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Os Mehinako são participantes assíduos
no sistema de trocas dos povos do Alto Xingu. De certo
modo semelhantes a alguns dos outros grupos alto-xinguanos,
eles dividem o mundo dos humanos em três categorias:
wajaiyu, kajaiba e putaka. De acordo
com os Mehinako, todos os povos alto-xinguanos, putaka,
têm uma só origem. Todos, dizem os Mehinako,
"comem as mesmas comidas".
Os wajaiyu são os "índios
selvagens", que vivem além das fronteiras
do mundo alto-xinguano e com os quais convivem desde
a chegada dos irmãos Villas-Bôas e a criação
do Parque. No passado, os Mehinako haviam sofrido ataques
dos Ikpeng, Suyá e outros povos wajaiyu
que haviam atacado os alto-xinguanos em busca de mulheres
e de vasos de cerâmica. Uma aldeia histórica
mehinako localiza-se em um sítio onde um Suyá
foi morto por residentes furiosos, e é por isso
chamada até hoje de lugar dos Suyá (Suyapuhi).
Os Mehinako explicam as diferenças entre
eles e os wajaiyu nos termos da mitologia. Em
tempos remotos, o Sol fez os povos do Alto Xingu, dando
a cada uma deles um lugar para viver e um modo de vida.
Os wajaiyu (apresentados, em muitos mitos, como
prole de animais) jamais obtiveram os rituais, os implementos
e a cultura dos alto-xinguanos.
Os wajaiyu são exemplos de tudo
o que pode ser errado em relação ao comportamento
humano. Recentemente, estando os Mehinako livres da
ameaça de invasões, a interação
com indivíduos considerados wajaiyu tem
cada vez mais ganhado espaço, sobretudo em partidas
de futebol, em parcerias comerciais e nas articulações
políticas entre os povos que vivem no Parque,
principalmente naquelas relativas a defesa de seu território.
Desde a criação da ATIX (Associação
Terra Indígena do Xingu), em 1995, os Mehinako
participam das grandes assembléias com todas
as demais lideranças do PIX, nas quais são
discutidas a vigilância e a defesa do território,
saúde, educação e alternativas
econômicas. Ademais, pelo fato de serem responsáveis
pela administração do PIV Kurisevo, os
Mehinako mantêm uma forte articulação
política com os povos do Baixo Xingu,
em especial com os kaiabi e Yudjá, que atuam
no projeto Fronteiras de fiscalização
e defesa do território pela ATIX.
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Já a concepção que se têm
dos Karaiba, os homens brancos, é de que
são filhos do sol como os próprios Mehinako.
Sua civilização tecnológica é
uma dádiva do sol, seus costumes especiais e
sua aparência física são perpetuados
por seguir sua cultura e, especialmente, por comer suas
comidas únicas. Um Mehinako explicou o significado
da comida na criação das diferenças
entre os xinguanos, os índios selvagens e os
homens brancos: "O sêmen de vocês é
feito do café, do leite, da sopa e do chocolate
quente; do arroz, do feijão, e da carne dos animais.
Do Guaraná também. O sêmen de vocês
é, como essas comidas, doce. E suas crianças
são grandes porque a comida de vocês é
doce. Mas a comida de vocês é diferente.
A nossa comida é sem gosto, e o nosso sangue
é diferente. Nossas crianças são
pequenas e diferentes das de vocês. É por
essa razão que as crianças dos japoneses
e os índios selvagens são diferentes de
nós. Sua comida e o sêmen de seus pais
são diferentes dos nossos".
Em relação aos brancos, os Mehinako
ainda têm dificuldade para compreender a diminuição
da atuação política da Funai, que
acarretou na diminuição de presentes oferecidos
no Posto Leonardo. De modo geral, apesar de uma experiência
geralmente positiva com os brancos, os kajaiba
permanecem profundamente incômodos para os habitantes
das aldeias. É significativo que no sistema mehinako
de interpretação dos sonhos o branco apareça
como um presságio de doenças, conhecidas
como kajaiba ipyana, ou "feitiçaria
do homem branco". Por outro lado, os Mehinako têm
buscado uma forte articulação com a prefeitura
de Gaúcha do Norte, buscando sobretudo outra
fonte de bens, como gasolina, material escolar e salários
para o professor indígena.
Outra presença marcante do universo dos
brancos no local é um missionário que
mora na aldeia e cuja esposa é da etnia Terena.
Ele leciona na escola, além do professor índio.
Embora bastante despreparado pedagogicamente, o missionário
conseguiu conquistar a confiança das lideranças
da aldeia.
Para além dos limites do Xingu, os Mehinako
têm buscado divulgar sua cultura entre os Karaija
através da publicação de um livro
com fotos e vídeo, com apoio da Rainforest do
Japão. Também participam do projeto "Rito
de Passagem", que promove apresentações
de danças e cantos indígenas nas cidades
do Rio de Janeiro e São Paulo.
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