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Os Krahô começaram o contato com os
civilizados no início do século XIX, entrando
em conflito com as fazendas de gado que avançavam
do Piauí para o sul do Maranhão. Eles então
viviam perto do rio Balsas, afluente do Parnaíba.
Após atacarem uma grande fazenda em 1809, foram
assaltados, em represália, por uma expedição
dirigida por Manuel José de Assunção,
que fez mais 70 prisioneiros Krahô e os remeteu
a São Luís. A partir de então seu
contato com os civilizados passa a ser pacífico,
mas não com todas as etnias indígenas vizinhas.
Aproximando-se da margem do Tocantins, passam a ajudar
o fundador de São Pedro de Alcântara (hoje
Carolina, no Maranhão), apoiado pelos fazendeiros,
a combater e escravizar grupos indígenas vizinhos,
que eram vendidos para regiões mais ao norte. Livres
dos outros grupos indígenas e agora incomodados
pelo roubo de gado que os Krahô lhes faziam, antes
atribuído só aos outros, os fazendeiros
conseguiram que o missionário capuchinho Frei Rafael
de Taggia os transferisse para Pedro Afonso, na confluência
do rio do Sono com o Tocantins, em 1848. Aí ficaram,
vizinhos aos Xerente,
até começarem a deslocar-se, talvez pelo
final do século XIX, na direção nordeste,
para o lugar onde hoje estão.
Neste lugar tiveram a princípio relações
amistosas com um fazendeiro, ao qual protegiam contra
rivais e também das onças que atacavam
o gado. Crescendo a população sertaneja
e fazendo-se sentir o furto de gado dos Krahô
sobre os rebanhos, as relações foram se
deteriorando, culminando num ataque de três fazendeiros
a duas de suas aldeias, em 1940, no qual morreram cerca
de 26 indígenas. Comunicado da ocorrência,
o governo do Estado Novo pressionou as autoridades estaduais
no sentido de se realizar o julgamento dos fazendeiros
responsáveis. Apesar de terem cumprido sua pena
em liberdade condicional, foi um dos raros casos em
que perpetradores de massacres de índios foram
condenados. Além disso, o interventor do Estado
de Goiás delimitou através de decreto
a terra dos Krahô (homologada em 1990 pelo governo
federal). E o Serviço de Proteção
aos Índios (SPI) passou a atuar entre eles, com
a criação de um posto.
A atuação do SPI junto aos Krahô
foi praticamente inoperante: uma sucessão de
encarregados de posto sem apoio moral e material, ausência
de medicamentos, escola sem professor a maior parte
do tempo. Duas fazendas do SPI dentro da reserva não
se prestavam ao suprimento regular de carne aos índios,
dado o número irrisório de cabeças
de gado que mantinham. Nem mesmo arrendamento o posto
cobrava aos fazendeiros que punham gado a pastar nas
terras indígenas com permissão ou não:
entregava esse encargo aos chefes de aldeia, que recebiam
uma rês, uma pequena parte da roça plantada
com mandioca ou uma ferramenta como tal.
Talvez esse estado de total abandono tenha sido
um dos motivos que estimularam o aparecimento de um
movimento
messiânico entre os Krahô por volta
de 1952. Um xamã começou a ter visões
em que um homem branco, de barba, se apresentava como
Chuva e lhe oferecia o raio para destruir os civilizados.
Mas o vidente ficou com medo de apanhar o que lhe era
oferecido. Mesmo assim, foi-lhe prometido que em determinada
data os civilizados iriam se transformar em índios
e os Krahô em civilizados. Para tanto os Krahô
tinham de comportar-se de maneira a propiciar a transformação:
abandonar as corridas de toras, as pinturas de corpo,
fazer bailes como os dos sertanejos, consumir seus animais
domésticos. Podiam abandonar o cultivo de suas
roças porque seriam criadores e comerciantes,
o gado lhes desceria do céu, as mercadorias lhes
chegariam numa embarcação. Entretanto,
nada do previsto aconteceu e o vidente caiu no descrédito.
De um outro meio se valiam os Krahô para
superar o estado de abandono, mas era um recurso muito
mais antigo, já aplicado no século XIX:
a viagem às cidades grandes e longínquas,
cujos moradores, seduzidos por sua aparência exótica
e movidos por sentimentos de simpatia por uma minoria
que não fazia parte de seu cotidiano, os cobriam
de presentes. Viajando em grupos, com poucas ou nenhuma
mulher a acompanhá-los, pediam auxílio
a prefeitos das cidades pequenas para continuar o percurso,
dormiam em quartéis de polícia ou corpo
de bombeiros, procuravam igrejas, instituições
de caridade, governadores estaduais, gastando meses
no trajeto. Assim iam a Belém, São Luís,
Teresina, Natal, Recife, Salvador, Goiânia, Rio
de Janeiro, São Paulo. Tecidos, ferramentas,
miçangas e outros artigos com que voltavam lhes
eram em grande parte tomados pelos parentes das esposas.
Mas não usufruíam por muito tempo do que
haviam conseguido. Como os viajantes haviam perdido
alguma etapa importante do ciclo agrícola, tinham
de se apoiar na produção de parentes.
Desse modo os gêneros alimentícios não
duravam até a safra seguinte, obrigando os habitantes
da aldeia a trocarem os artigos provenientes das viagens
pela mandioca plantada pelos sertanejos.
Coincidindo com a substituição
do SPI pela FUNAI em 1967, mas não exatamente
por isso, a situação começa a mudar
a partir de então. A pesquisadora Vilma Chiara
obteve de uma instituição cerca de 250
cabeças de gado para dar início a uma
atividade pecuária administrada pelos próprios
Krahô. Alguns anos depois a mesma pesquisadora
conseguiu um técnico francês para introduzir
técnicas que, sem muito dispêndio, poderiam
aumentar a produção de subsistência
dos Krahô. E mais tarde também um enfermeiro.
