|
As
narrativas tradicionais, que os brancos chamam de ‘mitos’
e que os Kuikuro chamam de akinhá ekugu (narrativas
‘verdadeiras’), contam como o universo existe tal como
ele é e explicam a origem de cantos, festas (rituais), bens
culturais, plantas cultivadas, categorias de seres. Tudo o que existe
e merece explicação está associado a uma ou mais
narrativas. Giti, Sol, é o herói cultural por
excelência, criador, junto com seu irmão gêmeo
Aulukuma, Lua. Os demiurgos, contudo, incluem uma galeria de
antepassados de Sol e Lua e são eles os descendentes do
casamento entre Atsiji, Morcego, e Uhaku, uma árvore.
O tempo da criação era (e é) o tempo em que
humanos e não humanos se comunicavam, em que todos falavam, em
que os humanos viviam no meio dos itseke. Estes são
seres sobrenaturais que povoam a floresta e o fundo das águas;
são perigosos, sedutores, causam doença e morte, tem
poderes de transformar-se em humanos ou animais. Muitos animais e até
artefatos têm uma existência real, atual, adequada e uma
existência monstruosa, excessiva, como itseke. Podem
ser, por outro lado, ‘espíritos’ auxiliares dos
xamãs (hüati) em seu papel de curadores, em suas
visões e viagens que os outros não podem ver nem
experimentar. Somente os xamãs têm o poder de
relacionar-se (perigosamente) com os itseke; a doença e
o sonho são estados que podem, todavia, colocar em contato
humanos em geral e itseke.
Máscaras
representam vários tipos de itseke em rituais
executados para o restabelecimento da ordem, do equilíbrio e
da saúde. Tornar-se xamã é uma escolha
individual e um chamado sobrenatural por ocasião de episódios
de doença ou através do sonho. O xamã adquire
seus poderes ao longo de uma demorada e difícil iniciação,
aprendendo com um outro xamã mais velho, submetendo-se às
restrições alimentares e sexuais, entre outras, que
caracterizam os estados de reclusão. Ele pode então
tornar-se um curador, com uma visão excepcional, pode
diagnosticar as causas de doenças, mortes, roubos, desastres
‘naturais’, para identificar os kugihe oto, ‘donos
de feitiço’. O preço de seus serviços é
alto, pago com bens valiosos. Há uma distinção
entre xamã – e mulheres podem ser xamãs – e
kehegé oto, ‘dono de rezas’. Este último
aprende e sabe utilizar ‘rezas’ para curar diversos tipos
de doenças, ou facilitar o parto.
As
‘rezas’ são fórmulas transmitidas de
geração em geração, parte em língua
aruak e parte em língua carib, pronunciadas susurrando no
ouvido do paciente. Os ‘batismos’ são semelhantes
às ‘rezas’ e servem para ‘batizar’os
primeiros frutos de certos alimentos vegetais, como o pequi e o
milho. A cura pode ser realizada também por meio de remédios,
graças ao considerável conhecimento de plantas que
crescem nos diferentes ecossistemas do Alto Xingu. Remédios
(embuta) não são apenas para a cura; os
alto-xinguanos produzem e utilizam eméticos, assépticos
e substâncias entendidas como fortificantes para os que se
encontram em períodos de reclusão.
Há
um mundo celeste (kahü, cujo ‘dono’ é
o urubu bicéfalo) onde mortos e itseke habitam aldeias.
A akunga (‘sombra’, ‘alma’) do morto
se desprende do corpo, perambula durante um certo tempo entre os
vivos para depois empreender uma longa viagem de encontros e
batalhas, com aves e monstros, que, às vezes, conseguem
destruir definitivamente a akunga. Os mortos têm
destinos diferentes dependendo do tipo de sua morte.
Os
Kuikuro possuem um sofisticado conhecimento de estrelas e
constelações, projetando no céu personagens e
acontecimentos míticos. A observação do nascer
helíaco de certas estrelas regula atividades produtivas e
rituais, estruturando as estações da seca (de maio a
outubro) e da chuva (de novembro a abril).
|