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HISTÓRIA DO CONTATO COM OS BRANCOS   
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HISTÓRIA DO CONTATO COM OS BRANCOS

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Os Katukina - assim como os demais grupos indígenas da região do alto Juruá - foram praticamente cercados quando se iniciou a exploração econômica da região, por volta de 1880, com a extração da borracha nativa. A região que habitavam, rica em caucho (Castilloa elastica) e seringueira (Hevea brasiliensis), foi imediatamente invadida por peruanos e brasileiros, que chegavam de lados opostos. Os primeiros tiveram uma presença passageira, pois iam em busca da goma do caucho, obtida a partir do abate da árvore, que, por isso, esgotou-se rapidamente. Já os seringueiros brasileiros estabeleceram-se sedentariamente, pois os cortes superficiais e regulares no tronco da Hevea brasiliensis permitem a extração da borracha por tempo indeterminado.

Nos primeiros anos do contato com os brancos, os Katukina viveram um período de deslocamentos constantes, tentando escapar vivos das "correrias" - incursões cujo objetivo era eliminar as populações indígenas para liberação dos seringais -, organizadas por caucheiros peruanos e seringalistas brasileiros. Fugindo das "correrias", os Katukina dispersaram-se na região. Sem condição de se manterem reunidos, passaram a se deslocar pela floresta, vivendo da caça, coleta e de assaltos aos roçados que encontravam pelo caminho, pois não mais podiam fazer os seus, uma vez que seriam uma pista fácil que inevitavelmente levaria os brancos de volta até eles. Além disso, os deslocamentos eram impulsionados também pela crença de que os espíritos dos mortos, saudosos de seus parentes, poderiam vir à terra para buscá-los.

Na primeira década deste século, cessaram as "correrias", em parte porque as árvores de caucho, que precisavam ser abatidas, esgotaram-se e também devido aos conflitos de fronteira entre o Brasil e o Peru, que foram resolvidos por um tratado em 1909. Contribuiu ainda com o fim das "correrias" a queda do preço da borracha no mercado internacional em 1912. As "correrias" tiveram um fim, porém os Katukina guardam com horror as lembranças transmitidas por seus pais e avós, que falam de fugas e desencontros pelas matas e são repletas de imagens de corpos mutilados e marcados pela violência.

Com o povoamento da região, os Katukina tiveram o território em que moravam e sua população drasticamente reduzidos - também não podendo ser ignoradas as perdas populacionais ocasionadas pelas doenças que outrora não existiam entre eles. Sem outra alternativa, os Katukina acabaram por engajar-se na empresa seringalista, mas continuaram dispersos na região, pois tornou-se comum que cada família elementar se estabelecesse para trabalhar em um seringal diferente. Isso, evidentemente, estabeleceu uma ruptura em sua sociedade, já que não podiam mais organizar e partilhar suas vidas de acordo com seus próprios princípios e valores socioculturais.

Neste vai-e-vem entre rios e seringais, a referência era sempre o rio Gregório, precisamente o seringal Sete Estrelas, para onde os Katukina sempre retornavam após períodos de duração variável em diferentes locais. As mudanças de um rio ou de um seringal para outro são parte da memória katukina, cujos pontos principais de passagem eram os seringais Sete Estrelas e Caxinauá no rio Gregório, Universo no rio Tarauacá, e Guarani e Bom Futuro no riozinho da Liberdade.

Na década de 50, houve uma interrupção nos deslocamentos e a maior parte dos Katukina, se não todos, estavam reunidos no seringal Sete Estrelas. Na década seguinte ocorreu a cisão do grupo devido, por um lado, a desentendimentos entre os Katukina, o chefe deles e o novo patrão do seringal para quem trabalhavam e, por outro, a desentendimentos com os Yawanawá, grupo indígena pano vizinho da aldeia do rio Gregório, com o qual as relações sempre oscilaram entre a hostilidade aberta e a amizade comedida. Em busca de mais um patrão e precavendo-se contra a eminência de conflitos com os Yawanawá, parte do grupo resolveu procurar outro lugar para morar. Acabaram estabelecendo-se por aproximadamente oito anos em um seringal próximo da foz do Riozinho da Liberdade, na fronteira dos estados do Acre e do Amazonas.

Da década de 70 datam dois eventos que contribuíram de forma determinante na localização contemporânea das aldeias: a abertura da BR-364 (Rio Branco-Cruzeiro do Sul) e a chegada da Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB) para atuar junto aos Katukina do rio Gregório. Com o início da obra da BR-364, parte do grupo que havia na década anterior se estabelecido próximo da foz do Riozinho da Liberdade deslocou-se para trabalhar junto ao 7º BEC (Batalhão de Engenharia de Construção) no desmatamento para a construção da estrada; e também outros deslocaram-se do rio Gregório. Após o término do desmatamento, os Katukina obtiveram autorização do 7º BEC para morar às margens da estrada, que eles julgavam um bom local devido à proximidade da cidade de Cruzeiro do Sul, onde, tinham a esperança, poderiam vender facilmente o que produzissem e obter os bens industrializados de que necessitassem. Aqueles que voltaram ou permaneceram na aldeia do rio Gregório viam nos missionários (MNTB) uma possibilidade de assistência médica e educacional regular.

Somente em meados da década de 1980, após tantos anos de perambulação e deslocamentos, os Katukina viram garantidos o direito à posse do território onde habitavam e romperam os vínculos que os ligavam aos patrões seringalistas.

01:: BR-364 atravessa TI Katukina do Rio Campinas
foto: Edilene Coffaci de Lima, 1997

Edilene Coffaci de Lima
Universidade Federal do Paraná
edilene@humanas.ufpr.br
Janeiro de 1999
 
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