Com exceção da atividade deste último,
as outras iniciativas não foram bem sucedidas,
dados os desencontros iniciais que essas inovações
costumam desencadear. Entretanto, elas serviram como
uma provocação ao novo órgão
indigenista, que se viu na obrigação de
mostrar mais efetivamente sua presença, criando
um projeto de apoio às roças indígenas,
acompanhado de perto por uma equipe. Novos postos foram
criados na Terra Indígena. Posteriormente esta
atividade foi ampliada pela atuação de
uma organização não-governamental,
o Centro de Trabalho Indigenista (CTI).
A Guarda Rural Indígena, criada nos primeiros
anos de atuação da FUNAI, recrutou 28
jovens Krahô. Tendo de prestar serviço
no posto, os guardas não podiam cuidar das atividades
agrícolas. Em compensação, o soldo
de um salário mínimo lhes permitia comprar
víveres na cantina do posto, à qual compareciam
também seus parentes, que debitavam os gastos
nas suas contas. Os ritos de curta duração
e as aberturas e encerramentos dos longos começaram
a ser transferidos para os domingos, dia de folga dos
guardas, que assim podiam ajudar nas corridas de toras.
Por outro lado, os guardas, tendo pouco a fazer no posto,
foram os primeiros a freqüentar com assiduidade
a escola e, como dominavam o português, puderam
compreender os professores não-indígenas,
dando início ao processo de alfabetização
dos Krahô. Quando a Guarda foi extinta, enfrentou-se
o problema do reaproveitamento de parte de seus membros,
que se viram repentinamente privados de seus soldos,
como funcionários e professores.
Enfim, a situação deve ter mudado,
pois, se em 1952 os Krahô faziam um movimento messiânico
para deixarem de ser índios, em 1986 empenharam-se
em uma reivindicação que implicava justamente
no oposto, na sua afirmação étnica,
que foi a exigência de terem de volta o machado
de pedra de lâmina semilunar que haviam cedido ao
Museu Paulista havia muitos anos. Depois de muita discussão
com a direção da Universidade de São
Paulo (sob cuja jurisdição está o
Museu), debates pelos jornais e resolução
de impasses jurídicos, o machado foi devolvido.
O interessante de tudo isso é que, para aqueles
Krahô que mostraram o machado a Julio Cezar Melatti
ao passarem por Brasília, levando-o de volta para
a aldeia, ele já não era mais um dos muitos
machados arqueológicos que os índios encontravam
no chão, pondo-lhes novos cabos, ornamentos e pinturas:
ele era o machado por excelência, aquele que no
longínquo passado cantava, conforme um de seus
mitos, o machado com que haviam matado o chefe dos Cokãmkiere,
um povo mítico, conforme outra de suas narrativas.
No que tange às relações intertribais, após
terem ajudado os civilizados no combate e escravização
de outros grupos, talvez todos timbira, do sul do Maranhão,
na segunda década do século XIX, os Krahô
foram cogitados como guarda avançada contra um
povo mal conhecido imediatamente ao sul, por vezes chamado
de Xavante, mas que certamente já se tinha constituído
como um ramo à parte, os Xerente.
E esse foi outro dos motivos que levaram à sua
já citada transferência para Pedro Afonso
em 1848. Entretanto, nessa época, os Xerente,
também objeto de ação missionária,
já não eram mais hostis, e mantiveram
relações amistosas com os Krahô.
Assim, no começo do século XX, havia alguns
indivíduos Xerente casados em aldeias Krahô
e vice-versa. Por volta de 1926, desavenças entre
índios Xerente, que envolviam acusações
de feitiçaria, fizeram com que alguns deles migrassem
para os Krahô. Esse conflito teve desdobramentos
que levaram à morte dois desses Xerente alguns
anos mais tarde, nos quais se envolveram também
os Krahô, fazendo estremecer as relações
entre suas aldeias setentrionais de Pedra Branca e Pedra
Furada. Mas foi entre os Krahô meridionais que
parecem ter se concentrado esses Xerente.
Nimuendajú conta de uma expedição
Krahô que, em 1923, assaltou uma aldeia Apinayé,
tendo-lhe causado apenas danos materiais, uma vez que
seus habitantes fugiram a tempo. O motivo dessa incursão
foram acusações de feitiçaria contra
um Krahô que vivia entre os Apinayé. Vale
ressaltar que esse conflito não envolveu todos
os Krahô contra todos os Apinayé, mais
sim a aldeia de Pedra Furada, dos primeiros, contra
a de Gato Preto, dos segundos. Cinco anos depois, o
indivíduo que havia sido o pivô do conflito
foi morto na aldeia Krahô de Pedra Branca, a
qual procurou reativar o intercâmbio amistoso
que havia mantido com a aldeia apinayé de Bacaba.
Tanto antes como depois desse conflito, indivíduos
Apinayé se radicaram entre os Krahô.
Já se disse da incorporação
aos Krahô de parte dos Põrekamekrá,
na segunda década do século XIX, bem como
de sobreviventes da destruição da aldeia
kenkateyê em 1913. Os Krahô também
têm em seu meio alguns Apanyekrá. Mas vale
notar que os filhos de todos esses imigrantes são
considerados verdadeiros Krahô.
Esse envolvimento com povos indígenas
vizinhos, acabou por permitir aos Krahô alguma
forma de articulação política com
eles. Mais recentemente, por exemplo, quando os Apinayé
estavam com suas terras ameaçadas de invasão
pelos civilizados, índios Krahô e Xerente
compareceram à região ameaçada
para reforçar as posições daqueles.
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