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A construção de malocas
é um costume compartilhado entre as diferentes
sociedades indígenas do Alto e Médio
Rio Negro. Durante muitos anos essas construções
foram alvo de ataques por parte dos missionários,
resultando em seu abandono pela maioria das comunidades
situadas no lado brasileiro da região.
Atualmente vêm sendo recuperadas em alguns
locais, como no Alto Tiquié e no Alto Uaupés,
no âmbito de um processo de recuperação
de tradições e como marca da identidade
pelo movimento indígena, como é
o caso da maloca na sede da Foirn (Federação
das Organizações Indígenas
do Rio Negro), em São Gabriel.
Tradicionalmente, a maloca é dividida
em diversos compartimentos laterais, cada qual
habitado por uma família nuclear. A regra
geral é que o chefe do grupo local more
no compartimento mais próximo à
parede dos fundos da casa, do lado esquerdo de
quem entra, e seus irmãos mais novos, à
medida que vão casando, ocupem os compartimentos
contíguos, a partir dos fundos para a frente
da casa. Os homens solteiros, já iniciados,
devem deixar o compartimento de seus pais e atar
suas redes do meio da casa para a frente. Por
último, os agregados que aí estejam
morando em caráter provisório ou
excepcional e os visitantes devem permanecer na
parte da frente da casa.
Durante as festas e sobretudo nas cerimônias
mais formais, que contam com as danças
dos homens adultos, o espaço é rearranjado,
passando a ser o centro da maloca a área
mais importante, onde a dança tem lugar.
O missionário salesiano Alcionilio
Brüzzi fez uma descrição detalhada
da maloca de São Pedro, no Rio Tiquié,
que encontrou em 1947, mas que pode ser generalizada
para as malocas que antes existiam em grande número
na região:
"Era construída conforme os antigos
costumes. Era retangular, medindo 27,60 metros
de comprimento por 18 de largura. A cobertura
era de duas águas, com declive bem pronunciado,
para o rápido escoamento. Media internamente
7,30 metros de altura até a cumeeira, terminando
a 90 cm do chão, de sorte que as paredes
laterais mediando apenas 1, 52 de altura. O telhado
de canará prolongava-se um pouco mais,
na parte correspondente às portas, a fim
de defendê-las das chuvas. As paredes principais
obedeciam ao estilo clássico, isto é,
eram de casca de árvore até 2,5
metros de altura, e depois de trançado
de açaí. As paredes laterais eram
de pehé.
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Estava construída solidamente sobre cinco
pares de esteios [os três centrais e os outros
dois que sustentavam as paredes da frente e dos fundos
da maloca], que delimitavam a nave central. Eram paus
roliços, retilíneos, rústicos (sem
descascar), porém bastante regulares e proporcionais,
como o eram também as vigas e caibros.
Todo o madeirame era solidamente travado com
cipó. Internamente, os esteios, todos eles bem
alinhados, dividiam o espaço em cinco naves [no
sentido da largura]. As três centrais para uso
comum: passagem, reuniões, danças, visitas
e trabalho. Aí ficavam, mais para o fundo, os
utensílios de uso comum, como sejam os grandes
vasos de barro cozido e os cochos de madeira para a
fermentação dos caxiris, e o forno para
o fabrico da farinha. É aqui que se desenvolvem
as danças por ocasião das festas. As duas
naves mais externas, que correspondem à parte
baixa do telhado, ao longo do beiral, eram destinadas
à residência das famílias: cada
nave tinha quatro divisões.
Na do tuxaua, casualmente, a separação
era um pouco melhor; não bastando porém,
para tolher a visão do interno. Em algumas malocas
nenhuma separação existe absolutamente.
Pode-se, pois, dizer que são divisões
imaginárias, correspondentes às traves
e esteios da maloca" (1962:175-7).
Atualmente, a maioria dos índios que ocupam
as margens dos rios principais se organizam em "comunidades",
nome dado há décadas pelos missionários
católicos - e adotado também pelos protestantes
- aos povoados que vieram a substituir as malocas comunais.
A comunidade se compõe, geralmente, de um conjunto
de casas construídas em um amplo pátio aberto,
com paredes de casca de árvore, pau-a-pique ou
tábuas e cobertura de palha ou folha de zinco,
podendo também contar com uma capela (católica
ou protestante), uma escolinha e, eventualmente, um posto
de saúde. Cada comunidade possui um capitão,
sempre um homem, que tem o papel de reunir o grupo, "animando-o"
para trabalhos comunitários e também respondendo
às demandas gerais ligadas a tais tarefas. Não
se trata, porém, de um chefe ou comandante todo-poderoso
que dá ordens e aplica punições.
Na maioria dos casos, ele apenas orienta, sem impor sua
posição. Constitui-se, também, num
interlocutor preferencial com os brancos. |