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Da continuidade da organização espacial da aldeia centrada na praça se infere a continuidade da organização política e ritual. Na praça se realizam as atividades cerimoniais, sobretudo aquela relacionadas aos principais ritos de passagem que caracterizam a trajetória dos chefes. O complexo sistema de “donos” e “chefes” regula a dinâmica política e a vida ritual, ou seja a própria existência e reprodução do grupo local (aldeia).
Há mais de um chefe e mais de uma categoria de chefia na aldeia como ‘dono (oto) da praça’, ‘dono da aldeia’, ‘dono do caminho’. Mulheres podem ser chefes. Tornar-se chefe é o resultado de cálculos de descendência bilateral, ou seja, tem um componente hereditário, mas é, sobretudo, o resultado de uma trajetória política individual, do esforço de um indivíduo para acumular e manter prestígio através da generosidade na distribuição de suas riquezas, da habilidade enquanto líder e representante da aldeia, assim como pelo conhecimento ritual, dos discursos cerimoniais e da oratória. Os chefes e suas famílias se constituem em uma espécie de estrato social ‘nobre’ distinto dos ‘comuns’.
Cada casa tem seu ‘dono’ (oto), o homem que a construiu e que reuniu em volta dele seu próprio grupo familiar. As roças têm ‘dono’, o homem ou mulher que se responsabilizou e dirigiu os trabalhos de limpeza do mato, preparação do terreno e plantio. Os pequizais têm ‘dono’, quem os plantou. Cada festa tem seu ‘dono’, quem patrocina sua realização dependendo do desejo dos habitantes da aldeia, de ocasiões específicas. Ser ‘dono’ de uma festa significa ter a capacidade de mobilizar trabalho familiar e coletivo para a produção de grandes quantidades de alimento e para o pagamento de variados tipos de serviço.
Parentesco
A unidade básica é a família nuclear, que pode ser ampliada (família estendida) acrescentando outros parentes, como viúvos e filhos casados. A regra é que o filho recém-casado passe a morar com os sogros, participando de todas as atividades diárias e produtivas da família destes últimos (uxorilocalidade). Após alguns ou muitos anos, o casal pode construir uma moradia própria.
A descendência é bilateral. Tipos de herança, inclusive do status de chefia, são estabelecidos igualmente por linha paterna e materna. A transmissão dos nomes próprios é feita de avós para netos, também bilateralmente; assim, um indivíduo porta todos os nomes pelos quais a sua mãe o chama e todos os nomes pelos quais o seu pai o chama. Os nomes dados alguns meses após o nascimento mudam em momentos específicos do ciclo de vida: na iniciação masculina e feminina, ao nascimento de filhos e netos. Nomes novos podem comprados ou, mais raramente, doados.
O sistema dos termos de parentesco apresenta uma feição dravidiana com oscilação na classificação dos primos cruzados. Em outras palavras, os primos paralelos – filhos da irmã da mãe e filhos do irmão do pai – são chamados e tratados como irmãos. A distinção entre primos paralelos e primos cruzados – estes sendo os filhos do irmão da mãe ou da irmã do pai – é fundamental, já que o casamento preferencial é com primos cruzados. Dela deriva a terminologia de casamento dos primos cruzados bilaterais. Os primos cruzados, todavia, são definidos enquanto tais ou como paralelos dependendo da distância social ou genealógica, com conseqüência para a classificação dos descendentes.
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