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HISTÓRICO DO CONTATO   
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HISTÓRICO DO CONTATO
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Os Kagwahiva são referidos pela primeira vez em 1750, na região do curso superior do Rio Juruena, ao lado dos Apiaká. Logo depois, esta área foi vasculhada pela frente mineradora que, desde Cuiabá, avançava para o Norte à procura de novas minas de ouro, o que pode ter provocado o início do processo migratório kagwahiva (Menéndez, 1989:38). Além disso, a guerra com os Munduruku também
foi assinalada como causa do deslocamento dos Kagwahiva dessa região para as margens do Rio Madeira (Nimuendajú, 1924:207-208). Entretanto, é difícil fazer qualquer afirmação mais categórica sobre esse período, pois os condicionantes dessa migração são muito mais complexos e se relacionam a uma dinâmica relação intertribal na região.

Em 1817, os Kagwahiva são registrados pela primeira vez sob o etnônimo de Parintintin, dado, talvez, pelos Munduruku aos seus inimigos. Em 1850, Kagwahiva e Parintintin são registrados ao mesmo tempo, sendo que depois disso o etnônimo Kagwahiva desaparece e tais povos passam a ser designados por Parintintin. Após a “pacificação” realizada por Nimuendajú, em 1922 foi possível constatar que Kagwahiva é a autodenominação dos Parintintin e que esta última designação apenas se aplicava a um desses povos.

Na região do Rio Madeira, a aproximação dos grupos Kagwahiva com a sociedade brasileira se deu após uma intensa guerra, que perdurou por cerca de 70 anos, entre meados do século XIX e a década de 1920. Essa guerra só terminou com a ação do SPI (Serviço de Proteção aos Índios) e após a instalação definitiva de seringueiros na região. Curt Nimuendajú foi o principal agente dessa aproximação: contratado pelo SPI, organizou expedições e se fixou no interior do território indígena. Por falta de verbas do SPI, Nimuendajú abandonou seu projeto com apenas cinco meses, deixando em seu lugar vários auxiliares.

Segundo Nimuendajú (1924:201-203), o território Parintintin (entenda-se Kagwahiva) na região do Rio Madeira, estendia-se por cerca de 22.000 km², delimitados ao Norte e ao Oeste por esse rio; ao Sul pelo Rio Machado e a Leste pelo Rio Marmelos, com seu braço oriental o Rio Branco.

Nimuendajú relatou (1924:203) que, entre seus primeiros contatos com o povo Parintintin até sua partida, havia uma população de 250 indivíduos. A subsistência deste grupo era baseada numa economia adaptada à floresta tropical. Plantavam milho, mandioca, batata-doce, urucum, algodão, banana e mamão. Pescavam com arco e flecha e timbó e caçavam preferencialmente antas, veados e macacos.

Logo após os primeiros contatos com os Parintintin, os funcionários do SPI começaram a relatar o aparecimento de outros povos Kagwahiva na região. O primeiro a ser referido como objeto de preocupação deste órgão são os Jiahui. Na tentiva de atrai-los para contato, José Garcia de Freitas e outros auxiliares iniciam uma aproximação e relatam suas experiências em extensos relatórios. Num primeiro momento, os índios são avistados na região das cabeceiras do Rio Branco, e posteriormente passam a ser localizados na região do igarapé Amazonia, local da atual aldeia. A intenção de “pacificar” os Jiahui é explicitada em muitos documentos.

Quanto às relações entre os Parintintin e os Jiahui, as informações colhidas sempre partiam da perspectiva dos primeiros, uma vez que os segundos ainda estavam isolados:

“Segundo informações colhidas entre os Parintintins, pelo Encarregado do posto do Maicy-mirim, os Odiarhúebe falam o mesmo dialecto e adoptam quasi os mesmos costumes daquella tribu, havendo todavia, entre ambas um requinte de hostilidade oriundo de sua indole guerreira, que as tornam inimigas rancorosas.

Ao contrario dos Parintintins, que costumam cortar os cabellos em torno da cabeça, os Odiarhúebe conservam-n’os bastos e compridos; mas a exemplo daquelles, também trazem o penis envolvido por um tubo de folhas de arumã, em forma cylindrica. As suas akanitaras são feitas de pennas de japú e arara vermelha e as flechas apresentam o mesmo feitio e os mesmos adornos que se obervam nas armas guerreiras dos Parintintins.

Os Parintintins, tomados por sua superstição natural, que assalta o espirito de quasi todas as tribus, têm um immenso pavor fetichista daquelles seus parentes e inimigos. Dizem elles que acirrados pela vingança, os Odiarhúebe costumam enviar-lhes á noite grandes morcegos, que lhes roubam os cabellos, applicando-os nos processos de bruxaria que, de vez em quando, transmittem os peores males às suas malocas” (Lemos, 1925:20).

