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ASPECTOS CONTEMPORÂNEOS   

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ASPECTOS CONTEMPORÂNEOS
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Na década de 90, após a morte do último homem que poderia ter filhos com as mulheres da mesma etnia, os Juma se viram reduzidos a seis indivíduos - um casal de velhos, um homem e suas três filhas - , que recebiam assistência esporádica da Funai, através da Administração Regional de Rio Branco, que possui um posto indígena em Lábrea, e da Frente de Contato Rio Purus, ligada ao Departamento de
Índios Isolados da Funai.

No início dos anos 90, tentou-se o casamento das meninas juma com homens parintintin e uru-eu-wau-wau, pela proximidade cultural e semelhança lingüística entre esses povos kagwahiva. Representantes do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) estimularam o intercâmbio com os Parintintin, mas membros da Funai eram a favor de que as jovens juma desposassem índios Uru-eu-wau-wau, alegando que o contato dos Parintintin com a sociedade nacional era muito intenso, em contraste com os Juma, que não falam português e em grande medida ainda vivem de acordo com costumes tradicionais de seu povo. Índios de ambas etnias visitaram a aldeia juma, mas todas as tentativas realizadas nessa época foram frustradas.

Uma alternativa esdrúxula foi apresentada também em 94, quando a revista francesa Actuel publicou um anúncio buscando maridos potenciais para as mulheres juma. O anúncio disponibilizava um telefone da Funai de Brasília, que chegou a receber propostas de jovens americanos.

Recentemente, como todos estavam com a saúde abalada, resolveram mudar-se para as proximidades da estrada que liga Lábrea a Humaitá. Neste local ficaram acompanhando pescadores que transitavam pelo Purus. Estes, aproveitando a fragilidade do grupo, seduziam as jovens juma, levando-as consigo para suas viagens através do rio (Cf. Boletim de Ocorrência de 31/07/98).

Em 1998, a Funai de Brasília começou a negociar a contratação de um antropólogo para propor uma solução alternativa ao povo, pensando em casamentos com indivíduos de organização social semelhante, uma vez que já não havia mais possibilidades matrimoniais internas. Ao mesmo tempo, e à revelia dos representantes da Funai tanto de Lábrea quanto de Brasília, a Administração Regional de Porto Velho retirou os Juma de sua terra, transferindo-os para a Casa do Índio, sob alegação de que lá seriam melhor tratados em razão do estado de saúde dos idosos e de uma índia grávida. Foram então encaminhados para a aldeia do Alto Jamary, na TI Uru-eu-wau-wau. Esta transferência acarretou o falecimento do casal de velhos, ocorrido obscuramente na aldeia e comunicado apenas 20 dias após aos representantes das organizações indígenas e das organizações não governamentais. Hoje, estão reduzidos a cinco indivíduos: um pai, suas três filhas e uma neta. Tanto o pai quanto as filhas estão casados com os Uru-eu-wau-wau e vivem atualmente o impasse de voltar para suas terras ou de abandoná-las e viver na aldeia do Alto Jamary.

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Somente em 1999 foi iniciado um acompanhamento antropológico sistemático a este povo, quando já não se encontravam em suas terras e estavam à mercê de outros grupos indígenas e da Funai, que os viu como solução para a carência de mulheres na TI Uru-eu-wau-wau. Este fator, associado à uma possível saída dos três principais caçadores, agora casados com as mulheres juma, nos leva a considerar que a crise com relação ao povo Juma provocou uma crise junto aos Uru-eu-wau-wau. Desse modo, se os Uru-eu-wau-wau forem viver na Terra Juma, a aldeia Alto Jamary entrará em crise, e se os Juma forem viver junto aos Uru-eu-wau-wau, poderão desaparecer e a referida Terra Juma não será nem mesmo demarcada. No futuro, caso os filhos destes casamentos não sejam considerados completamente uru-eu-wau-wau, poderão reivindicar suas terras, que possivelmente estarão tomadas de invasores e destruídas suas unidades de recurso.

Esta difícil situação não poderá ser solucionada de uma maneira imediata, devendo haver um acompanhamento feito por agentes representantes dos órgãos oficiais e das organizações não governamentais, e, acima de tudo, não poderá haver interferência direta nas decisões tomadas pelos índios. De acordo com a configuração da situação, não é possível tomar medidas que desrespeitem a auto-determinação destes povos, ora unidos em matrimônio.

01:: A juma Mandeí, filha de Aruká, e seu marido uru-eu-wau-wau.
Foto: João Pinduca Rodrigues/ A Crítica, 1999.

02:: O juma Aruká na aldeia dos Uru-eu-wau-wau.
Foto: Edmundo Peggion, 1999

Edmundo Antonio Peggion
Antropólogo/ USP
peggion@fclar.unesp.br

Outubro 2002

 
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