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São muitos os ritos Krahô. Há
os mais breves, relativos às crises individuais
(fim de resguardo pelo nascimento do primeiro filho, fim
de convalescença, última refeição
do falecido), ou promovidos por iniciativas coletivas
ocasionais, como trocas de alimentos e serviços.
Há os relacionados ao ciclo anual e agrícola,
como os que marcam a estação seca e a chuvosa,
o plantio e a colheita do milho, a colheita da batata-doce.
Há os que fazem parte de um ciclo mais longo que
o anual, o da iniciação masculina, que deveriam
se suceder numa certa ordem, hoje de difícil reconstituição,
inclusive por causa do desaparecimento de um deles.
Vários dos ritos dos ciclos anual e iniciático
têm mitos que lhes contam a origem. Mas não
há uma correspondência integral entre a
seqüência mítica e a ritual, embora,
sem dúvida, haja pontos de aproximação.
Os mitos contam as transformações
que os atos dos heróis Sol e Lua provocaram no
mundo incriado (aparecimento dos seres humanos, da menstruação,
da morte, do trabalho, dos insetos que picam, das cobras);
a obtenção das plantas agrícolas
da mulher-estrela; a aquisição do fogo,
tirado ao jaguar; a obtenção de ritos
por homens que visitaram o céu, o fundo das águas,
a roça em crescimento, enfim, como se toda a
cultura Krahô tivesse vindo de fora. Mesmo
o xamanismo vem de fora; o primeiro homem que conseguiu
poderes mágicos foi o que subiu aos céus,
levado pelos urubus, onde foi curado e recebeu poderes
do gavião. Ao observador, é difícil
encontrar sinais de transe nos curadores Krahô
quando atuam, o que pode levá-lo a negar que
sejam propriamente xamãs. Mas o relato de cada
um deles mostra que foi iniciado como que por um rito
de passagem espontâneo, similar ao do homem que
subiu ao céu: ficou doente, foi abandonado, foi
socorrido por um animal (ou outro ser), foi curado por
este, dele recebeu poderes mágicos, testou-os,
e foi mandado embora para os seus com os novos poderes.
A partir dos mitos e das opiniões dos
Krahô, nem sempre unânimes, pode-se fazer
uma idéia de como imaginam o universo: a terra,
cercada de água, recoberta pelo céu, que
tem seu sustentáculo a leste, onde está
também o buraco que faz a comunicação
com o mundo subterrâneo.
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