 |
::01 |
 |
O mais importante ritual jarawara é o chicane, marina ou
ayaka, a iniciação feminina. Para eles este ritual é a melhor
festa do mundo. Trata-se de um momento de aprendizado, de
encontro entre parentes que moram em aldeias diferentes, de
prazer, de excesso alimentar, de canto e dança, de futebol, de
brincadeira, de risada, de paquera e também de muito namoro
(clandestino ou não). A própria maneira como os índios se
referem ao ritual é reveladora: marina que quer dizer
literalmente banquete (Vogel 2006 : 131) ou ayaka, que significa
cantar em geral, e canto ritual masculino, em específico.
 |
::02 |
 |
Assim que uma jovem menstrua pela primeira vez, ela tem
os seus cabelos cortados (eles ficam bem curtos, como um menino,
mas não são raspados), o seu pai ou tio e outros parentes próximos
constroem uma casinha de palha (chamada em português de chiqueiro,
em jarawara de wawasa) no interior da própria casa, no lugar onde
fica habitualmente a rede da menina. A partir deste momento, ela
passa seus dias e noites no interior deste compartimento, o
deixando apenas para tomar banho. Nas saídas diárias, coloca-se
uma toalha escura em sua cabeça, de forma em que ela não veja e
não seja vista pelos homens, e outra jovem, geralmente sua irmã,
a guia pela mão. Antes que ela chegue à beira do igarapé, todas
as crianças do sexo masculino vão embora sozinhas ou com suas
mães, mesmo os bebês. Uma vez no porto, que durante o dia é um
ambiente exclusivamente feminino, tudo se passa como antes, ela
retira a toalha de sua cabeça e banha-se normalmente, além de
ajudar nas tarefas diárias, lavando louça ou roupa. E assim vive
a menina durante o seu período de reclusão, que dura entre três a
seis meses, aproximadamente o tempo para que os seus cabelos
alcancem a nuca.
A festa (ou o ritual) que marca a “saída da menina” depende de uma decisão
tomada exclusivamente pelo seu pai, e na ausência deste, pelo seu tio
materno. Ele avisa pessoalmente todas as outras aldeias, ou apenas os que
deseja convidar, e marca o dia da festa, que acontece preferencialmente
no verão (julho) ou no inverno (em janeiro, quando os rios já estão cheios,
e chega-se mais facilmente nas aldeias, sendo uma boa parte do caminho
feito de canoa). Não existe uma regra com relação à estação, no entanto,
nos parece que a “saída da menina” sempre ocorre no período da lua cheia. O
ritual do chicane vem sofrendo mudanças nos últimos anos, devido tanto à
pressão exercida pelos missionários evangélicos, presentes na maior parte
das aldeias de todas as etnias do rio Purus, como à morte dos últimos xamãs
restantes (os jovens de hoje não se interessam pela função). Por isso
existem cerimônias que podem se diferenciar substancialmente da que
descreveremos abaixo, que é um modelo de “ritual ideal” baseado nos diversos
relatos recolhidos em campo.
Assim que o pai da menina anuncia o dia da festa, todos os homens da aldeia saem para caçar a fim de encontrar alimentos para “bem receber” os convidados. Normalmente o marina dura no mínimo três dias e três noites, mas ele pode atingir até seis noites, se houver comida suficiente. Se o ritual for realizado no verão, todos da aldeia, homens e mulheres, saem juntos para colocarem timbó no igarapé ou lago mais próximo, e capturarem uma quantidade admirável de peixes que serão moqueados (e neste caso a comida é realmente abundante, como manda a norma, pois “bem receber” é justamente bem alimentar). A farinha que será consumida é fabricada e armazenada durante os vários meses que antecedem a festa.
