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ORGANIZAÇÃO SOCIAL   
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ORGANIZAÇÃO SOCIAL
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Os Jiahui, bem com os Kagwahiva em geral, são povos Tupi, mas possuem uma particularidade com relação aos demais grupos falantes desse tronco lingüístico, qual seja, um complexo sistema de metades exogâmicas que recebe o nome de dois pássaros: Mytu e Taravé (mutum e maracanã). Este sistema define as possibilidades matrimonias, pois um homem, quando nasce, pertence à metade de seu pai e só poderá casar-se na metade oposta.

Tal sistema divide a sociedade em dois grandes grupos que realizam o casamento entre si. Só é possível o casamento na mesma metade quando o indivíduo vive longe. Neste caso, tudo se passa como se a distância geográfica provocasse uma distância genealógica, transformando o casamento proibido numa união possível.

Embora a depopulação tenha dificultado o funcionamento do sistema no caso dos Jiahui, ele continua operando, seja em casamentos internos ou em casamentos com outros grupos Kagwahiva. Foi desta forma que alguns casamentos com Jiahui puderam realizar-se junto aos Tenharim do Rio Marmelos. Acossados e desesperados, os remanescentes Jiahui foram incorporados, através do matrimônio, na década de 70, aos Tenharim. Hoje temos certas situações de casamentos na mesma metade, mas que em nada ferem o sistema, uma vez que a distância genealógica entre os grupos permite tal fato.

O trânsito pelo território é uma característica dos Kagwahiva, que estavam distribuídos em pequenos grupos locais em uma vasta região entre os rios Madeira e Tapajós. Viviam entre a aliança e o conflito, mas reconheciam-se enquanto uma única sociedade. Cada um destes grupos locais, que provavelmente organizava-se em torno de um grupo doméstico, possuía o nome de seu líder ou de sua localização (no caso rios, serras etc.). O faccionalismo é uma característica de tais povos e conseqüentemente as uniões eram instáveis e novos grupos estavam em constante formação. As estratégias políticas ligadas à questão residencial caracterizam a forma de conceber a ocupação do território e a constituição de grupos. Registros orais reforçam a territorialidade dos grupos, narrando a sua distribuição na região, realizada por Nhaparundi, ancestral mítico Kagwahiva, e também que, em momentos iniciais do contato, os grupos chegaram a se unir para fugir dos não índios (Menéndez, 1987:86-87; 1989:80).

Características faccionais dos grupos Kagwahiva acarretam ainda hoje disputas internas, fazendo com que novas aldeias surjam. Entretanto, estas novas aldeias são formadas em um espaço territorial considerado pertencente a estes grupos. Assim, de acordo com os Jiahui, os Tenharim e os Parintintin estão localizados em seus territórios tradicionais. Segundo os Jiahui e também os Tenharim, o atual território reocupado pelos primeiros é, efetivamente, o local onde sempre habitaram.

01:: Retorno à aldeia depois da coleta de açaí
foto: Edmundo Peggion, 1999.
Edmundo Antonio Peggion
Antropólogo/ USP
peggion@fclar.unesp.br
 
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