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No passado os Kulina viviam em grandes malocas
de palha, possuindo duas aberturas situadas uma a leste
e outra a oeste, que abrigavam grandes famílias.
Atualmente vivem em casas construídas sobre pilotis,
nos moldes regionais das habitações dos
seringueiros amazônicos. Seu assoalho é
de paxiúba, variando entre um e dois metros sua
distância em relação ao solo. O
telhado é coberto com folhas de jarina
- uma espécie de coqueiro local -, inclinando-se
em duas águas, num ângulo de aproximadamente
45 graus.
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Nas casas normalmente existe um compartimento
reservado, utilizado para guardar objetos de uso pessoal,
tais como armas, e onde também fica a maior parte
das redes de dormir. A área destinada ao processamento
de alimentos fica situada na parte posterior da casa
ligada à parte principal por uma passagem suspensa
de paxiúba, em oposição à
entrada, onde ficam as escadas. Há uma área
livre ao lado do compartimento fechado, em frente à
cozinha, na qual alimentam-se e também onde conversam
e recebem visitas.
As habitações atuais abrigam cerca
de no máximo 20 pessoas, reunidas em torno de
um patriarca que convive com os seus netos e genros.
Essa situação perdura até que estes
últimos construam suas próprias casas
e plantem seus roçados, o que normalmente acontece
após o casal já ter filhos.
As relações de parentesco, os
grupos de descendência (o sib) e os mecanismos
de reciprocidade interagem como uma rede de comunicações,
de forma que as várias esferas do social estão
relacionadas por um denominador comum: é o manaco
(o sistema de reciprocidade Kulina, também
traduzido como troca) que orienta, senão define,
as opções matrimoniais e as alianças
políticas.
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Nos termos desse sistema, todos os homens e
mulheres foram criados pelos heróis mitológicos
Tamaco e Quira, inclusive os brancos ,
mas somente os Kulina são gente: Madija.
Dentre essas gentes madija, pode-se citar os
Madija ssaco ("gente da traíra"),
Madija ccorobo ("gente do peixe jejum"),
entre outros, totalizando em torno de 76 tipos conhecidos
de Madija, sendo que cada epônimo caracteriza
os membros do grupo de descendência a ele associados.
Os Madija ssaco, por exemplo, são considerados
introspectivos, como acredita-se que seja o comportamento
ssaco. Neste sentido, não somente o social
atribui às diferentes gentes características
do seu animal ou planta identificado, como também
as gentes assim se acreditam. Para a tematização
paradigmática dessa forma de classificação
totêmica, as diferenças entre uma série
natural (animal e ou vegetal) são atribuídas
e constituem as diferenças da série cultural.
São os primos cruzados bilaterais os
preferidos para o casamento, normalmente de um sib
aliado, ou seja, que não tenha caso de conflito
por motivo de dori ("feitiço").
Há, inclusive, uma expressão kulina para
os primos cruzados, ohuini, que significa "aquele
que é prometido".
Abaixo, um esquema dos casamentos preferenciais
no parentesco kulina:

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No casamento kulina há uma série
de regras que ambos os sexos devem cumprir. O marido
deve obrigações ao sogro, em retribuição
à concessão da esposa, e recebe em manaco
(troca; retribuição) obrigações
dos seus cunhados por cuidar da irmã. Estas dizem
respeito principalmente aos trabalhos coletivos, como
a derrubada da mata para a roça e a construção
de casas e canoas. À mulher ele deve oferecer
dádivas e presentes em troca dos seus favores,
necessidade que se expressa inclusive publicamente,
como por exemplo no ritual da Coidsa, em que
os homens retornam da floresta trazendo alimentos que
entregam publicamente às suas esposas.
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Normalmente, a vida das meninas começa
muito cedo, com 3 ou 4 anos, a parecer-se com a das
respectivas mães. Apesar de não terem
compromissos na primeira infância, logo são
incentivadas a fazer um pequeno fogo e brincar de cozinhar
com pequenas panelas de barro confeccionadas pelas mães.
As mães também lhes fazem pequenos cestos
de buriti, reproduções dos cestos que
as mulheres mais velhas usam para buscar macaxeira nas
roças, com os quais elas as acompanham e brincam
de trabalhar.
Normalmente, mulheres mais velhas, mães,
filhas menores, cunhadas e irmãs vão juntas
à roça, banham-se juntas, cuidam dos irmãos
menores, cozinham, enfim, participam de um universo
social feminino em que o momento de casar-se é
apenas mais uma etapa de algo que começa muito
cedo e termina apenas com a morte.
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