Quando os primeiros convidados chegam à aldeia, atravessam o campo correndo e gritando “yeeee”, batendo com varetas no telhado e nas paredes das casas. As pessoas que estão no interior, os anfitrões, começam então a imitar o som de animais (macacos, antas, queixadas), e alguns (o xamã e sua esposa) começam a gesticular como estes, balançando a rede como se fossem macacos nos galhos, por exemplo. Em seguida, as mulheres saem de dentro da casa com pedaços de brasa na mão e vão espantar os convidados, que se afastam, indo embora e depois retornando calmamente. Agora começará a festa em sí (ayaka aboni). As mulheres iniciam os cantos denominados eé sentadas no “terraço” da casa, ou seja, acima do solo, perto do chiqueiro da menina. São poucas as mulheres que sabem conduzir estes cantos. Em sua maior parte, são senhoras idosas, esposas de xamãs. Durante o dia inteiro, todos os dias, as mulheres cantam o eé enquanto os homens jogam futebol, conversam, dormem, etc. Após o jantar, quando já está escuro, começam as danças e cantos no pátio, em círculo, todos de mãos dadas, em volta de um pedaço de tronco de mais de dois metros de altura. Gira-se para um lado e depois gira-se para o outro, a noite inteira, até o raiar do dia. Estes cantos podem ser exclusivamente femininos (yowiri) - e neste caso uma mulher lidera, e todas as outras repetem o refrão -, ou masculinos (ayaka), comandados por um xamã. A menina participa da dança com um lenço que cobre os seus olhos sob um chapéu (poro) feito de palha e pena de arara, que tem a forma de um cesto e cobre a sua cabeça inteira até o pescoço. Ela usa uma saia vermelha feita de algodão (yayafa) e um “rabo” (yifope) de folha de buriti, ambos fabricados por sua mãe especialmente para a ocasião. Ela não canta. Quando amanhece, a menina é conduzida novamente à sua casinha, onde permanece até a noite seguinte, quando recomeçam os cantos. Como já foi dito, as danças podem durar mais de três noites, dependendo da quantidade de alimento disponível. Normalmente, as mulheres cantam a primeira noite, e as seguintes são os homens, mas as mulheres também participam das rodas dos homens e vice-versa, “para animar”, “ficar bonito”.
Na última noite, tudo acontece como descrito acima: os xamãs cantam, todos rodam, etc. Quando amanhece, as mulheres descem para o porto com a menina, dão banho nela, a pintam e a alimentam. Depois elas sobem em fila indiana, com varas na mão e cantando yowiri, e chegam ao terreiro onde estão os homens, que continuaram cantando ayaka. Formam-se duas rodas, uma de mulheres, no exteriror, e outra de homens, no interior. As mulheres então avançam com suas varas para baterem nos homens, que por sua vez começam a gritar imitando queixadas e saem correndo. Um dos irmãos da menina retorna ao pátio e a levanta, colocando-a em cima de um tronco de árvore, estendida, de barriga para baixo. Uma mulher amarra os seus pés e mãos. O pai da menina (ou um irmão) traz uma vara e chama os homens para chicoteá-la. Vai quem quer, “quem tiver coragem”. O pajé faz um discurso moralizador, dizendo coisas do tipo “você não trabalha, preguiçosa, não quer ficar em casa com sua mãe para ajudar, só fica saindo”. Um por um, os homens e jovens que têm vontade, especialmente os seus sogros classificatórios (koko), batem na menina, até sair sangue. Em seguida quatro rapazes a levam, ainda amarrada no tronco, para a casa dos seus pais, onde ela é desatada, mas permanece com sua saia e “rabo”.
O pai então traz o rapé (sina) e a cachaça e chama aqueles que bateram em sua filha. Eles tomam o álcool oferecido e o pai sopra o rapé em suas narinas com um canudo. As mulheres ficam ao lado, esperando com brasas na mão. Quando o pai termina de soprar, todas elas se precipitam em direção ao homem e tentam queimá-lo, para “pagar/vingar” (manakone) a menina chicoteada. O homem deve ser ágil o bastante para correr e escapar, o que quase nunca acontece, visto o estado de embriaguez em que se encontra, devido tanto à cachaça quanto ao rapé. Assim, a maior parte dos adultos tem cicatrizes das queimaduras adquiridas nos chicanes. Em seguida, começa aquilo que os Jarawara chamam de “brincadeira”: todos os homens contra todas as mulheres, onde os dois lados tentam debochar do outro, queimando, amarrando, assustando, pintando o rosto com uma tinta que permanece durante dias, etc. Quando acaba a “brincadeira”, que pode durar horas a fio, os convidados vão embora, retornando às suas aldeias.
A menina, por sua vez, passa dois dias e uma noite suja de sangue, devendo permanecer longe d’água e não podendo olhar diretamente para a luz. Em um primeiro momento ela só pode se alimentar de palmito de açaí, farinha, beiju, macaxeira e banana verde assada. Depois de alguns dias, sopra-se rapé em suas narinas e ela pode comer farinha, peixe traíra e jeju, e retoma gradualmente à sua dieta habitual.
|