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Uma das mais importantes divisões sociais entre
os Katukina, que perpassa e engloba todas as ações do
cotidiano, é aquela entre os gêneros. Desde muito cedo
as crianças são socializadas de acordo com os papéis
sexuais que lhes cabem. Embora até a puberdade não seja
esperado que as crianças contribuam na produção doméstica,
elas já desempenham as tarefas mais fáceis de seu gênero.
Após a puberdade já é esperado que as pessoas se dediquem
mais às atividades domésticas e os pais exigem a ajuda
de seus filhos. Rapazes e moças para poderem se casar
devem saber desempenhar suas tarefas específicas e a
ajuda que dão aos pais neste período é, ao mesmo tempo,
uma forma de aprendizado.
As duas principais atividades masculinas são
a caça e o preparo do roçado. A primeira, sem dúvida,
é a atividade mais apreciada por todos. A caça exige
muito mais do que força e disposição. Os garotos, por
volta de 12-14 anos, começam a acompanhar seus pais
na mata, para aprenderem os segredos que um bom caçador
deve saber: reconhecer os rastros dos animais, seus
gritos e assobios, os horários de atividade e inatividade.
A melhor época para a caça é o "inverno",
período das chuvas, que começa em novembro e prossegue
até abril. Nesta época é que amadurecem e caem a maior
parte dos frutos que servem de alimento aos animais,
fazendo com que sejam mais facilmente encontrados. As
chuvas, umedecendo o chão da floresta, facilitam a identificação
dos rastros dos animais e abafam o barulho dos movimentos
do caçador.
Apesar da grande valorização da caça, é a agricultura
que oferece a maior parte dos itens que compõem a dieta
e é também a atividade que absorve maior tempo de trabalho
de homens e mulheres. A macaxeira e a banana são os
principais vegetais da dieta. Numa escala secundária
plantam batata-doce, cará, taioba, inhame, mamão, abacaxi
e cana-de-açúcar. Recentemente os Katukina passaram
também a reservar uma grande área do roçado para o plantio
de arroz e de milho, para comercializar.
Os homens são responsáveis pela abertura de
roçados para suas esposas e entre os meses de maio e
julho fazem a broca dos arbustos e a derrubada de grandes
árvores. Terminada esta etapa, interrompem o trabalho
no roçado até que a vegetação esteja toda seca, por
volta do final de agosto e início de setembro, quando
fazem a queimada e, posteriormente, o plantio da macaxeira.
Já a batata-doce, a taioba, o inhame, o mamão, o abacaxi,
a cana-de-açúcar e o algodão são plantados pelas mulheres.
O mamão e a cana-de-açúcar são plantados nos roçados
e também nas imediações das casas. O plantio do arroz
e do milho é feito por homens e mulheres.
Enquanto as atividades masculinas são executadas
fora da casa, grande parte das atividades femininas
concentram-se em seus limites. A única exceção é a colheita
de macaxeira e banana no roçado. As outras atividades,
preparar os alimentos, cuidar dos filhos e lavar roupas
e utensílios domésticos, são restritas ao espaço da
casa ou às suas imediações.
Sempre que houver tempo disponível, uma mulher
deverá ainda fazer caiçuma, que pode ser de macaxeira
(atsa matxu) ou banana (mane mutsa). O
preparo da caiçuma de banana é simples: basta cozinhar
a banana, amassá-la (não é mascada) e adicionar um pouco
de água. Já o preparo da caiçuma de macaxeira demanda
maior tempo e esforço e a iniciativa de fazê-la é sempre
de mulheres adultas. Para preparar a caiçuma, a primeira
coisa a fazer é colher a macaxeira no roçado; após descascada
e lavada, a macaxeira deve ser cortada em pequenos cubos
que são colocados numa panela com água e cobertos com
folhas de bananeira; podem também acrescentar algumas
batatas-doces. Após o cozimento, as mulheres amassam
bem a macaxeira com uma colher de madeira e deixam a
massa esfriar. Posteriormente, mascam toda a macaxeira
cozida até que adquira a consistência de uma pasta.
