|
Para os Kulina a doença é basicamente
causada por dori ("feitiço"),
que se manifesta na forma de um objeto que entra no
corpo da vítima através de inserção
mágica, podendo ser uma pequena pedra, um pedaço
de pau ou osso, que causará muita dor no corpo
do doente. Embora reconheçam hoje em dia que
há doenças que não são dori
- as doenças de branco, dsama coma, literalmente
"terra doente" -, seu sistema de crenças
invariavelmente as atribuem ao dori que, se não
as provoca diretamente, atua no sentido de predispor
o outro a adoecer.
Quem lança o dori é sempre
o dsopinejé ("xamã"),
que jamais age contra alguém de seu próprio
sib. Dessa forma, ou há um xamã
de um sib rival na aldeia ou ela veio de fora,
de madija ou não. Muitos conflitos aconteceram,
e ainda acontecem, por conta disso na forma do Manaco
negativo (vingança) entre Kulina de localidades
diferentes ou outras tribos.
As explicações higienistas de
que muitas das doenças nos chegam através
das fezes de humanos e animais (como os porcos), na
forma de um microorganismo, não encontra ressonância
nas categorias nativas, dificultando a ação
de agentes de saúde. Por exemplo, no domínio
simbólico os porcos, assemelhados aos queixada
(jidsama, que pode ser o porco doméstico
ou o do mato), cumprem um papel especial nos mitos (ciclo
de transformações), ritos (a coidsa:
festa da caiçuma, onde homens e mulheres
alternadamente apresentam-se coreograficamente uns aos
outros como jidsamas e se oferecem caiçuma
para beber) e na dieta alimentar kulina.
Os porcos também são freqüentemente
incorporados pelo xamã como um animal de poder:
um tokorimé ("espírito").
No plano físico são identificados como
exemplares da própria vida social dos Kulina,
por serem domesticáveis e agirem comunitariamente.
A Música no Xamanismo
A categoria de música ritualística
chama-se ajie (arrié), que pode ser traduzido
por música lendária. Muitos ajie são
antigos e de cunho xamanístico, e normalmente
são usados em sessões de cura para extrair
o feitiço ("dori") do corpo
do doente, conforme procedimentos similares descritos
em outras etnias.
Segundo os kulina, nessas sessões ocorre
uma inserção no corpo do doente, das canções
de cura que são cantadas pelo xamã e pelas
mulheres, em grupo, acompanhadas de defumações
de tabaco, resultando às vezes, após noites
de trabalho, na remoção de um pequeno
objeto, normalmente uma pequena pedra ou uma espinha
de peixe que se encontrava dentro do corpo do doente
e causava a doença. Esse objeto teria sido jogado,
como um dardo, por um xamã de outro sib
ou de outra etnia.
Como um domínio masculino, os cantos
xamânicos -de ajie- e os cantos de rami
jinede -os mariri rami- são criados
apenas por homens, xamãs a maior parte das vezes
ou pretendentes a sê-lo. Durante o mariri rami
há um mestre cantor especialista, aquele que
sabe e canta as estrofes que são repetidas pelos
outros participantes da cerimônia, mais ou menos
uma hora após a ingestão da infusão
de ayahuasca. Já nos rituais xamanísticos,
toccorimecca ajie ("cantos do espírito"),
há a participação ativa das mulheres,
que cantam para domesticar o dori selvagem do
corpo do doente, canções essas que são
ensinadas e ensaiadas pelo xamã para esse fim.
Está implícita na idéia
de atirar um dori em alguém a noção
de que, apesar de se tratar de um objeto independente,
ele carrega as características de quem o atirou.
São os cantos que irão proporcionar a
cura, através da domesticação desse
dori, primeiro através dos tokorime
(espíritos que os controlam), seguidos das canções
que ensinam ao elemento estranho, causador do desequilíbrio,
a harmonizar-se no novo sistema de reciprocidades e
dele passar a fazer parte.
Essa dualidade em relação ao dori
encaixa-se no dualismo do ciclo de transformações
de natureza e cultura, onde realizar a cura passa pela
transformação da doença, que é
dori de natureza selvagem, através da
canção, numa espécie de ressocialização
do dori.
O xamã precisa possuir conhecimento
e controle sobre suas duas polaridades: a selvagem e
a domesticada. É com o dori selvagem que
ele poderá causar doenças, pois xamãs
também são, noutro plano, guerreiros,
e em caso de rivalidades ou da necessidade de praticar
Manaco negativo usam seu poder para enviar ou
devolver o dori ao inimigo. Como o próprio
xamã possui dentro de si o dori, é
apenas sua extrapolação dos limites da
sociabilidade que o transforma em desequilíbrio
e doença: apenas para quem lhe é estranho
atua causando doença.
Ainda como elementos de comparação,
estão certas atitudes em relação
ao dori. O ato de mandá-lo a alguém
(ou para uma aldeia) é individual e masculino,
pois é o xamã quem solitariamente envia
o dori. Os xamãs são na sua quase
totalidade homens, no entanto o ato de curar
e transformar é coletivo, e basicamente feminino,
pois embora seja o xamã quem dirija o ritual,
ele é composto por muitas mulheres em grupo,
cantando junto ao doente. Sem elas, a cura não
acontece. Nesse sentido, a doença é criada
por um único indivíduo, representando
a natureza exterior, distante daquele que a recebe (a
floresta, a tribo distante, o inimigo desconhecido,
de fora do seu próprio sistema de reciprocidade),
e a saúde pelo coletivo, pela cultura.
|