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Quem chega pela primeira vez a um lugar habitado
pelos Marúbo cometerá um engano se tentar estimar a população
pelo número de construções. Na verdade, a única construção
habitada é a casa oblonga que está no centro, no alto
da colina, coberta de palha de jarina da cumeeira ao chão.
Aí os moradores dormem, preparam alimentos, comem, recebem
visitas, entoam cânticos de cura, assistem ao xamã. A
maloca tem até um mito de origem, o do herói Vimi Peya,
que aprendeu a fazê-la depois de viver um período no fundo
das águas, com os jacarés. Apesar de cada exemplar variar
no tamanho, a maloca é sempre feita da mesma maneira,
com os mesmos encaixes e amarrações.
As construções que ficam ao redor, onde o declive se acentua, erguidas
sobre pilotis, com assoalho e paredes de casca de paxiúba,
teto de palha, servem mais como depósitos e são de propriedade
individual. Geralmente, o que se guarda nos depósitos
são itens adquiridos dos civilizados: ferramentas de
ferro, armas de fogo, panelas de alumínio, cabos de
aço para amarrar toros de madeira, tigelinhas de lata
para látex, faca de fazer incisão no tronco de seringueira,
roupas e tecidos, máquinas de costura e outros.
As roças se estendem a partir da colina onde
se ergue a maloca, para os vales e colinas vizinhas.
Notam-se várias tonalidades de verde conforme os vegetais
cultivados: nas partes altas, nas cristas que ligam
as colinas, de um e de outro lado dos caminhos, há faixas
de mandioca e mamoeiros; nas depressões, milho e bananeiras.
A maloca abriga várias famílias elementares
sob a liderança do dono da casa. Este, como qualquer
outro homem, pode estar casado também com uma ou mais
irmãs de sua esposa. Com ele pode morar o irmão de sua
esposa, filhos casados ou sobrinhos (filhos da irmã)
casados com suas filhas. Cada mulher e seus filhos ocupam
o espaço quadrado, de mais ou menos três metros de lado,
marcado por quatro pilares da casa, dois centrais e
dois laterais, onde dispõem suas redes, erguem um pequeno
jirau para guardar objetos, alguns metidos nas palhas
da parede, e mantêm um fogo de cozinha no lado desse
quadrado voltado para o centro da maloca. O homem que
tem mais de uma esposa pode estar ora no espaço de uma,
ora no de outra. O dono da casa costuma ter uma rede
em um canto junto à porta principal. Os dois compridos
bancos que fazem um corredor pelo qual deve passar quem
entre por essa porta servem de assento aos homens da
casa nas duas refeições diárias, uma antes de sair para
as atividades do dia e outra ao retornar, nas conversas
noturnas, quando tomam rapé e ayahuasca, e assistem
a sessões xamânicas. As mulheres comem no centro da
casa sentadas em esteiras sobre o chão. Junto à porta
dos fundos há no chão um tronco escavado, de uns três
metros, como um cocho, onde as mulheres trituram grãos
e frutos com ajuda de uma pedra chata retangular. Na
ausência dos homens, algumas mulheres se aproximam das
portas, as únicas entradas de luz, para furar pedacinhos
de conchas de caramujos de que fazem contas para diferentes
pendentes e colares.
Três elementos parecem marcar a maloca como
uma unidade social: cada qual tem seu "dono"
(aquele que promoveu sua construção), seu trocano (instrumento
de percussão constituído de um tronco de madeira com
uma cavidade retangular profunda) e faz seus convites
para refeições e ritos.
Entretanto, como notou o etnólogo Javier Ruedas,
malocas próximas entre si têm-se articulado, nos últimos
anos, em unidades mais amplas. E são esses conjuntos
maiores, cada qual com seu nome em português e seu líder
geral, que interagem com as agências externas, como
Funai, Fundação Nacional de Saúde, Médicos sem Fronteira,
Conselho Indígena do Vale do Javari e outras.
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