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Pode-se dividir o contato dos Marúbo com os
brancos em três fases. A primeira, a partir do final
do século XIX, é marcada pelo contato com os peruanos
que desciam os rios à procura do caucho, vegetal de
terra firme que era derrubado para dele extraírem o
látex, e com os brasileiros, que subiam os rios em busca
da seringueira, árvore mais freqüente na várzea e, portanto,
no baixo curso, que não era abatida, bastando fazer-lhe
incisões no tronco para lhe coletarem a seiva. Parece
ter sido um período de grande desorganização dos povos
indígenas da bacia do Javari. Aplicava-se o sistema
amazônico do aviamento, de adiantamento de artigos industrializados
que deviam de ser pagos com produtos da floresta. Não
era um comércio livre, pois cada rio era como que "propriedade"
de um seringalista, que tinha junto a sua foz seu "barracão",
isto é, seu armazém, seus funcionários administrativos
e seguranças, que não permitiam aos seringueiros por
aí passarem sem fazerem suas transações. Não eram apenas
os índios os explorados: em 1900 o seringalista que
dominava o rio Ituí reprimiu violentamente os seringueiros
que dele tentavam fugir com a borracha. Integrantes
da Missão Novas Tribos do Brasil, que começaram a trabalhar
com os Marúbo em 1952, ainda encontraram entre eles
notas de compras de 1906.
Entretanto, com a queda dos preços da borracha
em 1912, a região começou a ser abandonada pelos empresários
da borracha e pelos que para eles trabalhavam. Houve
quem deixasse sua empresa para seu gerente, mas mesmo
assim a retirada da população continuou. Apareceram
aventureiros, que mantinham não somente o tipo de exploração
até então imposta mas ainda acrescentavam a má fé nas
relações com os índios. Até que os Marúbo se viram abandonados.
Voltaram a viver isolados dos brancos, durante os anos
30 e 40. É provável que foi o tempo em que os Marúbo,
então retraídos ao alto Curuçá, voltaram a se organizar,
articulando os diferentes agregados de seções. Eles
atribuem a João Tuxaua, falecido recentemente, a pregação
e estabelecimento da paz no seio do povo marúbo. Foi
essa a segunda fase da história do contato.
A terceira fase se inicia quando os Marúbo,
na falta dos instrumentos de metal, que haviam se acabado,
voltam a procurar os brancos, na direção sul, do rio
Juruá. Estabelecem contato com o seringal de Boa Fé,
na foz de seu afluente, o rio Ipixuna. Aí passam a trocar
pélas de borracha e couros de animais silvestres por
artigos industrializados. Essa relação atrai a Missão
Novas Tribos do Brasil, que entre eles se estabelece.
Pouco mais tarde, madeireiros que subiam o Javari
e seus afluentes também entram em contato com os Marúbo.
Como o transporte da madeira só podia ser feito
rio-abaixo, como as pélas de borracha também eram mais
comodamente transportadas em embarcação do que às costas,
como os missionários acabaram por construir um campo
de pouso junto ao rio Ituí e mantinham uma cantina,
o contato com o Juruá perdeu o interesse, embora nunca
tenha sido abandonado.
Se, por um lado, os Marúbo parecem ter resultado
do apaziguamento e articulação dos remanescentes de
alguns povos indígenas culturalmente semelhantes desorganizados
pelo contato com os brancos, por outro, a mais conhecida
das relações intertribais que mantiveram foi de caráter
hostil com os Matsés, que, por volta de 1960 atacaram
um pequeno grupo de indivíduos marúbo que procuravam
ovos de tracajá nas praias do Curuçá, matando um homem
e raptando três mulheres. Essa incursão provocou um
revide dos Marúbo, que fizeram uma expedição que matou,
asseguram, quatorze Matsés, com armas de fogo, pois
já tinham restabelecido o contato com os brancos. Vários
anos após terem sido os Matsés contatados pelos brancos,
foi possível a duas das mulheres raptadas voltarem aos
Marúbo, tendo a terceira provavelmente falecido.
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