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A maioria
dos Ikpeng possui individualmente uma impressionante
lista de nomes (entre seis e 15, uma dúzia
em média). A cadeia de nomes de cada um é
recitada em um ritual (orengo eganoptovo:
recitação de nomes) relacionado
com a cerimônia do regresso de uma expedição
guerreira bem sucedida. Ou então é
recitada em ocasiões muito formais em que
um grande (que não é designado
como |
chefe, pois o termo não é adequado)
expressa a fala do grupo, através de formas especiais.
Neste caso, começa o discurso pela proclamação
dos seus nomes, e vai repetindo diversas vezes, para acentuar
o que diz. Cada cadeia de nomes chama-se orengo
e é composta por um nome mais comum e importante,
o emiru adquirido numa fase adiantada da
vida, sempre depois da morte dos pais , e nomes
imon que são dados desde o nascimento.
O processo de nomeação é
cumulativo, já que ao longo da vida um indivíduo
costuma ser nomeado diversas vezes e retém todos
os nomes. A utilização destes nomes opõe-se
à dos apelidos, que são cognomes afetuosos,
zombeteiros ou ocasionais. O apelido é amut,
termo que designa um tipo de objeto de enfeite de uso
jocoso. Ao contrário dos nomes, os apelidos são
descritivos, singulares contingentes e esquecíveis.
A maioria dos Ikpeng possui um apelido, que são
as designações mais utilizadas no cotidiano,
em detrimento dos nomes. Ou seja, apesar de todos possuírem
muitos nomes, seu uso cotidiano é raro. De todo
modo, o processo de nomeação é
fundamental para a concepção de mundo
e de reprodução social desse povo.
A denominação se faz de acordo
com uma cadeia de três membros, no interior de
uma parentela. Um parente escolhe para uma criança
uma seqüência de nomes já existentes
de um de seus próprios parentes, geralmente morto.
Há então um outro que designa e alguém
que é designado. A relação entre
estes dois últimos é, freqüentemente,
de parentesco próximo, como pais, tios e avós.
A escolha do nome não é arbitrária,
orienta-se por regras sobre a transmissão dos
nomes e, também, por considerações
sobre a qualidade da identidade social. Evita-se assim
dar a uma criança o nome de um antepassado que
tenha sofrido de uma falta grave ou de um excesso pernicioso,
pois há possibilidade da repetição
de seu destino.
Dessa forma, por meio da transmissão
de nomes, os Ikpeng concebem uma relação
contínua com os ancestrais, que remontam até
os heróis fundadores míticos. Mas não
apenas a continuidade social é assegurada, como
também novos nomes são incorporados ao
longo do tempo, seja porque determinados apelidos são
adotados como nomes e transmitidos, ou, e principalmente,
pela incorporação de nomes dos cativos
estrangeiros. Mesmo que sejam poucos, a importância
dos cativos como nomeadores é grande e, assim
que tenham filhos com um ikpeng, são preferencialmente
convocados como designadores.
Na lógica ikpeng da captura como substituição
de um morto, pode-se dizer então que, do ponto
de vista da substância (seres de carne), o sistema
é concebido como um estado de equilíbrio
(morre um, captura-se um estrangeiro para substitui-lo);
mas do ponto de vista da qualidade, a substância
estrangeira representa um acréscimo, sob a forma
de novos nomes.
Mesmo que o momento histórico em que
vivam interrompa o ciclo guerreiro e a captura de estrangeiros,
esse modelo continua operando conceitualmente, concentrando
no plano simbólico um modo de pensar e agir no
mundo.
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