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O território tradicional dos Paumari,
segundo fontes históricas, incluiu margens de
rios, lagos e os próprios rios: no médio
Purus até a boca do Rio Jacaré, na boca
do Rio Tapauá e no Rio Ituxi.
Segundo autores como Rivet & Tastevin e
Métraux, eles são descendentes de uma
subdivisão dos antigos Purupuru, hoje desaparecidos,
que habitavam, no século XVIII, a região
da boca do Purus até a foz do Ituxi. Os últimos
remanescentes dos Purupuru são mencionados em
meados do século XIX entre o lago Jary (Panará-Mirim
do Jary) e o rio Paraná-Pixuna, afluente direito
do baixo Purus, e na boca do Ituxi. Outra subdivisão
antiga dos Purupuru, os Juberi (Jubirí, Yuberí),
foi localizada no baixo Tapauá, nas margens do
lago Abonini e nas margens do médio Purus antes
da boca do Mamoriá-Açu.
Os Paumari encontram-se em contato com os brancos
há pelo menos dois séculos. Eles são
mencionados em fontes históricas pela primeira
vez em 1845. Naquela época, vários grupos
já foram explorados na extração
de "drogas do sertão" pelo comerciante
Manoel Urbano da Encarnação, que controlava
o médio Purus.
Em 1847, o naturalista francês Castelnau
observou vários grupos paumari do Rio "Oiday"
até o Rio Sepatini. Segundo este autor, eles
viviam principalmente nas praias e não se dedicavam
à agricultura. As habitações principais
eram grupos de jangadas, com uma jangada por "família",
e a comunicação entre elas era realizada
por meio de pirogas. Também havia casas em terra
firme. Os Paumari não usavam roupas, mas apenas
pintura corporal.
Em 1862, o naturalista alemão Gustav
Wallis notou a primeira "maloca" dos Paumari
na foz do Rio Jacaré. No Rio Arimã, ele
observou 600 Paumari e Juberi, reunidos por Manoel Urbano
da Encarnação, fazendo um grande roçado
e levantando uma capela, no lugar onde o Frei Pedro
da Ceriana tencionara formar a missão.
As primeiras descrições científicas
mais detalhadas dos Paumari são do viajante inglês
Chandless, que os retrata como pacíficos e alegres,
dedicando muito tempo aos cantos. Também os caracteriza
como povo aquático, dando-se pouco à agricultura
e plantando somente mandioca, macaxeira e banana, mas
não produzindo farinha de mandioca, embora gostassem
dela e procurassem obtê-la dos comerciantes. Eram
bons pescadores e atiradores de flecha, com a qual matavam
peixes e tartarugas, mas maus caçadores. A alimentação
baseava-se em peixes e quelônios. Numa ocasião,
Chandless observou mais de 60 canoas flutuando rio abaixo,
à caça de tartarugas, indo em cada uma
delas uma mulher remando e um homem de pé, na
proa, à espreita do aparecimento de quelônios.
Segundo o mesmo autor, os Paumari viviam a maior
parte da estação seca em bancos de areia,
construindo "choupanas" de talos de palmeira,
quando se demoravam por muito tempo, ou ranchos simples
de folhas de palmeira, em forma semicilíndrica.
Na época da enchente, no entanto, retiravam-se
para os lagos, fazendo suas "choupanas" sobre
jangadas ancoradas no meio dos lagos para evitar os
insetos.
A própria cidade de Lábrea foi
fundada em território Paumari. Estes foram explorados
pelo "coronel" Labre, fundador do lugar, como
produtores de borracha e fornecedores de peixes, tartarugas
e ovos de quelônios. Na época do primeiro
ciclo da borracha, as cidades na Amazônia foram
iluminadas por lampiões que funcionavam com manteiga
e óleo feitos de ovos de quelônios, o que
explica o interesse no trabalho dos Paumari como fornecedores
desse produto.
Depois das viagens do etnólogo americano
Steere na região, entre 1873 e 1901, este descreveu
os Paumari como reduzidos por epidemias a umas poucas
centenas de indivíduos, levando uma vida nômade
ao longo do Purus e vagando de seringal para seringal.
E, finalmente, temos os textos do etnólogo alemão
Ehrenreich, que localizou grupos nos seringais do Coronel
Luiz Gomes, descrevendo-os como maltrapilhos e entregues
ao alcoolismo.
No final do século XIX, os Paumari tinham
perdido grande parte de seus territórios tradicionais
de pesca e caça aos quelônios, porque as
praias fluviais foram controladas e exploradas pelos
donos dos seringais. Eles perambularam em pequenos grupos
e passaram a ser considerados como os índios
mais "vadios" da região. A palavra
"Paumari" tornou-se naquela época um
sinônimo de malandro e preguiçoso.
A despeito destes estereótipos negativos,
não se sabe nada de expedições
armadas contra os Paumari. Pelo contrário, parece
que eles foram integrados no sistema de patronagem sem
oferecer maiores resistências ostensivas. Sua
mobilidade e sua inconsistência no trabalho talvez
fossem suas manifestações específicas
de resistência pacífica e sem confrontos.
Se já não se sabe muito sobre
a etno-história Paumari do século XIX,
as informações sobre ela tornam-se ainda
mais raras no século XX. As relações
interétnicas com a sociedade envolvente estão
marcadas pelos estereótipos citados, que foram
mantidos até hoje, e por dependências materiais
e assistenciais dos "brancos", os quais são
chamados jara. Os estereótipos negativos de serem
preguiçosos e inconstantes com relação
ao trabalho dificultam as relações econômicas
e empregatícias, em particular no meio urbano.
As relações com outros povos indígenas
geralmente são pacíficas, embora se possa
observar tensões sérias nas relações
com os Apurinã em questões de territorialidade,
nos casos em que comunidades Paumari e Apurinã
são vizinhas nas mesmas terras. Informantes Paumari
nas aldeias Santa Rita e Crispinho, na terra Paumari
do Lago Marahã, nos falaram que antigamente os
Paumari tinham medo dos ataques dos Apurinã e
sempre estavam prontos para pular na água e se
esconder atrás das jangadas.
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