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CONTATO COM OUTRAS ETNIAS   
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CONTATO COM OUTRAS ETNIAS

Ao longo de sua história, os Katukina têm mantido contato, pacífico ou não, com vários grupos indígenas da região do rio Juruá e, recentemente, também da região do rio Javari. Os Kulina, os Yawanawá e os Marúbo são os três grupos com os quais os contatos foram e são mais intensos e significativos para os Katukina.

Os contatos entre os Katukina e os Kulina - falantes de uma língua arawá e que vivem atualmente em aldeias dispersas ao longo dos rios Juruá e Purus, no Brasil e no Peru - mantiveram-se freqüentes, pelo menos até a década de 1960. Membros dos dois grupos costumavam encontrar-se principalmente para realizarem juntos certos rituais. Nos dias de hoje, os Katukina e os Kulina não mais se encontram, já que, devido aos sucessivos deslocamentos dos Kulina, os dois grupos moram distantes um do outro -, mas os Katukina ainda se lembram das cantigas que lhes foram ensinadas pelos Kulina. As cantigas kulina foram incorporadas ao repertório musical katukina e eles as entoam ainda hoje, apesar de não compreenderem o conteúdo dos cantos.
Dos grupos pano da região do alto Juruá, os Yawanawá são os vizinhos mais próximos e mais antigos dos Katukina, e atualmente dividem a TI do rio Gregório com eles.

Os Yawanawá também sempre foram seus adversários mais assíduos. Os Katukina acusam os Yawanawá de terem, no passado, raptado suas mulheres, desencadeando guerra entre eles. As acusações de feitiçaria, também freqüentes, persistem nos dias atuais. Apesar da rivalidade, os Katukina e os Yawanawá não se opõem o tempo todo. A realização conjunta de rituais, inter-casamentos e co-residência, no passado e no presente, não são raros entre eles. A ambivalência, antes que a oposição pura e simples, é o que rege suas relações. Tanto assim que os incontáveis anos de rivalidade não os afastaram definitivamente um do outro e, na década de 1980, os dois grupos chegaram mesmo a se unir para reivindicarem a demarcação conjunta de suas terras.

Um pouco mais distantes, os Marúbo têm também mantido contatos regulares com os Katukina, mas apenas a partir de anos recentes. O pouco tempo de aproximação, entretanto, não impede que os Marúbo sejam hoje o grupo com o qual os Katukina mais se identificam.

O primeiro encontro entre os dois grupos parece ter ocorrido na década de 1980, quando missionários da MNTB (que atuam também entre os Marúbo do rio Ituí) levaram dois Katukina, moradores do rio Gregório, para conhecerem os Marúbo. Esse encontro, entretanto, parece não ter tido maiores desdobramentos. A aproximação entre os Katukina e os Marúbo aconteceu apenas na década seguinte, em 1992, a partir de um encontro casual no porto da cidade de Cruzeiro do Sul. Os Katukina estavam andando pelo porto, quando ouviram algumas pessoas falando uma língua parecida com a deles e resolveram se aproximar. Apresentaram-se, trocaram algumas palavras e logo descobriram que, além da língua, eles tinham outras características em comum. A principal delas seria a de que entre os Marúbo algumas pessoas também se identificavam como Satanawa, Varinawa, Kamanawa, Waninawa e Numanawa. Naquela ocasião eles trocaram alguns presentes e combinaram novos encontros.

Desde o encontro em Cruzeiro do Sul, dois Katukina visitaram as aldeias Marúbo, no rio Ituí, e cinco Marúbo visitaram a aldeia do rio Campinas. A partir dessas visitas, os Katukina passaram a refletir sobre as semelhanças e diferenças que apresentam em relação aos Marúbo e sobre as causas que pudessem explicá-las. A principal delas seria que, no passado, os Marúbo formavam um mesmo grupo com os Katukina. Entretanto, a separação entre eles teria acontecido em um tempo em que nem os Katukina nem os Marúbo contemporâneos, nem seus pais e avós, seriam nascidos. Muito antes ainda de conhecerem os brancos.

De acordo com os Katukina, as semelhanças deles com os Marúbo podem ser atestadas em vários aspectos: os Marúbo subdividem-se em várias seções e algumas delas têm as mesmas denominações de seus próprios clãs; a língua marúbo é parecida com a língua katukina; as casas comunais em que vivem os Marúbo seriam semelhantes às casas em que viviam antes de estabelecerem contato com os brancos. Os Katukina concordam que a forma como os Marúbo vivem atualmente representa o modo de vida deles no passado e os Marúbo são vistos por eles, então, como uma sociedade proto-katukina.

Edilene Coffaci de Lima
Universidade Federal do Paraná
edilene@humanas.ufpr.br
Janeiro de 1999
 
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