Há uma distinção cultural fundamental na vida kalapalo entre homens e mulheres. Essa oposição se dá tanto no plano das relações psicológicas, sociais e econômicas, como também se manifesta na configuração espacial da aldeia, na gestão dos assuntos internos da casa e, mais dramaticamente, na vida ritual da comunidade.
No centro de toda aldeia alto-xinguana, costuma
haver uma construção (designada kwakutu
pelos Kalapalo) em que são guardadas flautas
que os Kalapalo chamam de kagutu, as quais são
tocadas exclusivamente pelos homens. As mulheres não
podem nem olhá-las, pois poderiam ser estupradas.
O kwakutu serve de armazém para
guardar os apetrechos utilizados pelos homens em performances
rituais e, sobretudo, é o lugar onde os homens
se juntam para trabalhar, para fofocar, para pintarem-se
uns aos outros antes das cerimônias e para receber
pagamentos em ocasião de performances cerimoniais.
A presença de kagutu impede a entrada
das mulheres no kwakutu e ao mesmo tempo leva
os Kalapalo a pensar a praça como "posse
dos homens". Espacialmente, a aldeia é concebida
em termos de uma oposição entre a praça
masculina, esfera da atividade pública, e o círculo
das casas, espaço feminino, esfera da atividade
doméstica.
Embora sejam os instrumentos proibidos às
mulheres, a linguagem usada pelos Kalapalo para falar
sobre as flautas kagutu é caracterizada
por metáforas de sexualidade feminina. Mitologicamente,
as flautas são descritas como fêmeas. Descobertas
em uma rede para peixes junto a uma flauta menor chamada
kuluta e outro instrumento chamado meneuga,
não mais fabricado, kagutu é designada
como a "irmã mais nova". Sua forma
e aparência são semelhantes às do
órgão sexual feminino: sua boca é
chamada de vagina (igïdï) e quando
são guardadas no alto das vigas, durante períodos
em que não são tocadas, diz-se que estão
"menstruando". Além disso, muitas das
canções acompanhadas por kagutu são
femininas, inventadas por mulheres no passado e, em
outras ocasiões, cantadas por mulheres no presente
(mas elas não podem cantar enquanto as flautas
estão sendo tocadas). Tais canções
refletem claramente um ponto de vista feminino, pois
se referem a tabus alimentares que as mulheres devem
seguir quando suas crianças estão doentes,
às relações com seus amantes e
maridos, bem como a rivalidades femininas.
Já no ritual feminino conhecido como
Yamurikumalu - semelhante ao kagutu em
muitos aspectos , mulheres decoradas com ornamentos
de penas e chocalhos nos tornozelos, que normalmente
são usados por homens, entoam canções
nas quais se referem à sexualidade masculina.
Há vários tipos diferentes de canções,
algumas mencionam os eventos de origem dessa cerimônia,
muitas reproduzem a estrutura das performances masculinas
com as flautas kagutu, e outras simulam explicitamente
a sexualidade agressiva dos homens diante de certas
mulheres.
A origem mitológica do Yamurikumalu
descreve como as inventoras originais da música
adquiriram pela primeira vez o pênis, a destreza
para atrair outras mulheres e a habilidade para controlar
o poder sobrenatural por meio da aplicação
de várias substâncias masculinas em seus
corpos. Essas "mulheres monstruosas", como
são designadas, transformaram-se em seres poderosos
que, depois de rejeitar seus papéis femininos
(sedutoras de homens, provedoras, guardiãs e
pagens de crianças), tocam as flautas proibidas,
caçam e pescam como homens e, geralmente, exibem
emoções e vocações que são
masculinas.
Os atributos sexuais aos quais se refere esse
ritual são aqueles considerados repelentes e
perigosos para pessoas do sexo oposto. Para os homens,
são esses os órgãos femininos insaciáveis
e seus processos menstruais misteriosos e temerosos
(inclusive, as mulheres seguem vários tabus menstruais,
incluindo a evitação da carne de peixe
e a preparação de alimentos cozidos.)
Para as mulheres, perigos masculinos estão presentes
na forma de uma substância seminal potencialmente
perigosa (a quantidade excessiva de sêmen advinda
de um grande número de homens pode apodrecer
no interior de uma mulher e torná-la seriamente
doente, pois não é possível aglutiná-la
para formar uma criança), e, ainda pior, a sexualidade
agressiva masculina é uma ameaça que pode
se transformar em estupro.
Assim, nos rituais, representantes de cada gênero
encenam as qualidades perigosas de um modelo imaginado
de sexualidade do sexo oposto, que incluem sentimentos
sexuais incontroláveis, substâncias sexuais
venenosas e sentimentos que emergem no curso da vida
social (ciúme, modéstia excessiva, medo
do sexo oposto, paixões absurdas).
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