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A presença Miranha passou a ser
mais sistematicamente observada a partir dos viajantes
naturalistas. Nos relatos desses viajantes, os tuxauas
(chefes ou "principais") Miranha ficaram conhecidos
por vender aos comerciantes de Tefé escravos de
"tribos" inimigas e também os seus próprios
filhos. Os escravos eram adquiridos para servir como mão-de-obra
às famílias de Tefé, e as mulheres,
em geral, eram transformadas em concubinas. Os Miranha
participavam, assim, das relações mercantis
da sociedade colonial, inclusive da "venda de escravos",
freqüentemente trocados por ferramentas de trabalho.
Eles, porém, mantinham seu território tradicional,
visto como "terra de ninguém" disputada
pelos Estados coloniais, como notou Martius no relato
de sua viagem de 1820 até a cachoeira de Araraquara,
no alto rio Japurá, ou Caquetá, no atual
território colombiano. Os Miranha que Martius
ali encontrou viviam no que parecia ser seu hábitat
tradicional fazia muito tempo. Aos olhos do naturalista,
as tribos próximas viviam em constante estado
de guerra, e marcavam-se com traços distintivos,
pelos quais se reconheciam, ao encontrar-se a sós
ou em bandos, em suas caçadas. Segundo Martius,
os Miranha desfiguravam o rosto furando as narinas e
nela enfiando cilindros de pau ou conchas. Como resultado
teriam como traço distintivo o alargamento das
narinas. O "trocano", grande tambor talhado
em um só tronco de madeira, era utilizado como
instrumento de comunicação à distância.
O naturalista destacou o seu costume
de comer os inimigos mortos em guerra. Mas começavam
a dar preferência a vender os prisioneiros, como
lhe revelou um chefe conhecido e temido, não
só entre os Miranha, mas em toda área,
por sua coragem de escravizar inimigos tanto dentro
de sua própria tribo quanto nas vizinhas e pela
capacidade de negociá-los com os brancos. Sua
supremacia teria sido conquistada neste comércio
com os brancos, que ele controlava em nome de todos,
e fazia valer entre os companheiros de sua tribo.
Impactos da borracha
Sobreviventes da expansão comercial,
a exploração da borracha atingiu duramente
os Miranha. Koch-Grünberg, no início do
século XX, quando visitou o Japurá e o
Apaporis, descreveu aldeias abandonadas por medo dos
colombianos, nas quais se noticiava que muitos Miranha
tinham sido mortos no seu território tradicional,
o rio Cahuinari, no divisor de águas entre o
Caquetá e o Putumayo; região disputada
então entre Colômbia e Peru. A violência
e o terror se difundiram pela Amazônia. Muitos
Miranha foram transportados pelo Japurá, para
rios como Purus, Juruá, Jutaí, para trabalhar
na extração da borracha.
O genocídio cometido pela Casa
Arana, companhia gomífera peruana cujos principais
acionistas viviam na Inglaterra, foi largamente denunciado
na imprensa da época, e documentado pela etnologia.
Foram registrados, todavia, atos de resistência
Miranha, os quais podem ser cotejados com a sua memória
social. O percurso Miranha pelo Japurá é
lembrado, em depoimentos de testemunhas indígenas
e seus descendentes, como uma fuga dos "colombianos
matadores de índios". Segundo estudos colombianos
atuais, a rede dos exploradores da mão de obra
indígena perpassava todo o campo político
colombiano, tendo sido o próprio presidente da
Colômbia, Rafael Reyes (1904-1909), acusado de
"traição à Pátria"
em um processo criminal contra caucheiros colombianos,
que com ele travavam ligações e que teriam
"arrendado" território considerado
colombiano à companhia peruana. Operações
mercantis também envolveram o Brasil, conforme
registrou-se em documentos consulares depositados no
Arquivo Histórico do Itamaraty, no Rio de Janeiro.
Pairava sobre o governo brasileiro
a acusação de que era conivente com o
"tráfico", ou transporte clandestino,
de índios Miranha para o trabalho escravo nos
seringais brasileiros. Apesar de denúncias, na
Colômbia, de participação do governo
brasileiro em negócios escusos, as relações
diplomáticas do Peru e da Colômbia com
o Brasil eram amistosas, sobretudo pelo acesso ao Atlântico
através do rio Amazonas, aberto à navegação
internacional desde 1873.
Primeiras demarcações
Em 1929, o SPI reconheceu as terras
indígenas Méria e Miratu, e demarcou a
primeira. Este ato constituía um contra-discurso
face às denúncias de que comerciantes
"traficavam" escravos Miranha, e à
demanda, por parte de colombianos, de seu "repatriamento".
Os marcos da fronteira Brasil-Colômbia foram firmados
em 1936, menos de uma década depois do reconhecimento
dos territórios Miranha. O Estado brasileiro
demonstrava reconhecer os direitos de cidadania daqueles
que haviam sido transportados para o território
brasileiro. No rio Japurá, citado freqüentemente
como passagem para negócios não regularizados,
o estado do Amazonas limitava-se a subvencionar uma
linha regular de navegação a vapor até
o porto do Jubará, que era o ponto final do comércio
legalizado.
Últimas festas
As festas do passado, que supostamente
duravam dias e noites consecutivos, foram descritas
pelos naturalistas com tintas horripilantes. Do ponto
de vista da "civilização", considerada
como grau máximo a ser conquistado, eram depreciados
os hábitos "selvagens", as "brincadeiras"
temperadas pelo gozo desmedido da sensualidade, as demonstrações
de força guerreira e de desafio por parte do
chefe e do grupo, transformado em um só corpo
pela dança, as cantigas desfilando nomes de animais
ferozes. Também foram registrados, pelos que
conheceram os "antigos", o hábito das
reuniões periódicas para discutir guerra,
caça e negócios, bem como o uso do "trocano"
e do "lambe-tabaco", uma pasta preparada com
tabaco que circulava entre os homens reunidos, que a
lambiam para selar uma aliança ou uma decisão.
Hoje, os mais velhos lembram as danças e as festas
com saudade, como um tempo em que viviam sem o medo
ou a vergonha do estigma associado a seu nome. Vêem
os antepassados como "outros", e dão
suas razões por terem atenuado os antigos costumes,
que no entanto são mantidos vivos na memória
e transmitidos dos mais velhos para os mais novos.
Como de modo geral o índio
era considerado inferior e constantemente ludibriado,
os Miranha mandavam seus filhos aprender a "língua
do branco", porque acreditavam que assim não
seriam mais enganados. Com o passar do tempo, as sucessivas
gerações foram esquecendo a língua
indígena e deixando de praticar as antigas festas.
Hoje guardam viva a lembrança dos conflitos,
mantendo com orgulho o que foi por eles conquistado.
Atualmente, o fato de serem cidadãos brasileiros
não os impede de avivar as fronteiras étnico-territoriais,
que lhes garantem o acesso à terra e o direito
a serem reconhecidos como diferentes.
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