| O território
tradicional era a região entre os rios Juruá
e Purus, com os limites naturais do Mamoriazinho, do Pauini
e da margem direita do Xiruã. O viajante inglês
William Chandless o localizou, no século XIX, no
lado esquerdo do Purus, estendendo-se cerca de 300 milhas
entre os rios Sepatini e "Hyuacu". O etnólogo
alemão Paul Ehrenreich também localizou
o território Jamamadi, na segunda metade do século
XIX, no lado esquerdo do Purus, desde a foz do Ituxi até
acima do Pauini.
A primeira menção aos
Jamamadi em uma fonte histórica foi feita, em
1845, pelo militar João Henrique Matos, que faz
referência a "muitas malocas". Naquela
época, alguns Jamamadi já trabalhavam
como mão-de-obra para o comerciante Manoel Urbano
da Encarnação, que controlava a exploração
das "drogas do sertão" no médio
Purus. O naturalista francês Castelnau também
viu "Jamaris" em 1847.
A expedição de Serafim da Silva Salgado
encontrou, em 1852, 400 Jamamadi na foz do igarapé
Macuiany e mais de 100 na foz do igarapé Euacá.
Manoel Urbano da Encarnação encontrou
mais duas malocas por ocasião de sua expedição
de 1861 e descreveu os Jamamadi como vizinhos dos Apurinã,
sendo numerosos e muito inclinados à lavoura
e à caça.
O alvo do esforço missionário
dos franciscanos italianos Venâncio Zilocchi e
Matteo Canioni, em 1877, foi primariamente atrair grupos
Jamamadi para a missão Imaculada Conceição
no Rio Purus, situada à margem esquerda do igarapé
Mamoriazinho. Os frades encontraram oito malocas abandonadas,
cujos moradores tinham se refugiado na nascente do rio
Cainahã por causa da morte de duas mulheres,
causada por um Apurinã. Canioni finalmente conseguiu
atrair 50 Jamamadi, mas estes não queriam ficar
na missão por medo dos Apurinã e por falta
de alimentos. Numa tentativa posterior, os frades conseguiram
inicialmente convencer outro grupo, que tinham encontrado
subindo o Mamoriazinho, para descer à missão,
mas estes Jamamadi voltaram à sua maloca depois
de receber roupas e ferramentas, desestimulando os missionários
a continuar o trabalho.
Chandless escreveu, em 1866, que os
Jamamadi viviam exclusivamente na terra firme e nos
igarapés, evitando o Purus, e que eles não
tinham canoas, o que pode ser interpretado como um indício
de que eles fossem um povo da terra firme há
muito tempo. O seringalista Labre, fundador da cidade
de Lábrea, também os descreveu, em 1872,
como vivendo na terra firme. Segundo este autor, eles
eram agricultores e não faziam comércio
com outros povos, sendo medrosos e fugindo do contato
com os brancos.
Apesar das tentativas de se manterem
distantes dos brancos, os Jamamadi não foram
poupados das vicissitudes da época e alguns grupos
foram transformados em seringueiros ou fornecedores
de produtos agrícolas, ou por integração
paulatina no sistema de patronagem ou por usar diversas
formas de violência direta.
O etnólogo americano Joseph
Steere encontrou, no final do século XIX, grupos
Jamamadi nas cabeceiras do Mamoriazinho, depois de passar
por áreas com plantações desertas.
Numa grande maloca abandonada, ele soube que, pouco
tempo antes, os 130 moradores tinham sido acometidos
por uma epidemia de sarampo trazida por um índio
e que causou a morte de cerca de 100 índios.
Euclides da Cunha relatou, depois
de visitar a região em 1904 e 1905, que no rio
Inauini foi encontrado um acampamento de seringueiros
peruanos que tinham a seu serviço 60 Jamamadi.
Estes estavam presos num círculo formado por
homens armados de rifles para evitar qualquer tentativa
de fuga. Eles tinham sido aprisionados em sua maloca
a muitas léguas dali e conduzidos ao seringal
sob toda a sorte de violência. Alguns morreram
na viagem, outros, ao chegar no acampamento.
No início do século
XX, os Jamamadi passaram por quase extintos. O Posto
Indígena Manauacá, do SPI (Serviço
de Proteção aos Índios), no rio
Teunini, foi criado para proteger os Jamamadi. Nos anos
1930, cerca de 85 Jamamadi moravam no posto, coletando
látex e castanha-do-pará. Em 1943, o posto
foi transferido para outro lugar, mas apenas 28 Jamamadi
ficaram nele, até sua desativação
em 1945.
Numa viagem de inspeção,
Dorval de Magalhães visitou grupos indígenas
no igarapé Duque, afluente do rio Mamoriá,
onde encontrou 22 índios, entre os quais as mulheres
eram Jamamadi e os homens Apurinã, que eram explorados
pelo comerciante Manoel Bezerra de Araújo. Magalhães
também registrou a presença de grupos
Jamamadi no rio Piranha e no igarapé Curiá.
Nos anos 1940 a 60, os Jamamadi, como
outros povos na região, foram vítimas
de expedições de extermínio, em
particular no Rio Pauini.
Um levantamento básico de assentamentos
antigos e atuais na Terra Indígena Jarawara/Jamamadi/Kanamanti,
realizado pelo autor em final de 2000, permite fazer
uma avaliação preliminar das migrações
dos últimos 60 a 80 anos. As regiões antigamente
habitadas foram os igarapés Curiá, Curiazinho
e Saburrum e, fora dos limites da atual Terra Indígena,
os igarapés Apahá e Aripuanã e
o rio Piranha. Durante várias décadas,
as comunidades deslocaram-se cada vez mais para o sul,
mas sempre evitaram a proximidade do Purus. Neste contexto,
a aldeia de São Francisco, com a missão
da SIL, representa, desde o final dos anos 60, um tipo
de "aldeia bloqueadora" das migrações
por sua grande atração.
Um marco histórico muito importante
de que falam os Jamamadi foi uma série de epidemias
que surgiu em meados do século XX e que parece
ser a responsável por várias migrações
em razão de seus impactos.
Quando Robert e Barbara Campbell chegaram
àquela região em 1963, encontraram a população
Jamamadi daquela terra reduzida a cerca de 80 pessoas,
contando poucas crianças, num estado desolador.
A partir de então, o quadro podia ser revertido
completamente. A população atual é
de cerca de cerca de 240 indivíduos.
Quanto às relações
interétnicas atuais, é possível
constatar que os Jamamadi continuam a evitar contato
com os brancos, chamados jara. As relações
com os Paumari são amigáveis, o que já
não ocorre com os Jarawara, que às vezes
são tensas.
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