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ATIVIDADES PRODUTIVAS   
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ATIVIDADES PRODUTIVAS

Os fragmentos de cerâmica, espalhados na superfície das aldeias xinguanas antigas e recentes, fornecem claras evidências da continuidade cultural ao longo de quase mil anos não somente da tecnologia, mas também da orientação econômica básica de todos os povos alto-xinguanos: agricultura de mandioca e pesca. Outros produtos de plantio são batata doce, milho, algodão, pimenta, tabaco, urucum. Hoje se plantam bananas, melancias, mamões, limões.

O Alto Xingu é um exemplo de como tecnologias ameríndias podem sustentar populações numerosas e sedentárias. Apesar de que o uso do território parece ter sido mais intenso nos tempos pré-históricos, os padrões xinguanos fornecem um modelo importante de como uma agricultura intensiva, no interior de um padrão rotativo de uso da terra, complexo e de longa duração, pode ser possível em um meio-ambiente amazônico. É um modelo que representa uma alternativa aos padrões destrutivos de exploração da terra comumente aplicados com o uso das tecnologias ocidentais na Amazônia.

As plantas cultivadas, sobretudo a mandioca, constituem de 85 a 90% da alimentação. Os Kuikuro conhecem 46 variedades de mandioca, todas venenosas, mas apenas seis variedades fornecem 95% de suas colheitas. O pequi (Caryocar brasiliense), plantado próximo das roças, é uma fonte sazonal importante de alimento e dele se extrai o óleo de pequi utilizado para embelezar e proteger a pele. Urucum, jenipapo, argila branca, carvão vegetal e resinas servem para a preparar pigmentos utilizados na pintura tanto do corpo como de artefatos.

As roças são abertas a distâncias variadas das aldeias, às margens da floresta e cultivadas durante três ou quatro anos. Para remover o ácido prússico da mandioca venenosa, os Kuikuro, como todos os alto-xinguanos, desenvolveram uma tecnologia sofisticada de lavagem da massa obtida após ralar os tubérculos. Com a farinha ou polvilho de mandioca são feitos beiju e diferentes tipos de bebidas.

A coleta de mel e, sazonalmente, de frutos silvestres, dos ovos de tracajá e da saúva complementa a dieta tradicional.

A caça é não é importante; os alto-xinguanos não comem nenhum “bicho de terra ou de pêlo”, com exceção do macaco (uma espécie de Cebus). Jacus e mutuns, alguns tipos de pomba, tracajás e macacos substituem o peixe quando o consumo deste é interditado. O consumo de peixe representa 15% da alimentação e os Kuikuro conhecem cerca de cem espécies de peixes comestíveis. O Alto Xingu é um mundo de águas, entre rios, igarapés e lagoas. Aos métodos tradicionais de pesca, com arco e flecha, com lanças ou com diversos tipos de armadilhas e barragens, ou com o timbó, se acrescentam, hoje, o anzol e a linha, o arpão e a rede.

A produção tradicional de artefatos, como bancos, esteiras, cestos e adornos plumários, servia e continua servindo para usos cotidianos e cerimoniais, para pagamento de serviços como a pajelança ou para selar uma aliança de casamento, bem como para as trocas ritualizadas intra e inter-aldeias, chamadas de ulukí. Os Kuikuro, como os outros grupos carib, participam do sistema econômico e ritual alto-xinguano como especialistas na fabricação de colares e cintos de caramujo de terra, bens de alto valor. Estes adornos são muitas vezes usados como pagamento das panelas de cerâmica feitas pelos povos aruak da mesma região.

Hoje, a fabricação de um variado e abundante artesanato – reproduzindo e inovando objetos e padrões tradicionais – é uma fonte de dinheiro fundamental para a compra de bens que se tornaram indispensáveis, como combustível, material de pesca, munições, miçangas, gêneros alimentícios que entraram na dieta (arroz, sal, açúcar, óleo, etc.), apenas para mencionar os mais importantes. Tempo considerável é atualmente gasto na produção de objetos “étnicos” vendidos no atacado e no varejo do mercado de “arte indígena” das cidades ou a compradores que chegam até as aldeias.


Bruna Franchetto
bfranchetto@yahoo.com.br
Antropóloga. Professora Associada II (professor de ensino superior) - UFRJ

Novembro de 2004

 
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