|
Como vimos antes, os Katukina dividem-se em
seis clãs: Varinawa, Kamanawa, Nainawa, Waninawa, Satanawa
e Numanawa. Esses clãs organizam-se a partir de um princípio
de unifiliação, mas, a esse respeito, os Katukina estão
em desacordo: enquanto uns afirmam a matrilinearidade,
outros afirmam a patrilinearidade.
Há um verdadeiro debate entre os Katukina para
saberem qual é o princípio de unifiliação "correto".
De um lado, estão os partidários da matrilinearidade,
que se dizem mais fiéis ao passado. De outro, estão
os adeptos da patrilinearidade, que chegam a reconhecer
abertamente que houve uma inversão na regra de filiação
nos anos recentes.
O que rege essa discussão é a idéia de que
há um princípio "correto", "puro",
que exprime a ordem tradicional. Aqueles que afirmam
a filiação por linha materna buscam no passado o modelo
desta ordem e através de genealogias inquestionáveis
exprimem aquilo que julgam o ideal. Entretanto, aqueles
que, agora, dizem que os Katukina são patrilineares
também o fazem buscando este mesmo sentido de "pureza",
de tradição. Mas, com um detalhe importante: o modelo
é kaxinawá. Alguns Katukina dizem que, há aproximadamente
quinze anos atrás, eles souberam que os Kaxinawá são
patrilineares. Como já fazia algum tempo que ninguém
sabia ao certo como viviam os "antigos", alguns
destes katukina resolveram afirmar a patrilinearidade,
do mesmo modo como os Kaxinawá. O pressuposto deste
empréstimo é claro: se não há uma "regra"
nativa consistente e inquestionável, ela pode ser encontrada
noutro lugar.
A questão de saber qual é, afinal, o princípio
de filiação às unidades katukina resulta então em aberto.
Há um debate entre eles que mobiliza posições tão díspares
quanto interessantes, pois têm em comum a afirmação
de que perderam algo no contato com os brancos. Algo
que só pode ser reposto voltando-se ao passado e a si
mesmos, como querem os defensores da filiação em linha
materna ou buscando entre outros pano o modelo que supostamente
existia entre os Katukina, como afirmam aqueles que
defendem a filiação em linha paterna.
Apesar de predominar a indefinição da regra
de filiação, é possível definir as unidades internas
que compõem a sociedade katukina como clãs, pois subjaz
entre os Katukina a idéia que poderia ser chamada de
"ancestralidade suposta" ou "presumida",
ou seja, os Varinawa contemporâneos são tidos como descendentes
dos antigos Varinawa, os Kamanawa dos antigos Kamanawa
e assim por diante.
Talvez seja esclarecedor pensar em um "processo
de clanificação" das auto-denominações katukina.
Como vimos, quando os Katukina tomaram conhecimento
da patrilinearidade kaxinawá, já havia entre eles um
certo sentimento de perda da organização tradicional
(normalmente creditada à influência dos valores ocidentais).
Recorrendo a qualquer uma das formas de traçar a filiação
(materna ou paterna), os Katukina reforçam simplesmente
uma idéia de "ancestralidade", mas sem articulá-la
diretamente com outros níveis da organização social
(como ocorre com os Marúbo, por exemplo).
|