O cosmos jarawara está divido em quatro lugares distintos:
a terra, o céu, as águas e abaixo da terra. O céu e a terra são extremamente
parecidos, e são habitados pelos mesmos tipos de seres: humanos, animais, plantas,
espíritos de animais e plantas, e monstros. No entanto, o céu parece ser em
uma versão melhorada da terra. Lá todo mundo é jovem e belo, e os caçadores
conseguem carregar uma anta sozinhos. Existe ainda um céu mais acima do céu,
onde mora Jesus, mas este os Jarawara não conhecem e não sabem descrever, pois
os xamãs nunca o visitaram, ao contrário do céu “perto”, que eles vão e vem
quando bem entendem. Abaixo da terra moram os espíritos de algumas plantas,
como a mandioca, e também os “espíritos velhos” (inamati bote) que são canibais
e sobem à terra constantemente atrás de humanos para suas refeições. E, finalmente,
nas águas e rios moram os monstros mais perigosos dos cosmos, os maka (que literalmente
significa cobra), que têm a capacidade de transformação corporal e podem ser
vistos tanto em forma humana como em forma animal. Os Jarawara vivem na terra
e estão sempre atentos para não terem suas almas raptadas pelos outros seres
(terrestres ou não), mas, como explicaremos abaixo, eles possuem também laços
de parentesco bastante estreitos com os habitantes do céu.
Para os Jarawara, quando as árvores e plantas
cultivadas estão começando a crescer (ainda estão “baixas”) seus
espíritos saem debaixo da terra e começa a chorar. Os espíritos
que moram no céu ouvem o choro e descem para buscar esta “criança”.
Eles a levam para o céu, onde ela é adotada ou vai morar com o
espírito de algum jarawara consangüineo que morreu. Este espírito
de planta, que agora mora no céu, é considerado tanto “filho” da
pessoa que o plantou como “filho” da planta da qual saiu. Eles
dirão, por exemplo, que ele é “filho do Okomobi” e “filho da
banana”, mas ao mesmo tempo ele também é filho adotivo daqueles
que o criam no céu.
Quando uma pessoa morre na terra, ela é enterrada ao
lado de uma das árvores que plantou. Depois de alguns dias, ou no
cair da noite do próprio dia do enterro, os Jarawara afirmam que
diversos “seres” saem da cova, ou melhor, saem de dentro do corpo
(mais especificamente da barriga e do fígado). Eles são pelo menos
três dos seguintes: um espírito de onça, um espírito (inamati),
um monstro (yama), e um animal, como macaco, gavião ou anta. Cada
um destes seres terá uma destinação particular. O animal irá vagar
pela terra e poderá ser caçado por um jarawara a qualquer momento.
O espírito da onça será levado por um xamã do céu que irá
domesticá-lo. O monstro será levado por um espírito de planta
benfeitor, que o prenderá em algum lugar não conhecido, ou vagará
pela terra, atormentado a vida de todos, pois será canibal. O
espírito que sai como espírito mesmo poderá ter uma das duas
destinações descritas abaixo, ou pode haver dois espíritos que saem
da mesma pessoa, cada qual indo para um lugar. A primeira opção é
que os “filhos” e “netos” do indivíduo morto venham buscá-lo para
levá-lo ao céu. Estes “filhos” e “netos” são de fato aqueles
espíritos que saíram das plantas que o indivíduo plantou no
decorrer de sua vida. Ou seja, quanto mais árvores um Jarawara
plantar, mais “filhos” ele terá no céu. Assim que chegar lá, o
espírito do indivíduo que morreu ficará alguns dias na aldeia de
seus “familiares” descansando. Terminado este período, ele será
levado para outra aldeia do céu, onde passará pelo ritual de
iniciação feminina, sendo ele homem ou mulher. Neste ritual, ele
será chicoteado (como ocorre com as meninas na terra) e quando as
feridas cicatrizarem, ele poderá voltar para a aldeia de seus
“filhos” e “netos”, sempre no céu, onde permanecerá junto a seus
“parentes”.
A segunda opção para um espírito que sai de dentro
de uma pessoa morta é que ele chame seus “filhos” do céu
(espíritos que saíram das plantas que ele cultivou em vida) para
virarem queixada. Todos eles descem até a terra, onde os “filhos”
de outras pessoas (espíritos de plantas que pessoas que vivem na
terra plantaram) batem neles com um bastão para que se transformem
em queixada. O morto e seus “filhos” se tornam queixada e passam a
morar na terra, também suscetíveis de serem caçados e comidos
pelos Jarawara a qualquer momento. O espírito da pessoa que morreu,
e que chamou seus “filhos” (das plantas) para virarem queixada,
será o “dono (hitiri) dos queixadas”, ou melhor, o dono deste bando
de queixadas. Este espírito pode aparecer para os xamãs jarawara
sem avisar nem ser chamado, e informar onde estão os queixadas, o
que resultará em uma caçada bem sucedida pelos homens se eles forem
ao lugar indicado. Ao mesmo tempo, este espírito “dono dos
queixadas” (que é, recordamos, um jarawara falecido) possuí
vínculos de parentesco com os vivos, e assim, se um grupo de
queixadas é visto bem perto da aldeia, os Jarawara explicam o
acontecimento dizendo que o “dono, nosso parente, teve saudades dos
seus e veio visitá-los, mostrando o caminho e trazendo os seus
filhos queixadas” (os quais os jarawara matarão e comerão se
pegarem suas espingardas a tempo).