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ORGANIZAÇÃO SOCIAL E PARENTESCO   
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ORGANIZAÇÃO SOCIAL E PARENTESCO

O grupo, composto por apenas 180 pessoas em 2006, está dividido em cinco aldeias principais - Casa Nova, Yemete, Água Branca, Saubinha e Nazaré - e uma temporária - Canta Galo - onde os habitantes de Saubinha se deslocam durante o inverno amazônico para coletarem castanha. As aldeias são pequenas, compostas de no máximo cinqüenta pessoas (incluindo as crianças), e se consideram entidades econômicas e políticas autônomas. Em cada localidade existe um cacique, que é essencialmente aquele que faz a comunicação entre o grupo e os diversos agentes da sociedade nacional, sendo esta a sua única função social. Idealmente, teria de haver pelo menos um xamã em cada localidade, o que já não é mais o caso hoje, visto os poucos pajés restantes.

Sabemos que, no passado, as etnias da família lingüística Arawá se organizavam em subgrupos nomeados. Os viajantes que entraram em contato com estes povos no final do século XIX descrevem que cada etnia estava dividida em subgrupos endogâmicos e autárquicos, que se auto-designavam com nomes de plantas e de animais, e atribuíam a seus membros características do ser epônimo. Cada subgrupo tinha um xamã e um chefe e morava em uma única maloca, que era a aldeia. Os subgrupos eram nomeados com sufixos: madihá entre os Kulina, deni entre os Jamamadi e Deni, dawa entre os Zuruahá e dyapa entre os Kanamari (da família linguística Katukina). Os Jarawara atuais não fazem referência direta a estes subgrupos, mas acreditamos que se algum dia eles existiram o sufixo utilizado foi provavelmente mati ou yafi.

Há aproximadamente vinte anos, antes da chegada dos missionários evangélicos, os Jarawara possuíam uma grande mobilidade, mudando de aldeia por diversos motivos: morte de um de seus membros, brigas, doenças, etc. A mudança de localidade não significava necessariamente a dissolução do grupo local. Ao contrário, as parentelas se mantinham juntas em sua movimentação pelo território. As pessoas mais velhas, quando perguntadas onde já moraram em suas vidas, levam bastante tempo para se lembrarem e listarem todas as localidades, esquecendo-se sempre de algumas. Já os jovens só conheceram uma aldeia, onde vivem desde sua infância.

O único motivo da sedentarização, segundo os Jarawara, é a presença dos brancos. As aldeias Casa Nova e Água Branca têm casas de missionários do SIL e da JOCUM (Jovens com uma Missão) respectivamente. Estes missionários já moraram com os índios durante longos períodos, mas hoje vêm apenas para visitar e passar algumas semanas. Suas casas permanecem intactas. Foram também os evangélicos que pediram para os índios abrirem e cuidarem de pistas de pousos nestas aldeias, as quais servem tanto para suas chegadas e partidas como em caso de doenças graves, quando um avião busca um enfermo. As aldeias Água Branca e Casa Nova possuem igualmente uma escola e um posto de saúde da Funasa (este também presente em Saubinha), onde ficam alguns medicamentos e onde o assistente de enfermagem dorme durante suas estadias periódicas. Idealmente, os Jarawara deveriam contar com um assistente de enfermagem exclusivamente para eles, que ficaria a maior parte do tempo na aldeia Casa Nova, onde se localiza o “Pólo-Base”, e passaria alguns dias nas outras aldeias. Mas as tensões constantes entre os profissionais de saúde e os índios, além dos problemas internos do orgão responsável, dificultam que este ideal seja realizado. Quando perguntados porque não se deslocam mais, os Jarawara dizem que devem cuidar destas instalações dos brancos (das quais eles se orgulham enormemente) e que não podem mais partir de uma hora para outra, abandonando tudo.

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As aldeias são formadas por diversas casas construídas no modelo regional amazônico: feitas com madeira de paxiúba, sobre palafitas e com telhado de palha ou alumínio, dependendo da situação ecônomica da família. Nas aldeias com pista de pouso (que serve também como campo de futebol), as casas se distribuem dos dois lados do campo, de frente para este, uma ao lado da outra. Já nas aldeias “tradicionais”, as casas estão espalhadas, e suas portas não são todas na mesma direção. As casas abrigam normalmente uma família nuclear (um casal e seus filhos) e um grupo de irmãos possue suas casas próximas ou vizinhas. Os jovens que se casam constroem suas residências o mais perto possível de seus pais. De uma maneira geral, em um primeiro momento, os recém casados moram perto ou na aldeia da família da mulher para em seguida ficarem próximos da família do homem. De fato, nos primeiros anos, se ambos não são da mesma aldeia, oscilam entre as residências dos pais da moça e do moço, ou entre suas próprias casas construídas ao lado destas. É apenas em um segundo momento, com o nascimento de seus filhos, que se instalam definitivamente na aldeia dos familiares do homem. Mas a virilocalidade não é uma regra instransponível, diversos outros fatores influenciam na decisão de moradia do casal.

As casas possuem um dormitório (todos dormem juntos, cada um em sua rede com mosquiteiro, sendo que o casal e os filhos pequenos dividem o mesmo mosquiteiro) e uma cozinha. Esta última é um terraço sem paredes na frente da casa, onde fica o fogo da família e onde se preparam e se consomem as refeições. Nas proximidades das residências ficam as casinhas dos animais domesticados (galinhas, porcos e queixadas), além de pequenas hortas, onde se planta tabaco para fazer rapé, e a planta do timbó. Cada aldeia possui um ou dois fornos para fazer farinha que se localizam longe das casas, na ‘casa de farinha’.

A autonomia das aldeias tem como contrapartida as alianças que unem as cinco localidades entre si. Cada grupo local corresponde a aproximadamente um grupo de irmãos e seus filhos, e estão relacionadas às outras aldeias pelos laços de casamento entre seus membros. Mesmo se idealmente os jarawara preferem se casar com pessoas da mesma localidade, a união entre jovens de aldeias diferentes é comum, assim como o é a troca de irmãs (um jovem casa-se com uma mulher e o irmão desta casa-se com sua irmã), que muitas vezes resulta em mudança de moradia para um dos cônjuges. Os parceiros preferenciais são os primos cruzados classificatórios, filha/o da irmã do pai do/da jovem ou do irmão da sua mãe. Todo outro casamento, apesar de freqüente, é considerado “errado” (mas não incestuoso) pelos índios. As mães solteiras são numerosas e normalmente declaram que seus filhos possuem mais de um pai (todos aqueles com quem tiveram relações durante a gravidez). Os divórcios não são comuns, e o casamento com brancos ou membros de outras etnias são raros e mal vistos. Muitos homens na faixa dos sessenta anos viveram suas vidas inteiras solteiros por falta de mulheres “adequadas” para casarem.

01:: Casas Jarawara na aldeia Casa Nova.
foto: Peter Schröder, 2000/ PPTAL

Fabiana Maizza
Doutoranda PPGAS/USP
fabimaizza@hotmail.com
Agosto de 2007
 
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