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Mas os ritos que mais freqüentemente se realizam
estão no âmbito da magia e se apresentam sob duas formas:
os cânticos de cura e as sessões xamânicas. Qualquer
homem maduro se sente na obrigação de entoar os primeiros,
sentado com outros em banquinhos em torno da rede do
doente, quando este é um parente próximo. Mas há reconhecidos
especialistas nesses cânticos, os kenchintxô
ou "curadores". São cânticos que duram pelo
menos quarenta e cinco minutos, repetidos ou substituídos
por outros a intervalos pelo número de vezes que a gravidade
do mal o exigir. Antes de cantar pela primeira vez e
nos intervalos, os curadores bebem ayahuasca e tomam
rapé. Têm uma seqüência padronizada: uma introdução
narra como se formou o espírito da doença, constituído
de partes de diferentes seres; uma narrativa de como
a doença entrou no enfermo; a invocação de seres e qualidades
que entram no corpo do enfermo para combatê-la, entre
os quais tem papel preponderante o espírito feminino
Shoma; e a recuperação do doente. Uma outra maneira
de entoar cânticos de curar é sobre um pote de mingau
cujo conteúdo será depois consumido por aqueles que
desejam os efeitos esperados. Também sobre um pote é
possível entoar cânticos maléficos, sendo o conteúdo
aplicado secretamente na pessoa que se deseja enfeitiçar.
Freqüentes também são as sessões xamânicas,
mas somente nas malocas onde vivem um dos poucos xamãs
marúbo (na década dos oitenta não passavam de três),
chamados romeyá ou "pajés". O xamã,
quando vai atuar, começa a tomar rapé e ayahuasca a
partir das sete horas da noite, junto com os homens
que constituem a assistência, todos sentados nos compridos
bancos da entrada da maloca. Por volta das onze horas
da noite, o xamã, agora numa rede pendurada junto à
porta, recebe o primeiro espírito; e assim vai recebendo
sucessivamente outros espíritos até por volta das cinco
da manhã, quando termina a atividade. Cada espírito
que o xamã recebe utiliza-se do corpo deste para falar,
conversar, dançar. Enquanto isso ocorre, a alma do xamã
visita a maloca onde vive o espírito, depois que caminhar
por um dos vários caminhos cósmicos. A sessão xamânica
não tem um fim meramente de curar doentes ou achar coisas
perdidas, como alguns espíritos se dispõem a fazer.
É um ato de comunhão com seres de caráter benevolente,
os yové, de outras camadas do cosmos, que gratifica,
apóia, ensina e até diverte os homens que estão junto
ao xamã, e as mulheres e crianças, que o escutam de
suas redes.
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