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HISTÓRIA DA OCUPAÇÃO NO ALTO XINGU   
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HISTÓRIA DA OCUPAÇÃO NO ALTO XINGU
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Ao recontar o seu passado, os Mehinako descrevem apenas algumas gerações de ancestrais antes de alcançar os "tempos míticos" (ekyimyatipa), quando os heróis culturais e os espíritos criavam humanos, instituições sociais e a geografia da região do Xingu.

Até onde se tem conhecimento, os Mehinako sempre viveram na bacia do Xingu, na região dos rios Tuatuari e Kurisevo. A primeira aldeia de que se tem registro é Yulutakitsi, que deve ter sido habitada há 150 anos ou mais em localidade incerta. O que faz Yulutakitsi especialmente intrigante é que o grupo estava, naquele tempo, dividido em metades, cada qual vivendo em fileiras triplas de casas, em lados opostos da praça central. De acordo com alguns habitantes da aldeia, a fronteira social era marcada por uma pequena cerca que atravessava o centro da praça, mas outros afirmavam que era o banco em frente à casa dos homens que servia de linha divisória. Como dizia Aiyuruwa, chefe mehinako: "Nós não casávamos com uma mulher no nosso lado. Casávamos no outro lado. E quando alguém do outro lado morria, não chorávamos nem nos desfazíamos de nossos cintos e de nossas pinturas. Somente eles ficavam de luto". A única remanescência possível dessa organização em metades entre os Mehinako contemporâneos é o padrão no qual as casas de chefes devem colocar-se frente a frente, orientando-se, a cada novo deslocamento da comunidade, em direção aos seus "opostos" no outro lado da aldeia.

As aldeias mehinako históricas localizavam-se ao norte da aldeia aweti atual, no rio Tuatuari. Os Mehinako voltam a essas comunidades todo ano para a coleta de pequi e para fazer sal (cloreto de potássio) com uma espécie de aguapé chamado jacinto, encontrado em lagos da região. Para os Mehinako, esses locais são o seu habitat tradicional. O abandono dessas comunidades se deu por várias razões, como o esgotamento da fertilidade da terra, a proximidade em relação a muitas colônias de saúvas, a ocorrência de muitas mortes no local e a crença de que as construções e os caminhos da comunidade haviam se tornado grandes e degradados demais, causando problemas para sua reconstrução.

Todas as aldeias antigas são descritas nostalgicamente pelos Mehinako como maiores e melhores do que a sua comunidade presente. É dito que no passado, a praça central era cercada por algumas fileiras de casas em vez de apenas uma. As pessoas estavam a salvo de epidemias de doenças do homem branco (até as gripes eram desconhecidas), o peixe era mais abundante e a fofoca menos intensa.

No momento da primeira visita do explorador alemão Karl von den Steinen, em 1884, os Mehinako tinham três aldeias separadas, embora uma delas possa ter sido apenas um sítio para estadia na estação seca (uleinejepu). É provável que a população atual de cerca de 183 habitantes seja apenas pouco mais que um quarto do que era nos dias de von den Steinen. As aldeias mehinako costumavam ter muito mais famílias e casas que no presente.

O deslocamento das aldeias mehinako de seus territórios tradicionais foi provocado pela chegada dos Ikpeng, grupo falante de uma língua karib, em meados da década de 1950, que atacaram os habitantes da aldeia com uma enxurrada de flechas. Quando o chefe mehinako foi acertado em suas costas por uma flecha ikpeng, os irmãos Villas-Bôas incentivaram os habitantes da aldeia a abandonar seu território atual para se deslocar para um lugar mais próximo do posto. Os Yawalapiti haviam feito o mesmo, na mesma época, para escapar dos Ikpeng. A um quilômetro do posto, os Yawalapiti deram aos Mehinako sua primeira casa, Jalapapuh, "o lugar das formigas saúvas". Ambos grupos mais tarde concordaram que os Mehinako poderiam pescar apenas nas áreas do rio Tuatuari que fossem próximas à sua comunidade. No caminho de Jalapapuh, os Mehinako pararam na aldeia aweti, onde dividiram o território com um aglomerado de bananeiras situado no meio do caminho entre as suas aldeias. Os Mehinako concordaram que eles não iriam explorar cana para fazer flechas nessa área sem a permissão dos Aweti. Assim, grandes áreas de floresta e várzea permaneceram algo como um território ambiguamente mehinako, aweti e yawalapiti.

O estabelecimento efetivo da comunidade em Jalapapuh foi determinado por uma mulher yawalapiti casada com um mehinako. A nova aldeia foi situada a alguns metros do rio Tuatuari em lugar próximo às primeiras roças e plantações de pequi dos Yawalapiti.

Com a mudança para Jalapapuh, os Mehinako construíram algumas aldeias novas próximas à comunidade de origem. Nos anos 1960, depois que uma série de epidemias de gripe e de sarampo mataram mais de 15 pessoas, os Mehinako se restabeleceram em um novo local a aproximadamente 183 metros de distância. Em 1981, construíram, mais uma vez, uma nova comunidade na mesma área, pois a antiga havia se tornado reduzida e pouco atraente. A proximidade do Posto Leonardo facilitava o acesso a tratamento médico e aos bens de consumo trazidos pelos irmãos Villas-Bôas, de modo que eles não tinham intenção de retornar às suas terras tradicionais mesmo que passada a ameaça dos Ikpeng.

Apesar da freqüência de deslocamentos, os Mehinako preservaram muito do que lhes é importante no modo de vida da aldeia e das suas relações com outros grupos. Como no passado, a aldeia fora direcionada ao rio Tuatuari. O sol nasce sobre o Kurisevo, passa diretamente sobre a casa dos homens no centro da comunidade, e se põe no Tuatuari. O caminho que vai de leste a oeste, do porto do Kurisevo ao Tuatuari, é ainda o "caminho do sol".

Além disso, com a mudança para Jalapapuh, as relações dos Mehinako com outros grupos se intensificaram. Os vizinhos yawalapiti passaram a casar-se mais freqüentemente com os Mehinako do que no passado, e compartilham com eles rituais importantes. O posto Leonardo Villas-Bôas, com seu constante fluxo de visitantes xinguanos, distava apenas três horas da aldeia. A aldeia atual se chama Uyapiyuku e é um pouco mais distante do Posto, mas este ainda é freqüentemente visitado pelos jovens.

Foi também criado o Posto de Vigilância (PIV) Kurisevo, cujo chefe é um Mehinako que vive no local com sua família. O posto fica cerca de 40 minutos de carro da sede de Gaúcha do Norte, município muito freqüentado pelos Mehinako para compra de bens de consumo e negociações com a prefeitura, que é responsável pelas escolas da aldeia e do PIV Kurisevo.


01:: Gaiola da harpia na aldeia dos Mehinako.
Foto: Acervo do Museu do Índio, s/d.

Thomas Gregor
antropólogo, diretor do Programa em Antropologia da Universidade de Vanderbill
thomas.a.gregor@vanderbilt.edu
Novembro de 2002

colaboração: Maria Cristina Troncarelli, do Projeto de Formação de Professores Indígenas do Parque do Xingu do ISA

 
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