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A cosmologia Kulina encontra em sua cosmografia
um delimitador espacial para os seres, espíritos
animais e plantas. Trata-se resumidamente de sua concepção
visual do céu, da terra e dos lugares que homens
e animais nela ocupam de um ponto de vista geocêntrico.
Essa cosmografia supõe a existência de
camadas e, nelas, locais. As camadas basicamente seriam
meme ("céu"), nami ("terra")
e nami budi ("embaixo da terra"). Há
também dsamarini ("o lugar da água")
e outras duas distinções do céu
que são pouco citadas.
Crianças, homens, velhos e mortos ocupam lugares
distintos nessa cosmografia e no sistema de reciprocidade,
sendo as categorias etárias nativas organizadas
segundo o esquema abaixo:
Crianças
nono: recém-nascido; não gente
ejedeni:- criança; gente
Jovens
dsabisso/dsohuato: (rapaz/moça) adolescente;
até o casamento
maqquideje dsabisso (homem rapaz) e amoneje dsohuato
(mulher moça): jovens casados e sem filhos
Adultos
maqquideje/ amoneje: homem/mulher casados, com
filhos, casa e roça
jadahi/ jadani: velho/velha
Morto: não gente
Os homens, bichos e plantas vivem em nami
("terra"), enquanto que os espíritos
ocupam o mundo subterrâneo, nami budi.
Os bichos e animais de caça também vivem
em nami budi, subindo à terra para serem
caçados pelos homens. O pajé, quando bebe
rami ("ayahuasca") ou através
de seus sonhos, entra em contato com o mundo de nami
budi, visitando as grandes aldeias subterrâneas
onde vivem os espíritos ou trazendo os animais
para a superfície, próximos da aldeia.
Para tanto, ele se transforma em animal também,
sendo que os próprios animais de nami budi
são espíritos metamorfoseados.
Utilizo o termo transformação
para indicar o processo de modificação
do animal em pessoa, e metamorfose como o processo
de modificação do espírito em animal,
não em oposição um ao outro. Esse
ciclo de transformações está na
base de um sistema de oposições, operando
numa cosmovisão que pode ser sintetizada da seguinte
maneira:
espírito/metamorfose
xamã/morto
Corpo/transformação
Recém-nascido/caça
Segundo o ciclo, o ser não domesticado,
o nono, representado pela floresta (natureza,
masculino), é domesticado através
da ingestão de alimentos produzidos nas roças,
pelas substâncias femininas (leite materno e saliva),
pela aprendizagem e compreensão dos mitos e música,
até tornar-se o mais próximo possível
de um ser totalmente sociável.
Após a vida adulta, este ser sociável
- maqquideje ou jadahi, tem duas formas
para voltar à natureza, sua origem: após
a morte, quando o seu espírito irá vai
até nami budi, para as aldeias de seus
dos antepassados, ou transformando-se em animal de caça,
ou através da metamorfose do xamã em animais
selvagens (normalmente o queixada).
O xamã, auxiliado pelo seu tokorimé
(espírito, duplo, imagem, normalmente o queixada),
vai a nami budi, o local dos mortos e, por identificar
seu tokorimé animal com o dos outros espíritos
de mortos metamorfoseados em queixadas, consegue trazê-los
à superfície, próximos à
aldeia, para então serem onde serão, por
indicação do xamã, caçados
e posteriormente devorados.
No final do ciclo de transformações
os espíritos são caçados e comidos
pelos vivos, o que sugere um tipo de endocanibalismo,
necessário para fazer com que o espírito
do morto seja incorporado novamente ao sistema de reciprocidade,
por ele abruptamente abandonado ao morrer. Durante esse
ciclo, o corpo físico/selvagem dirige-se em direção
à aldeia, mundo da sociabilidade. De outra parte,
o corpo espiritual/domesticado dirige-se à floresta,
mundo selvagem, ainda não domesticado. Há
uma relação entre o corpo físico
e o mundo social, assim como do corpo espiritual com
o mundo da natureza, onde o mundo da sociabilidade é
o dos vivos, enquanto que o mundo da floresta selvagem
está relacionado aos espíritos: os mortos.
Assim sendo, esse corpo espiritual/domesticado, no seu
mais alto grau, dirige-se ao mundo da natureza e retorna
como corpo físico/selvagem, através de
práticas xamânicas ou da morte - as transformações
de um e outro encontrando nos respectivos extremos seu
lugar para acontecer.
Em síntese, os elementos do sistema cosmológico
são: homens que vivem em cima da terra e bichos
que vivem embaixo da terra. A relação
entre homens e bichos se dá através da
alimentação, na forma de carne de caça,
ou através do xamã, que os traz do mundo
subterrâneo para a superfície, neles transformando-se.
Observando as habitações madija,
percebe-se na sua parte posterior essa distinção
relacional. Humanos vivem sobre o assoalho de paxiúba,
onde se come, dorme, refugia-se e é limpo. Animais
vivem sob a casa, separados pelo assoalho, sendo a ligação
entre eles de reciprocidade. Nessas habitações,
que seguem o padrão ribeirinho, processa-se o
alimento na parte posterior, sendo que todos os resíduos
- sólidos ou líquidos - atravessam o assoalho
chegando até os porcos e outros animais que lá
habitam. Como os porcos e os outros animais transformar-se-ão
em alimento, se estabelece uma forma equilibrada de
reciprocidade, que, a despeito de ter uma disposição
espacial importada do padrão regional, respalda-se
em categorias nativas de troca.
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