| O contato com os “brancos” data de mais de cem anos, e o trabalho nos seringais para os patrões regionais extinguiu-se por completo a não mais de quarenta anos. Da população atual, todos os indivíduos adultos conheceram a exploração do sistema de aviamento, no qual os brancos ofereciam as mercadorias em adiantamento, e, em seguida, os índios passavam meses nos seringais para quitar suas dívidas, sempre controladas pelos primeiros. Nesta época, os movimentos e mudanças de aldeias estavam, entre outros fatores, ligados aos lugares de extração e às ordens dos patrões. Os homens construíam casas precárias no meio da floresta, chamadas regionalmente de “centros”, e lá passavam semanas trabalhando, enquanto suas mulheres e filhos esperavam nas aldeias, relativamente próximas às residências dos patrões.
Desse tempo ficaram os rancores e a desconfiança dos Jarawara com relação aos brancos. Hoje eles afirmam que os jovens devem aprender português e matemática para nunca mais ser explorados. De fato, praticamente todos os jovens e crianças, apesar de nem sempre falarem português, são alfabetizados na língua jarawara pelos professores indígenas e sabem pelo menos somar e subtrair. Isto não impede que ainda sejam iludidos por alguns comerciantes, mas, na maioria das vezes, são respeitados, sobretudo no que diz respeito às despesas mais importantes, como a compra de motores de barco, de bicicletas, etc., sempre efetuadas pelo intermédio dos poucos homens que falam com fluência o português.
As compras acontecem na cidade de Lábrea, que eles visitam no início de todo mês, quando os professores e agentes de indígenas de saúde (AIS) vão receber seus salários e quando é depositada a aposentadoria dos mais velhos pelo INSS. Nas idas à Lábrea, praticamente a comunidade inteira se desloca para cidade, ficando na Terra Indígena apenas algumas pessoas idosas e as mulheres solteiras com filhos pequenos. Trata-se de um momento importante para ver os parentes que moram em outras localidades e também para “passear” e não trabalhar. Mas eles permanecem em Lábrea apenas enquanto tem dinheiro, o que raramente ultrapassa três dias. Nestas breves passagens pela cidade, eles se abastecem dos produtos industrializados indispensáveis, como sabonete, pilha, detergente, fósforo, café, sal e açúcar, e ficam a maior parte do tempo entre sí, conversando apenas com os poucos comerciantes que conhecem ou com os funcionários da Funasa, Funai, Opimp (Organização dos Povos Indígenas do Médio Purus) e Opan (Operação Amazônia Nativa). No entanto, diversos homens apreciam bastante a cachaça e as bebedeiras não são raras. Uma vez bêbados, eles se tornam alvo de pequenos roubos, tanto pelos delinqüentes locais como pelos comerciantes dos bares. Alguns homens freqüentam os prostíbulos localizados na beira do rio. Estes “desvios de conduta” não passam despercebidos pelo resto da comunidade Jarawara, sobretudo quando resultam em violência conjugal. Os comentários e fofocas a respeito de todos aqueles que bebem ou não voltam cedo para casa com suas esposas se espalham rapidamente, e os “culpados” são prontamente reprimidos por todos.
Os Jarawara possuem mais de quatro casas na cidade que pertencem àqueles que as compraram (ou ganharam, como é o caso do cacique da aldeia Casa Nova), mas que abrigam todos os membros da aldeia em que seu dono mora quando estes chegam para suas visitas mensais. Estas residências permanecem fechadas quando eles estão na Terra Indígena, e são freqüentemente arrombadas e assaltadas. Quando se trata de objetos importantes, os Jarawara encontram os ladrões com a ajuda dos vizinhos e vão pessoalmente ameaçá-los com frases do tipo “eu sou índio bravo mesmo, como o meu pai, se você roubar aqui de novo, eu vou te matar”, que surtem um efeito momentâneo, pois os habitantes da cidade mantêm, sobre os Jarawara, uma imagem de índios violentos e sanguinários, devido a acontecimentos ocorridos na região no ínicio e na metade do século XX, e que se tornaram lendas locais.
Da mesma forma, a Terra Indígena onde vivem é constantemente invadida por pescadores e madeireiros. É bastante comum os homens, ao voltarem da caça ou da pesca, dizerem que viram estranhos. Isto é motivo de grande revolta para os Jarawara, que fazem reuniões regulares nas quais visam discutir o que deve ser feito para acabar definitivamente com a entrada de não-índios em suas terras. Todas as reclamações e interações entre eles e as instituições governamentais e as organizações não-governamentais são dirigidas por três indivíduos: o cacique da aldeia, o professor indígena e o agente indígena de saúde (AIS), que são os representates dos Jarawara no mundo dos brancos.
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