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A FORMAÇÃO DA TERRAS MIRANHA   
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A FORMAÇÃO DA TERRAS MIRANHA

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As terras indígenas Miranha estão localizadas às margens de lagos de águas escuras, cuja vegetação, o araparizal, coberto durante as inundações, protege seus domínios da entrada de intrusos indesejados. As atuais "aldeias" Miranha consistem em conjuntos de agrupamentos residenciais à "beira" dos lagos e igarapés, que não diferem muito de outros agrupamentos vizinhos não reconhecidamente indígenas. Como estes, os Miranha vivem em palafitas, conforme costume regional.

Afirmam os Miranha do Solimões que suas terras foram formadas, desde o início, em áreas em que viviam índios de distintas "nações" indígenas. Receberam o nome de Miranha, mas ali viviam indivíduos de diferentes procedências étnicas, que fugiam do "trabalho forçado" das cidades, destacando-se, entre outros, os Issé e os Maku.

Em um segundo momento, as terras Miranha foram procuradas por fugitivos da exploração caucheira, forçados a deixar seu território tradicional na busca de melhores condições de vida. Não eram unicamente Miranha, mas também Uitoto, Carapanã e outros. Apesar disso, passaram a receber nome Miranha, tanto por ser característico da etnia historicamente preponderante, quanto por seus principais chefes assim serem denominados, entre os quais Trovão, Manoel Alfredo, Mariano e Gregório Monteiro. Gregório Monteiro era chamado de "Paisano" por ter sido retirado quando criança de seu solo tradicional e do convívio dos parentes imediatos, e criado no trabalho do caucho entre os peruanos. Deslocando-se para o Japurá, viveu inicialmente no Cuiú-Cuiú, e posteriormente no Miratu.

Na localidade Jubará, no rio Japurá, ainda existe um antigo barracão, que foi residência dos patrões e sede de uma "feitoria", no qual os intermediários Miranha negociavam. O território Miranha, a atual TI Cuiú-Cuiú, formou-se na área contígua, onde viviam estes intermediários e seus familiares, protegidos e dependentes. Nos dias de hoje, não existem relações de exploração entre os brancos do Jubará e os Miranha do Cuiú-Cuiú, pois tanto uns quanto outros dependem dos regatões que os integram à rede de exploração e mercantilização dos produtos extrativos.

Os mais velhos contam que existem varadouros, ou seja, caminhos terrestres no meio da mata, entre o Miratu e a Méria, percorridos a pé desde os primeiros tempos das formação destas terras indígenas. Os Miranha do Solimões deslocavam-se por estes varadouros para participar de reuniões, festas e disputas contra agentes externos, pela defesa e garantia de seus territórios, cujos vizinhos foram forçados a respeitar. Embora os Miranha estabelecessem relações com os comerciantes brancos, intermediadas pelos representantes do SPI e dos próprios índios.

É muito comum, todavia, entre eles a aspiração de ter uma casa nos núcleos urbanos vizinhos: Tefé, Alvarães ou Uarini. A tendência à urbanização dos índios, porém, não resulta necessariamente na ruptura com os territórios indígenas. Apesar da casa na cidade, continuam a fazer roças na terra indígena e desenvolvem relações de troca com os parentes e afins que lá vivem, hospedando as crianças que atingem o segundo grau e precisam estudar na cidade. Em Tefé, encontram-se facilmente indivíduos que se reconhecem como Miranha com parentes no Miratu, Méria, e outras comunidades não reconhecidamente indígenas, como a "comunidade" Perseverança.

Os Miranha que moram nas cidades freqüentemente se referem a Miratu e Méria como "minha aldeia", pois comerciam com os Miranha que ali habitam, e "minha propriedade", alegando direitos sobre roças e capoeiras que dizem ainda possuir naquelas áreas. Dizem também que têm plantações em outras áreas rurais próximas a Tefé, o que gera conflitos quando aparecem outros que também se dizem "donos". Na mesma rede de relações, indivíduos que se reconhecem como aparentados dos Miranha afirmam ser descendentes de Maku, Uitoto e Mura, dizendo que preferiram a vida na cidade a enfrentar os conflitos e o trabalho penoso na lavoura.

01:: foto: Priscila Faulhaber, 1982

Priscila Faulhaber
priscila@museu-goeldi.br
Museu Paraense Emílio Goeldi

Junho de 1999

 
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