A etapa seguinte consiste em coar essa pasta. Feito
isso a caiçuma está pronta e para consumi-la é necessário
apenas acrescentar um pouco de água. Em tempos passados,
as mulheres dizem que faziam também caiçuma de pupunha
e de milho.
Atualmente o grau de fermentação da caiçuma
de macaxeira é bastante baixo, uma vez que após o preparo
é imediatamente consumida e a quantidade que costuma
ser feita pelas mulheres é suficiente apenas para dois
ou três dias. Outrora, dizem as mulheres katukina, era
feita muita caiçuma azeda (katxa matxu), de alta
fermentação, mas os homens se embriagavam e brigavam.
Para conter as brigas, as mulheres decidiram suspender
o preparo da caiçuma azeda e atualmente preparam apenas
a caiçuma doce, de baixa fermentação, pois não causa
embriaguez. O grau de fermentação da caiçuma determina
não somente o teor alcóolico quanto o círculo de consumo.
A caiçuma azeda, quando ainda era elaborada, tinha um
círculo largo de consumo e estava associada a ocasiões
rituais. Em contrapartida, a caiçuma doce está associada
ao consumo restrito e doméstico. A decisão das mulheres
de suspenderem o preparo da caiçuma azeda coincide com
o fim da realização de certos rituais katukina.
Na maior parte das vezes, homens e mulheres
desempenham atividades distintas em espaços também distintos.
Todavia, certas atividades não se enquadram nessa divisão
e podem ser realizadas por homens e mulheres, num mesmo
espaço. As principais são a pesca e a coleta de frutos
silvestres.
Os katukina plantam tingui (asha) e com
suas folhas preparam uma pasta que colocam nos rios
para sufocar os peixes e facilitar sua apanha. Nas grandes
expedições de pesca não participam apenas as crianças
menores de seis anos e as mulheres encarregadas de cuidar
delas (mãe, irmã mais velha ou avó). O período para
realização das pescarias coletivas vai de junho a novembro,
do "verão" até o começo do "inverno",
quando os rios e igarapés estão rasos e os peixes se
refugiam nos remansos. Atualmente, na aldeia do rio
Campinas, a caça começa a se tornar rara e os peixes
são a principal fonte de proteína animal.
A coleta de frutos silvestres, feita mais freqüentemente
pelas mulheres, conta também com a participação dos
homens. Isso porque os frutos mais encontrados (açaí,
buriti, patauá, bacaba e cocão) dão em palmeiras muito
altas e é preciso que pelo menos um homem acompanhe
as mulheres para cortar a árvore ou nela subir.
Em todas as atividades a divisão do trabalho
mantém a reciprocidade entre os gêneros - da qual, aliás,
é fundadora. Circunscritos em domínios, os diferentes
produtos e tarefas de homens e mulheres são concebidos
como complementares uns aos outros.
No aconselhamento que antecede a consumação
de um casamento, os pais orientam os noivos a cumprirem
suas tarefas específicas: o rapaz deve caçar e preparar
um roçado para sua mulher; por sua vez, ela deve sempre
colher a macaxeira no roçado e preparar a comida e a
caiçuma, além de cuidar dos filhos e lavar roupas. No
aconselhamento essas obrigações são repetidas insistentemente
e os noivos sabem que o não cumprimento de suas tarefas
pode levar à separação.
A expectativa de cooperação mútua entre homens
e mulheres está expressa também nas partes do corpo
em que cada um deve aplicar o veneno de um sapo (Phyllomedusa
bicolor) que chamam de kampo: os homens,
nos braços e peito; as mulheres, nas pernas. Ao kampo
está associado uma variedade de propriedades benéficas
para acabar com a preguiça e com a panema (falta de
sorte na caça), além de curar doenças. A aplicação do
kampo causa vômitos e diarréia e, assim, eliminam-se
os males do corpo que impedem o pleno desenvolvimento
das capacidades físicas. De acordo com os Katukina,
os homens precisam de força nos braços e no peito para
caçarem e abrirem os roçados e as mulheres, nas pernas
para carregarem os paneiros com macaxeira, além dos
filhos.
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