|
Logo após os primeiros reconhecimentos efetivados
pela FUNAI na região surgiu a idéia da criação de um
Parque Indígena do Javari, que abrangeria as terras
de vários povos indígenas, inclusive a dos Marúbo. Incorporando
boa parte das terras irrigadas pelos afluentes da margem
direita do Javari, além do alto Jandiatuba e do alto
Jutaí, a proposta de Parque desde cedo enfrentou a oposição
dos políticos, comerciantes e empresas madeireiras dos
municípios de Atalaia do Norte e de Benjamin Constant,
porque se instalaria na maior parte das terras sob jurisdição
do primeiro, impedindo a extração de borracha e madeira
que tem por principal base de apoio a sede do segundo.
Por ser área de fronteira internacional, a proposta
também é vista com desconfiança por militares. Vários
grupos de trabalhos em diferentes momentos fizeram levantamentos
na área, até que finalmente o Presidente da FUNAI, em
1998, como já foi dito, aprovou o "Resumo do Relatório
de Identificação e Delimitação da Terra Indígena Vale
do Javari".
A Missão Novas Tribos do Brasil, que atua entre
os Marúbo desde a década de 1950, mantém uma sede
num local que denominou Vida Nova, apoiada por um campo
de pouso, no alto Ituí, onde, além de promover a pregação
nos cultos dominicais realizados em rodízio nas malocas
das vizinhanças, dispõe de uma enfermaria e uma escola
bilíngüe para alfabetização, que atendem sobretudo aqueles
índios que moram nas proximidades.
A Funai ocupou-se principalmente com os Marúbo
do rio Curuçá, onde criou um posto, porém muito abaixo
do lugar onde estavam instaladas suas malocas, o que
estimulou uma parte de sua população a descer. Uma escola
operou algum tempo por iniciativa de um funcionário;
a enfermaria, nos anos 70, estava desativada.
Os Marúbo têm participado ativamente da mobilização
desencadeada pelos índios do Javari nos anos 90. Em
dezembro de 1990, os líderes marúbo, matsés, kanamarí
e kulína (ou seja, das etnias há mais tempo em contato)
presentes no I Encontro dos Povos Indígenas do Vale
do Javari, reunido em Atalaia do Norte, criaram o Conselho
Indígena do Vale do Javari (CIVAJA) para articular suas
reivindicações relativas a terra, saúde, educação e
projeto econômico alternativo junto aos órgãos governamentais.
Essa entidade, que recebe o apoio da Pastoral Indigenista
da Diocese do Alto Solimões e da Coordenação das Organizações
Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), promoveu a
Iª, a IIª e a IIIª Assembléia Indígena do Vale do Javari,
respectivamente em 1992 (no posto destinado aos Marúbo
do rio Curuçá), 1995 (na aldeia Liberdade do alto Ituí,
quando pela primeira vez participaram representantes
matís) e 1997 (em aldeia marúbo do rio Curuçá). Se com
essas assembléias articula diferentes etnias da região,
com o I° Encontro sobre Demarcação, Madeira e Alternativas
Econômicas no Vale do Javari, em Atalaia do Norte, em
março de 1993, o CIVAJA as pôs em diálogo com prefeitos,
vereadores, militares, empresários, sindicatos e associações
da região. No sentido inverso, promoveu uma reunião
apenas com líderes marúbo, em número de 38, na aldeia
Maronal, no alto Curuçá, em janeiro de 1994.
Dentre os resultados alcançados decorrentes
da ação do CIVAJA se contam: a operação do Exército,
de julho de 1994 a março de 1995, no apresamento da
madeira indevidamente extraída nos limites da área indígena
interditada; a ocupação da sede da Administração Regional
da Funai por duas vezes (em 1995 e 1997), motivada pela
propensão de alguns funcionários a colocarem-se a favor
dos madeireiros e desacreditarem os esforços indígenas
por uma atuação autônoma; a presença da entidade Médicos
sem Fronteiras (MSF), por dois anos, ao invés de oito
meses, como fazem normalmente, atendendo desde 1995,
sobretudo no combate à malária, e contribuindo com microscópios
e motores de rabeta para facilitar o deslocamento dos
agentes de saúde; a instalação de 16 aparelhos de radiofonia
pela entidade Amigos da Terra, ligando diferentes pontos
da área do Javari à sede do CIVAJA, em Atalaia do Norte,
e a Cruzeiro do Sul, cidade muito freqüentada pelos
Marúbo, para comércio e tratamento de saúde; a agilização
da aprovação do relatório de identificação e delimitação
de Terra do Javari já citado.
|