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Distinguem-se três grandes níveis de
organização da sociedade ikpeng: o povo,
a casa e o fogo. Entre os Ikpeng não existe uma
expressão que designe exatamente o povo,
enquanto comunidade de língua e cultura, mas várias
formas que denotam aspectos particulares da coletividade.
Na presença de um não-ikpeng, emprega-se
preferencialmente o nós exclusivo,
txmana, que se opõe ao conjunto dos estrangeiros
ou inimigos, uros. Como referência, diz-se
também freqüentemente ompan Ikpeng ninkun,
que significa todos os Ikpeng.
A totalidade social ikpeng é um grupo
moralmente solidário em relação
ao exterior, que fala uma só língua (tximna
muran) e costuma ser valorizado através da
designação tempano, conjunto
dos homens, sobretudo em contextos cerimoniais
e solenes, em que a humanidade essencial do nós
se opõe à ambígua humanidade do
estrangeiro-inimigo.
O segundo nível que se pode reconhecer
na sociedade ikpeng é o grupo doméstico.
Habitam uma mesma moradia cuja arquitetura assemelha-se
ao tipo alto-xinguano agregados de unidades domésticas
de tipo e dimensão variáveis. A casa não
privilegia um tipo de relação social,
antes contém todos os laços sociais existentes
também entre habitantes de casas diferentes,
embora de modo mais denso. Assim, é mais comum
que as mulheres de uma casa vão colher os tubérculos
de mandioca e preparar o beiju juntas. Do mesmo modo,
os homens co-residentes costumam caçar e pescar
em conjunto.
Cada uma das várias famílias nucleares
ou unidades domésticas co-residentes estão
agrupadas em torno de um fogo, que serve para cozinhar
e aquecer nas noites frias. Os que compartilham esse
fogo constituem o terceiro nível
reconhecível da sociedade ikpeng, geralmente
composto pelo marido, esposa e os filhos (biológicos
e eventualmente adotivos). Como pratica-se a poliginia
e a poliandria, tanto o homem como a mulher podem ter
mais de um cônjuge, que também partilha
do fogo.
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De modo geral, os Ikpeng não distinguem
os parentes consangüíneos dos afins (parentes
por aliança). Dessa forma, o parentesco não
implica necessariamente uma ancestralidade comum, podendo
tratar-se de uma procriação futura. Portanto,
virtualmente, todos os Ikpeng são parentes, sendo
as diferenças nos graus de parentesco relativas
às regras matrimoniais.
Não há entre os Ikpeng uma noção
de linhagem, pois um filho descende sempre de seu pai
e uma filha descende sempre de sua mãe. A concepção
propriamente dita resulta da cópula, mas o feto
masculino (tempano) compõe-se unicamente
da substância espermática. Por isso, é
necessário alimentar continuamente o crescimento
do embrião, e o marido de uma mulher não
é capaz de cumprir sozinho essa tarefa. Para
tal, servirão os amantes regulares da futura
mãe e, ocasionalmente, outros homens, que assim
passarão a sê-lo também. O papel
da mãe, no entanto, não é o de
simples receptáculo, pois ela imprime uma forma
ao seu filho, enquanto os pais são responsáveis
por sua substância.
A família nuclear, mais precisamente
o conjunto constituído pela mãe, os seus
filhos, o seu marido e os genitores associados
compõe uma comunidade de substância, no
seio da qual há trocas incessantes de fluidos
ou humores que, somados, podem ter um resultado neutro
ou equilibrado, mas cujos excessos provocam modificações
corporais que repercutem de forma prejudicial,
ou mesmo fatal, no ser espiritual dos membros
mais frágeis da comunidade, as crianças.
Efetivamente, a regra de filiação
bilateral e o conjunto das outras regras sociais não
definem qualquer segmento social entre a comunidade
étnica e a família restrita. Os fatores
econômicos e políticos, contudo, podem
moldar a forma dos agrupamentos e dar assim uma certa
plasticidade aos arranjos coletivos.
O status de prestígio (werem:
o mestre, ou weblu: o fornecedor,
ou simplesmente oke: o grande) depende
de qualidades e esforços pessoais e não
são hereditários. Existem sempre vários
werem, à volta dos quais se podem cristalizar
uma rede de parentela durante um certo período.
Por fim, cada casa tem um senhor, que é
responsável por coordenar as atividades cotidianas,
mas que não exerce necessariamente a função
de chefe.
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