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A ALDEIA   
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A ALDEIA
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Dizem os Mehinako que sua atual aldeia, Uyapiyuku, foi planejada nos moldes de todas as aldeias anteriores, desde o tempo da Criação: deve ficar entre dois rios, o Tuatuari, a oeste, e o Kurisevo, a leste. Quando o sol nasce, seu caminho através do céu deve ser paralelo ao grande caminho que vai do porto do Kurisevo até o centro da aldeia. A casa dos homens deve dividir em dois o caminho do sol, e o banco em frente à casa dos homens deve proporcionar, a leste, uma vista livre por sobre a estrada, através da floresta. Ao passar por cima da “casa dos homens”, o sol deve seguir o grande caminho para oeste até o lugar de tomar banho, onde finalmente se põe. Assim, o plano terrestre da aldeia reflete a arquitetura do céu.

A aldeia parece ser dividida em dois por um grande diâmetro que a atravessa de leste para oeste. Esta linha é a principal estrada que leva à área de tomar banho e ao porto ao longo do Kurisevo. As casas são dispostas em torno de um grande círculo, precariamente desenhado, que rodeia a “casa dos homens”. Dentro de cada casa, o dono (a pessoa que iniciou sua construção) dorme mais perto do caminho do sol do que qualquer um dos outros residentes. O status também está firmemente associado à localização da casa, uma vez que as moradias dos chefes só são construídas junto a uma estrada principal, em um dos pontos cardeais. Já os homens comuns constroem suas casas entre as residências principais.

Na região da praça em frente à “casa dos homens”, os habitantes da aldeia tomam decisões, fazem discursos, realizam rituais e cultivam uma sociabilidade de caráter eminentemente público. Literalmente, a palavra que designa a praça, wenekutaku, significa “lugar freqüentado”. Outra sub-regiões da praça também têm nomes específicos. O “campo de luta”, kapitaku, é destinado para sessões de lutas à tarde. O “círculo dos xamãs”, yetemá, é onde todas as noites os xamãs da aldeia se encontram para fumar e discutir os acontecimentos do dia. O cemitério também está situado na praça e, no dizer dos Mehinako, é ligado ao céu por uma estrada invisível que sai da aldeia.

As atividades masculinas situam-se fora da casa, como a caça, a pesca, a sociabilidade pública e a perambulação na floresta. Assim, a casa está associada à feminilidade, em oposição à praça e ao resto da aldeia que se ligam à masculinidade.

Cada casa é, idealmente, orientada de modo que sua parte dianteira dê para o centro da aldeia. Ali, no fim da tarde e à noitinha, as mulheres sentam-se para conversar, catar piolhos umas das outras e assistir à luta dos homens.

A área da casa em frente à porta traseira é utilizada como depósito de lixo e para um grande número de atividades diárias, como preparar a mandioca na estação seca, limpar os peixes, trançar as cestas, esculpir a madeira, relacionar-se com membros da própria residência e, furtivamente, para propor relações extraconjugais.

Ao entrar pela primeira vez pela baixa porta de entrada de uma casa mehinako, o visitante é surpreendido por uma sensação de vasta e escura amplidão, já que há pouquíssimos pilares em seu interior. Como não há janelas e as portas da frente e de trás deixam entrar pouca luz, há um grande contraste entre a claridade da praça e a escuridão do interior. À noite, depois que as portas são fechadas para que não entrem os mosquitos e as bruxas – que, acredita-se, perambulam pela escuridão –, a única luz vem das pequenas fogueiras que os Mehinako acendem junto a suas redes.

O chão de casa é dividido em certo número de zonas, cada uma das quais associada a um conjunto de atividades sociais. A área em torno da porta de entrada é local para trabalhos manuais, para tomar conta das crianças e acompanhar o que ocorre na praça. Também é ali que o visitante é recebido.

Já a parte central da casa é utilizada como despensa, área de trabalho e cozinha. Uma grande prateleira, na base dos postes principais da habitação, sustenta vários e altos silos de mandioca. Nessa área, utilizando uma vasilha de cerâmica e um pilão de madeira, as mulheres preparam o peixe e o beiju.

As áreas de dormir situam-se para além dos dois principais postes de rede, que são os mais pesados na estrutura da casa. As famílias nucleares estendem suas redes perto uma das outras, compartilham um núcleo comum e até guardam os objetos pessoais em prateleiras comuns, ou suspendem-nos nas vigas por meio de cordas compridas. Mas são partes privativas da casa e apenas eventualmente um amigo é convidado a sentar na rede de outro.


01:: Aldeia Jalapapuh, onde os Mehinako habitavam na década de 80 e cuja disposição das casas é semelhante à atual aldeia, Uyapiyuku, seguindo o padrão alto-xinguano.
Foto: Thomas Gregor, 1983.

Thomas Gregor
antropólogo, diretor do Programa em Antropologia da Universidade de Vanderbill
thomas.a.gregor@vanderbilt.edu

Novembro de 2002

 
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