Na década de 30, intensifica-se a atuação do SPI na tentativa de atrair os Jiahui para o contato. Para tanto, são montadas expedições sob o comando de José Garcia de Freitas, já conhecedor dos Kagwahiva pela sua atuação junto aos Parintintin. Em sua busca, Garcia acabou deparando-se com os Pain e não com os Jiahui. Após seqüestrar uma mulher e seus filhos, Garcia pediu aos Parintintin que o acompanhavam que dissessem das boas intenções do SPI. A mulher afirmou que seu marido e o restante do grupo voltariam e matariam todos. Assim mesmo, Garcia resolveu permanecer no local e no dia seguinte libertou a mulher com alguns presentes, mas reteve seus filhos. Um tempo depois apareceram dois guerreiros pintados, ameaçando a todos e perguntando qual deles era o ipají. Após Garcia acalmar os guerreiros, estabeleceu-se uma boa relação entre todos. Pelo relato podemos perceber que se tratava de um dos grupos Jiahui:

“A lingua é a mesmíssima dos Parintintin, sendo apenas um pouco differente as danças e as cantigas.

Chamam-se PAIN, são elles um grupo que se desligou dos Odiahub e com elles vivem em constante lucta. Não havia decorrido siquer uma lua em que os Odiahub lhes haviam matado inesperadamente quatro homens e tive occasião de ver um delles com uma flechada no peito direito. Riram-se, regosijaram-se da alliança que lhes offereci contra os seus inimigos.

Admiraram-se os indios PAIN de não termos sido atacados pelos Odiahub, dizendo que alli perto estão os seus caminhos de guerra; quer dizer que, se demorassemos mais um pouco, receberiamos o ataque daquelles. Não propuz-lhes fazer amizade com os seus inimigos, porque conheci o odio e a sêde de vingança que tinham e o ressentimento pelas victimas; mas pedi-lhes que esperassem por nós para atacar os Odiahub.

Era um truc que eu usava para evitar qualquer choque entre os grupos inimigos” (Garcia de Freitas, 1930:06-07, grifos meus).

Entretanto, quando Garcia de Freitas volta ao local (registrado neste mesmo relatório de 1930), já havia ocorrido o confronto entre os grupos Pain e Jiahui, conseguindo encontrar apenas oito indivíduos. Passados alguns anos, em 1939 as circunstâncias eram outras e os Jiahui já estavam sofrendo as conseqüências do contato, desestruturando as formas tradicionais de organização social. Porém, alguns grupos conseguiram permanecer isolados. Estes ficavam mata adentro, estabelecendo contato apenas com castanheiros que exploravam o território tradicional jiahui, onde há um castanhal. Mas na década de 70, com a abertura da Transamazônica, que cortou suas terras, já não era mais possível manter o isolamento.

A abertura da estrada causou comoção na população indígena, que ouvia os barulhos e tentava entender o que estava acontecendo. As narrativas do período são deveras fantásticas e dão conta de um momento crítico da vida dos Jiahui. Acossados de um lado pelos Tenharim e de outro pela Empresa Paranapanema e seus funcionários, o grupo acompanhava de longe o movimento de homens e máquinas que adentravam cada vez mais a mata.

Após várias aparições rápidas, os Jiahui surpreenderam-se ao ver que entre os trabalhadores da Paranapanema encontravam-se muitos Tenharim. Um deles, Kari, vindo do igarapé Preto, foi quem esteve à frente para estabelecer o contato com os Jiahui. Chamou-os, acompanhado de um funcionário não índio, oferecendo comida e roupas. A aproximação foi gradativa e tensa. Borobé não permitia que seus filhos pusessem qualquer alimento na boca, pois não depositava a menor confiança, tanto nos trabalhadores quanto nos Tenharim. Mas o contato foi se intensificando e os Jiahui passaram a viver na aldeia tenharim.

Em meados dos anos 90, com o crescimento populacional, tanto tenharim quanto jiahui, o estado de tensão voltou a vigorar entre os dois grupos. Por essa época os Jiahui iniciaram um processo de retomada de suas terras.

01:: Mapa da década de 30 localizando os Jiahui (Indigeni Odia hueb), presente em obra de Vitor Hugo de 1959 (ver Fontes de informação), em que o Norte está voltado para baixo.
Anotação vermelha de Edmundo Peggion.
Edmundo Antonio Peggion
Antropólogo/ USP
peggion@fclar.unesp.br
 
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