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se viu, o caráter hierárquico da relação entre os Maku
e os Tukano tem diminuído graças ao trabalho das organizações
indígenas da área e aos missionários salesianos, que procuram
difundir a igualdade e a solidariedade entre os povos
indígenas. Porém, essa valorização dos Maku trouxe algumas
dificuldades. Durante os anos 1970, no intuito de estender
a eles os benefícios da
alfabetização e da assistência
médica, os missionários lograram concentrar em alguns
povoados-missão (a expressão foi cunhada por Athias, 1995),
exclusivamente Maku uma série de aldeias anteriormente
dispersas. Os exemplos mais conhecidos são Santo Atanásio,
no igarapé Japu, com 240 habitantes, e Nova Fundação,
no igarapé Cucura, com 164 habitantes, ambos na área do
Uaupés.
Se por um lado isto facilita
o acesso à assistência médica e a implantação de escolas
rurais, por outro lado apresenta problemas de difícil
solução. O primeiro deles é o problema alimentar. Como
vimos, os caçadores de uma aldeia de 25 habitantes caçam
num raio de sete a dez quilômetros em torno da aldeia.
Se a população da aldeia aumenta, o raio de atuação
dos caçadores também aumenta. Em vez de caminhar quatro
horas por dia, eles são obrigados a caminhar seis horas
ou mais, a fim de encontrar caça suficiente para manter
seus familiares. Com o tempo, isto se torna impraticável,
sobretudo para os caçadores de povoados-missão: eles
teriam de caminhar vários dias para manter um nível
razoável de abastecimento em caça. Em conseqüência,
esses povoados atravessam crises periódicas de fome.
Para solucionar este
problema, os missionários estimularam a formação de
pasto e doaram gado. Mas, além de não produzir carne
suficiente para substituir a caça, a bovinocultura reforça
a concentração espacial e a sedentarização desses índios.
Ora, como vimos, eles resolvem suas brigas internas
espalhando-se em várias aldeias e acampamentos. Porém,
nos povoados-missão, eles não querem abandonar o gado.
Ficam no local, a despeito dos desentendimentos. Em
conseqüência, as brigas costumam ser bem mais freqüentes
e violentas, algumas resultando em mortes. Hoje em dia,
os missionários reconhecem que os povoados-missão "não
são muito boa coisa para esses índios." Mas enfrentam
um dilema: a Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira
não concorda em manter escolas rurais em povoados com
menos de 15 crianças - e não há 15 crianças em idade
escolar nos povoados de tamanho tradicional.
Um outro inconveniente
dos povoados-missão é a dificuldade da coleta de cobertura
para as casas (caranã). Um povoado-missão esgota em
pouco tempo os caranazais da redondeza. Em resposta,
os missionários e a Prefeitura têm distribuído folhas
de zinco, que aumentam sobremaneira o calor dentro das
casas. Na época das chuvas, este calor contrasta fortemente
com o frio noturno. A grande variação térmica facilita
e agrava as doenças respiratórias, cuja disseminação
é aliás incrementada pela própria concentração espacial.
Se, de um lado, os povoados-missão são mais acessíveis
à assistência médica, de outro lado propiciam epidemias
e com isto necessitam de mais assistência médica do
que as aldeias tradicionais.
Segundo os dados da Saúde
Sem Limites, ONG que tem atuado entre os Maku do Uaupés,
a situação de saúde dos mesmos é precária, havendo muita
incidência de tuberculose, tracoma e verminoses diversas
(Cf. Athias, 1995). Na região do Apapóris, os Maku costumam
ser vítimas de surtos sazonais de malária, pois, ao
contrário do que se passa na região do rio Negro, a
malária é endêmica nessa região (Cf. Pozzobon, 1997c).
Já nas imediações de São Gabriel da Cachoeira, os Maku,
mais especificamente os Duw, são vítimas
do alcoolismo, além de sofrerem uma constante desnutrição,
devido ao empobrecimento da floresta nas proximidades
do perímetro urbano. São eles também os mais procurados
pelos regatões (comerciantes amazônicos embarcados,
que pagam em mercadorias a produção nativa de cipó,
borracha, piaçaba etc.). Estes últimos, como sempre,
tratam de manter os índios em eterna dívida, distribuindo
cachaça para garantir a dominação e a exploração.
As experiências missionárias
visando debelar os problemas de saúde dos Maku se têm
revelado infrutíferas, dado que no mais das vezes se
resumem a estimular o assentamento em bases permanentes
de grupos locais que antes vagavam dispersos em vários
pontos dos territórios interfluviais. Como se sabe,
a concentração espacial, além de ensejar a desnutrição,
devido à diminuição da capacidade de suporte do meio
ambiente imediato, também facilita as epidemias. Sendo
assim, a assistência médica baseada na sedentarização
dos Maku não faz mais do que agravar os problemas que
se propõe a resolver.
Ademais, nos povoados-missão
o trabalho nas roças é muito árduo. Dada a sobre-exploração
das clareiras e o esgotamento rápido do solo, as roças
se situam cada vez mais longe. Isto obriga as mulheres
a longas caminhadas pelas trilhas no centro da mata,
carregando cestos com 30 ou 40 kg de mandioca, coisa
que as índias de fala Tukano não precisam fazer, pois
transportam os tubérculos em canoas, visto que em geral
suas roças se situam às margens dos rios e igarapés
navegáveis.
Finalmente, há um aspecto
político muito importante envolvido na sedentarização
e na concentração espacial dos Maku. Como se sabe, as
terras indígenas da região do rio Negro foram recentemente
demarcadas e homologadas. Os grandes espaços interfluviais
desse conjunto de terras contíguas se justificam pela
presença dos Maku. Por isso eles constituem peça chave
nas estratégias de vigilância e proteção desses espaços
interiores. Não há "vazios demográficos" nos
territórios interfluviais, mas áreas ciclicamente utilizadas
pelos Maku. Ora, o incremento do processo de sedentarização
e concentração espacial desses índios arrisca reforçar
a tese dos "vazios demográficos", tão cara
àqueles que planejam um destino não indígena para a
área, como a implantação de "colônias agrícolas"
e "florestas nacionais", conforme queria o
Projeto Calha Norte.
Evidentemente, o respeito
aos padrões tradicionais de ocupação espacial torna
bem mais difícil a tarefa de garantir aos Maku a alfabetização
em suas próprias línguas e o acesso à assistência médica,
conforme prescreve a Constituição de 1988. Mas essa
dificuldade deve ser vista como um desafio, não como
um entrave, pois a mesma Constituição manda que se respeitem
os costumes de cada povo indígena. Sendo um povo consideravelmente
isolado em termos de contato e, portanto, pouco experiente
em matéria de movimento indígena, é preciso apoiá-lo.
É preciso que os missionários, a Prefeitura, a Funai,
os índios ribeirinhos, as organizações indígenas e as
ONGs atuantes na área elaborem, juntamente com os Maku,
um programa educacional e sanitário que se adapte aos
costumes deles, com unidades móveis de saúde e escolas
itinerantes.
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