Janeiro de 2003

 
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