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As aldeias Krahô seguem o ideal timbira
da disposição das casas ao longo de uma
larga via circular, cada qual ligada por um caminho
radial ao pátio central.
Cada casa normalmente abriga as mulheres que
ali nasceram e os homens que, deixando as moradas de
suas mães, vêm com aquelas se casar. Obviamente,
o número de moradores da casa não pode
aumentar indefinidamente.
Geralmente, após a morte do sogro, um dos genros
fica com a casa, enquanto os demais, acompanhados de suas
esposas e filhos, constroem outras ao lado da mais antiga.
Isso nos permite distinguir três tipos de grupos
de residência, um encaixado no outro. O menor é
a família elementar, constituída pelo marido,
a esposa e os filhos. É bem visível na hora
das refeições, quando se afasta dos demais
habitantes da casa para comer, às vezes tirando
o alimento de um mesmo prato ou cuia. Também é
o grupo que detém um pedaço da roça.
As famílias elementares abrigadas pelo mesmo teto
constituem o grupo doméstico, coordenado pelo sogro.
Alimentos que entram na casa, uma vez preparados, são
distribuídos por todos os seus habitantes, não
importa que mulher os tenha cozido. Finalmente, uma casa
junto com as contíguas a que deu origem constitui
um segmento residencial. Se por um lado não tem
um líder bem definido, por outro o segmento tem
duas marcas que o tornam bem visível: mantém
sua posição segundo os pontos cardiais mesmo
após a aldeia mudar de lugar e as pessoas que nascem
em seu seio não se casam entre si.
Outros grupos são mais visíveis
nas atividades rituais, no pátio, fora das casas.
É o caso dos vários pares de metades em
que podem se dividir os Krahô. A um deles podemos
chamar de metades sazonais, pois uma está associada
à estação seca (e também
ao dia, ao leste, ao pátio central) e a outra
à chuvosa (e também à noite, ao
oeste, à periferia). As reuniões masculinas
diárias realizadas no pátio central são
coordenadas por dois "prefeitos", ambos pertencentes
à metade sazonal correspondente à estação
em curso. Diz-se que só essa metade toma decisões
durante a estação. Cada uma dessas metades
dispõe de um conjunto de nomes pessoais; homens
e mulheres pertencerão a uma ou à outra
de acordo com os nomes pessoais que receberem.
Logo ao deixar a meninice, os rapazinhos da
aldeia nascidos mais ou menos na mesma época
são reunidos numa classe de idade, sob um nome
coletivo, e que é incluída na metade oriental
ou ocidental de um outro par. Malgrado essa instituição
estar um tanto desorganizada, nota-se que as classes
são introduzidas alternadamente em metades opostas
e colocadas ao norte do pátio, sendo empurradas
para o sul à medida que outras novas são
criadas. Essas metades, que podemos chamar de etárias,
participam de vários ritos, e outrora também
de um rito de iniciação não mais
realizado, o Pembjê ou Ikrere. Os
"prefeitos" que coordenam as reuniões numa mesma
estação devem ser um da metade etária
oriental e outro da ocidental.
As metades de um terceiro par reúnem,
cada qual, quatro grupos masculinos, que se dispõem
no pátio da seguinte forma, de norte para sul:
na metade oriental, Corujas, Tatupebas, Urubus e Periquitos-estrela;
na ocidental, Raposas, Gaviões, Periquitos e
Cupe(n) (não-Timbira ou civilizado). A
inclusão em um desses grupos depende do nome
pessoal. Eles atuam em um rito de iniciação
chamado Ketwayê.
Há outros pares de metades que não
têm membros permanentes. Atuam nas diferentes
variedades do rito de Pembcahàk e de outros
do ciclo da iniciação. A escolha dos membros
se faz antes de cada realização do rito
a que o par esteja associado. São seis pares.
Em cada qual uma metade tem nome de animal alado ou
peixe, e a outra de mamífero ou ave terrestre.
As mulheres só se incluem como membros,
com o mesmo critério que os homens, nas metades
sazonais. Nos outros pares, as solteiras ficam na metade
do pai e as casadas, na do marido. Embora os homens
sejam os participantes por excelência dos grandes
ritos, as metades e o grupo de rapazes em iniciação
quase sempre têm uma ou duas moças associadas.
Cada nome pessoal se constitui de uma série
de palavras entre cujos significados nem sempre é
possível encontrar uma relação
imediata. O nome masculino é transmitido pelo
tio materno, avós materno e paterno ou outros
homens chamados pelo mesmo termo de parentesco; o nome
feminino, pela tia paterna, avós paterna e materna
e outras mulheres chamadas pelo mesmo termo de parentesco.
Por exemplo, um homem chamado Hàká
(jibóia) Ihocpej (pintura = ihoc,
bonita = pej, isto é, pintura de jibóia)
Harecaprec (brejo = hare, vermelho = caprec)
deve pertencer à metade da estação
das chuvas e ao grupo da praça Urubu; uma mulher
chamada Xopê (xo = raposa, pê
= gorda), Catxêkwôi (catxê
= estrela, kwôi = sufixo de nomes femininos)
Krôkari (areia) Tetikwôi (tetí
= jatobá) deve pertencer à metade da estação
seca. Além da afiliação a uma das
metades sazonais e a um grupo do rito de Ketwayê,
com o nome pessoal o indivíduo ganha o privilégio
de encarnar certos personagens rituais e ainda fica
ligado por uma amizade altamente formalizada a outros
indivíduos portadores de determinados nomes.
Por outro lado, o indivíduo está
ligado ao pai, à mãe, irmãos, meio-irmãos
e filhos por um laço corpóreo de tal natureza
que determinados atos seus (sexo, matar cobra, fumar,
falar alto) e o consumo de certos alimentos podem afetar
um daqueles parentes que estiver passando por uma crise
(período pós-natal, doença, picada
de cobra).
Os termos de parentesco Krahô se distribuem
sobre a rede genealógica conforme um determinado
padrão de tal modo que alguns deles podem figurar
em mais de uma geração. É possível
a um Krahô aplicar um termo de parentesco a cada
outro, desde os parentes mais próximos até
alcançar os limites de sua sociedade, seguindo
esse padrão, o que não significa que tome
a todos como parentes. É possível o casamento
com os parentes afastados, o que leva a sobrepor, aos
termos antes aplicados, os de afinidade. Outras instituições
e costumes também perturbam o padrão terminológico:
o chamar parentes distantes que tenham o mesmo nome
de parentes próximos pelos termos aplicados a
estes, a aplicação do termo especial para
amigos formais, a mudança de comportamento para
com certos parentes acompanhada do tratamento verbal
correspondente.
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