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Os jogos ou "brincadeiras", como dizem
os Katukina, opõem homens e mulheres de todas as idades,
disputando cana-de-açúcar e mamão ou atacando-se uns aos
outros com barro e fogo. A palavra vete designa
todos estes jogos, mas vem sempre antecedida pelo fruto
que se disputa ou substância com a qual se atacam. Assim,
tavata vete é traduzido como "brincadeira
da cana-de-açúcar" e ti'i vete como
"brincadeira do fogo".
Para que os Katukina decidam realizar os jogos,
não há maiores transtornos. Basta ter cana-de-açúcar
ou mamão em grande quantidade e que as pessoas estejam
dispostas a participar. Não há uma data certa para a
realização dos jogos, mas eles costumam ser feitos com
maior freqüência no período do "verão", quando
o deslocamento das pessoas na aldeia se torna mais fácil.
O jogo começa quando um homem pega um pedaço
de cana-de-açúcar e passa em frente a uma mulher, arrastando-o
no chão, próximo ao pé dela. Entretanto, ele não se
dirige a qualquer mulher, mas sim àquelas que possam
ser classificadas como suas pano (primas cruzadas,
esposas potenciais). A mulher então responde à provocação
e começa a disputar o pedaço de cana-de-açúcar com ele.
Pouco a pouco outras mulheres aproximam-se para ajudá-la
e, vendo o amigo em dificuldades, outros homens também
juntam-se a ele. Muitas vezes, há mais de um grupo disputando
os pedaços de cana-de-açúcar e tais grupos são formados
segundo o critério de geração. As crianças formam um
grupo, as garotas que não passaram da puberdade são
incluídas nele. Jovens solteiros e casados jogam juntos,
formando um ou dois grupos, dependendo do número de
pessoas que participam.
As pessoas, sobretudo os homens, freqüentemente
se machucam nos jogos. As mulheres podem bater (e, de
fato, batem) com o máximo de força que têm para tirar
a cana-de-açúcar (ou o mamão, se for o caso) das mãos
dos homens. No fim dos jogos os homens saem com as roupas
todas rasgadas e com costas e peitos marcados pelos
tapas e socos que as mulheres lhes dão, aos quais eles
não podem nunca revidar. A única forma de agredir as
mulheres que os homens têm é verbal.
A agressão, verbal e física, é central nos jogos,
mas parece existir apenas para dissimular a sedução,
pois, se há socos e zombarias, há também contatos corporais
eróticos. Ao redor de um pedaço de cana-de-açúcar aglutinam-se
homens e mulheres que estão a todo momento com seus
corpos praticamente colados uns nos outros.
Os homens nunca saem vitoriosos. Quando as mulheres
têm o domínio da cana-de-açúcar (ou do mamão) elas correm
em direção às mulheres mais velhas que estão apenas
observando e entregam-na para elas (preferencialmente
para suas mães). A disputa recomeça então com outro
pedaço de cana-de-açúcar. Os homens, entretanto, nunca
ganham uma disputa entregando um pedaço de cana-de-açúcar
aos homens mais velhos. Quando os homens têm o controle
e a vantagem do jogo, fazem mais zombarias, dizem que
são fortes e puxam violentamente a cana-de-açúcar, às
vezes arrastando algumas mulheres que insistentemente
seguram na outra extremidade. Se é um mamão, os homens
ficam atirando-o de um lado para o outro. Os jogos terminam
somente quando as mulheres conseguem conquistar todos
os frutos que estavam sob o controle dos homens.
O fato de que os homens nunca ganham o jogo
pode ser compreendido analisando a economia katukina.
A distribuição de todo alimento, não só da carne, é
controlada pelas mulheres. Os homens nunca fazem ofertas
de carne ou de qualquer outro alimento a outros homens.
Os jogos, nesse sentido, podem ser interpretados
como uma representação do padrão de cooperação que organiza
as relações de troca entre homens e mulheres na aldeia.
Como na produção, os homens nos jogos cooperam entre
si. As mulheres formam também um grupo solidário, mas
a cooperação entre elas está centrada na distribuição.
Aqui então é necessário corrigir e afirmar que, menos
do que uma vitória, as mulheres conquistam o empate,
restabelecendo o equilíbrio entre os sexos e, conseqüentemente,
de toda a comunidade.
Para além do simbolismo das trocas econômicas
expresso nos jogos, é possível perceber também um forte
apelo sexual em flertes explícitos e em sorrateiras
escapulidas de casais para a mata durante ou após a
sua realização. Contudo, isso não quer dizer que as
trocas econômicas e sexuais sejam equivalentes. Entre
elas há certamente correlação. Assim como homens e mulheres
devem trocar produtos e serviços para viver, da mesma
maneira devem fazer para procriar. Além disso, os jogos
subvertem o padrão de comportamento cotidiano entre
os Katukina. O comedimento das relações inter-pessoais
dá lugar durante os jogos à licenciosidade quase absoluta
e tudo se passa como se a comunidade vivesse um grande
êxtase, permitindo momentaneamente que a densa rede
de relações, econômicas e sexuais, mútuas entre homens
e mulheres sejam explicitadas. Os jogos katukina destacam
a troca, mas não apenas uma troca imediata entre homens
e mulheres, que garante a subsistência, quanto uma troca
maior, a longo prazo, que garante a própria continuidade
da sociedade.
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