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O Rio Negro é o maior rio de águas pretas
do mundo. Os especialistas caracterizam estas águas
como extremamente ácidas e pobres em nutrientes.
As terras que drenam são de solos muito empobrecidos
e lixiviados. Esta pobreza em nutrientes dos rios influi
na vida dos peixes, que, para se sustentar, obtêm
a maior parte de sua alimentação de matéria
orgânica oriunda principalmente das margens dos
rios (vários tipos de insetos, frutas, flores,
folhas e sementes). O contrário acontece nos rios
de águas brancas, que são ricos em nutrientes,
como é o caso do Amazonas e do Solimões.
Estas condições do ambiente fluvial também
influenciam na composição das espécies
de peixes. Apesar de algumas de grande porte, como o pirarucu,
os rios da bacia do Rio Negro se caracterizam por um grande
número de espécies menores, cada qual com
um pequeno número de indivíduos.
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A bacia do Rio Negro apresenta certa variedade
de tipos de vegetação. Os principais tipos
são: floresta de terra firme, que ocupa
terras mais altas e não inundáveis; campina,
campinarana ou caatinga amazônica, tipo de floresta
baixa, arbustiva, variando entre seis e vinte metros,
que cresce em solos com muita areia branca, inundável
quando ocorrem as chuvas mais fortes, sendo, na sua forma
mais pobre, constituída de arbustos mais baixos
(três a sete metros) e esparsos, intercalados com
vegetação rasteira; vegetação
de igapó, que passa a maior parte do tempo
inundada (de 7 a 10 meses por ano), possui um número
menor de espécies, se comparada com a mata de terra
firme, porém mais diversificada que a caatinga;
e chavascal, área de vegetação localizada
nas margens dos rios e que permanece inundada durante
todo o tempo.
Essa diversidade de paisagens naturais no Alto
Rio Negro tem uma relação direta com a
distribuição e disponibilidade dos recursos
naturais importantes para a vida das populações
da região (caça, pesca, fibras e palhas
para construção e utensílios, terras
férteis para a agricultura e assim por diante).
As áreas de caatinga amazônica, de igapós,
além dos chavascais, são totalmente impróprias
para as atividades agrícolas. Assim, por exemplo,
a mandioca brava (maniva), planta perfeitamente adaptada
às características e limitações
ecológicas da região, não se sustenta
em terreno alagado. Por essa razão, os roçados
são sempre abertos em terra firme.
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A grande variedade de tipos no cultivo da mandioca
entre essas populações é particularmente
notável, configurando a região como um
polo de alta agro-biodiversidade. Nas roças indígenas
do Alto Rio Negro, tons de folhagem e diferentes estágios
de crescimento dos pés revelam um sistema complexo,
no qual o elemento central de manejo está voltado
para a manutenção da diversidade como
um valor em si, já que não existe uma
relação direta entre o uso de uma certa
variedade de mandioca e um determinado produto (farinha,
beiju, mingau, caxiri, condimentos etc.), enquadrando-se
assim numa lógica oposta à agricultura
moderna, que privilegia a homogeneidade e a produtividade
do cultivo.
A conservação de uma tal diversidade
é concebida como um bem coletivo inserido num
referencial cultural comum que se expressa, por exemplo,
através dos mitos de origem da agricultura ou
das plantas cultivadas. Ademais, tem um valor patrimonial
e sua circulação responde a regras coletivas.
Os igapós, onde os peixes desovam, são
áreas de reconhecida produtividade pesqueira,
sendo preservados para este fim pelos índios.
Áreas de igapós são também
ricas em cipós e seringa. Já as áreas
de caatinga são fontes de palhas, caranã,
sororoca etc., matérias-primas para a cobertura
de suas casas. As capoeiras são o habitat privilegiado
de pequenos animais apreciados pelos índios (cutias,
acutivaras), sendo também ricas em plantas medicinais.
Quando estão com vinte ou trinta anos, as capoeiras,
muitas vezes, são reutilizadas pelos índios
para seus roçados. Exigem menor esforço
para serem derrubadas e secam com poucos dias de sol,
possibilitando sua queima mais rapidamente. As áreas
de capoeira também são valorizadas porque
existem espécies cultivadas que continuam a dar
frutos por muitos anos, como a pupunha, buriti, caju,
cucura e outras.
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As estratégias empregadas pelas populações
indígenas, desenvolvidas ao longo dos séculos
de ocupação e experiência nesta região,
têm lhes possibilitado lidar com a pobreza geral
de seu ecossistema, sem degradá-lo e empobrecê-lo,
assegurando o equilíbrio ecológico no Alto
Rio Negro. Dentre essas práticas de manejo cuidadoso
e racional dos recursos naturais, destaca-se algumas:
A exploração econômica de
faixas ecológicas diferenciadas impulsiona as
relações de trocas econômicas e
rituais entre as várias populações
indígenas;
A ênfase na agricultura da mandioca brava
através do sistema de coivara, que consiste na
derrubada de uma área de floresta primária
ou capoeira alta, que então é deixada
para secar e depois queimada. As roças plantadas
nestas clareiras, produtivas durante dois a três
anos, são gradualmente abandonadas, embora ainda
visitadas para a coleta de frutos de ciclo mais longo.
Cada família possui, no mínimo, três
roças em diferentes estágios de seu desenvolvimento,
além de continuarem a explorar suas capoeiras;
Os roçados em geral são abertos
em áreas de terra firme, longe das margens dos
rios, de modo a preservar as principais fontes alimentícias
de origem pesqueira;
A alta especialização das técnicas
de pesca (armadilhas fixas como paris, matapis ou cacuris)
e o conhecimento profundo das estações
através de um elaborado calendário astronômico
permitem acompanhar e aproveitar o regime de cheias
e vazantes dos rios e os ciclos migratórios,
reprodutivos e alimentícios dos peixes;
Os mecanismos de circulação e de
redistribuição dos recursos naturais entre
as fratrias, através do sistema de alianças
matrimoniais baseado na exogamia dos grupos falantes
de uma mesma língua, bem como os rituais formalizados
de troca de comida e outros bens (dabucuris), que possibilitam
o acesso dos indivíduos a recursos naturais não
disponíveis num dado território, promovem
a exploração econômica racional
em nível regional.
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