| Em meados
do século XIX, uma parte dos Tenetehara dos rios
Pindaré e Caru, no Maranhão, rumaram na
direção do Pará, para os rios Gurupi,
Guamá e Capim, dando origem aos hoje conhecidos
como Tembé (deixando no Maranhão os Guajajara).
Nesses rios, ficaram sob o novo regime indigenista que
acabara de ser criado, em 1845, em que cada província
tinha um diretor geral (não havia um órgão
indigenista encarregado de todos os índios do Império),
sob cuja jurisdição ficavam os diretores
de aldeia. Engajaram-se então na extração
do óleo de copaíba, que era negociado com
os regatões (comerciantes que percorrem os rios
de barco) conforme o sistema de aviamento, isto é,
de adiantamento de mercadorias a serem pagas com produtos
florestais. Os regatões também se valiam
dos índios para a busca de ouro, borracha, madeira
de lei e como remeiros. Na extração do óleo
de copaíba, a unidade de produção
era a família extensa. A extração
se fazia na mata, acima do nível anual de inundação,
em árvores que eram poucas e dispersas, que não
podiam ser sangradas na estação seguinte,
o que provocava uma constante necessidade de deslocamento
das famílias extensas para novas áreas ainda
não exploradas. As aldeias Tembé, conseqüentemente,
ou eram pequenas com localização mais ou
menos permanente, ou temporariamente grandes com forte
tendência à cisão.
Os abusos e extorsões dos regatões provocaram
um conflito em 1861, no alto Gurupi, em que sete Tembé
mataram nove regionais. O policial encarregado de apurar
os fatos espancou os índios e lhes tomou nove crianças,
remetidas a Vizeu. Os índios fugiram e abandonaram
sua aldeia. O governo provincial retirou os regatões
da área e reuniu os moradores dispersos da aldeia
de Trocateua na nova aldeia de Santa Leopoldina. Em 1862,
só no alto Gurupi, havia 16 aldeamentos e, no último
decênio do século XIX, havia notícia
de numerosos grupos Tembé não contatados.
A assistência aos Tembé
do Gurupi por parte do SPI parece ter sido conseqüência
da atividade de atração dos Ka'apor. Entre
1911 e 1929 o SPI criou três postos de atração.
Em 1911, instalou o posto Felipe Camarão, junto
à foz do Jararaca, afluente da margem direita
do Gurupi. Parte dos Tembé do alto curso deste
rio desceram para viver junto ao posto e trabalhar como
intermediários na atração dos Ka'apor.
Por falta de recursos, a atividade do posto cessou em
1915, embora ele só tenha sido extinto em 1950.
Entre 1927 e 1929, o SPI criou mais dois postos. O Posto
Pedro Dantas foi instalado na ilha Canindé-Açu,
próxima ao local onde os Ka'apor costumavam atravessar
o Gurupi; e o Posto General Rondon, no rio Maracassumé.
Este último foi fechado em 1940, enquanto o Pedro
Dantas, onde finalmente foram contatados os Ka'apor
em 1928, tornou-se o atual PI Canindé. Com a
instalação dos postos do SPI, os Tembé
foram paulatinamente abandonando as cabeceiras do Gurupi
e se instalando no curso médio do mesmo rio.
Serviram ao SPI como guias, remeiros, trabalhadores
nas roças e na fabricação de farinha.
Mas o SPI também favoreceu na década de
50 a entrada de regionais para trabalhar nas roças
do posto. A falta de cidades próximas e a dificuldade
de escoamento da produção agrícola
levaram o SPI a estimular o comércio dos índios
com os regatões, aos quais forneciam couros de
onça, enormes quantidades de jabutis, de aves
e resinas diversas.
Na década de 70, já
no tempo da Funai, boa parte dos homens Tembé
do Gurupi em idade adulta foram levados a trabalhar
na Transamazônica, em frentes de atração
de outros grupos Tupi, como os Parakanã e os
Asurini do médio Xingu, desfalcando as aldeias
de elementos masculinos, provocando escassez de alimentos
com base na carne e no peixe e um esvaziamento das práticas
rituais. Em 1971, a Funai ordenou a transferência
dos Tembé do Gurupi para o rio Guamá,
mas eles se recusaram a migrar.
Quanto aos Tembé do rio Guamá,
eles permaneceram sob a exploração dos
regatões, dedicando-se sobretudo ao corte de
madeiras. Em 1945, quando já mantinham intensos
contatos com os civilizados, o SPI instalou o primeiro
e único posto na região. O posto operou
num regime de produção para venda e para
o próprio consumo, engajando os índios
nos serviços de lavoura, e também na abertura
de uma estrada, nunca concluída, que deveria
ligar o Guamá ao Gurupi. Uma cantina fornecia
gêneros alimentícios, roupas e ferramentas
aos índios, descontando-lhes as despesas na folha
de pagamentos. Por volta de 1960, um chefe de posto,
para aumentar a produção, facilitou a
entrada de colonos oriundos de uma frente camponesa
que alcançava a região, o que trouxe uma
intensificação dos casamentos interétnicos
e do uso da língua portuguesa. Esse regime durou
até a extinção do SPI em 1967.
Paralelamente às tarefas promovidas pelo posto,
os índios extraíam e comercializavam madeira
por conta própria, descendo com jangadas de toras
até Ourém. Por outro lado, a presença
de caçadores de peles, madeireiros e criação
de gado fez decair a caça e a pesca.
Em 1970, o posto já não
mantinha nenhum dos antigos projetos e estava abandonado,
o que levou os Tembé a voltarem a plantar suas
próprias roças numa área bastante
desmatada. A Terra Indígena foi invadida por empresários,
fazendeiros e posseiros. Houve várias negociações
para retirada dos invasores, mas todas frustradas. Em
1978, a Funai propôs o loteamento de parte da Terra
Indígena para os posseiros. Auxiliados pelo Conselho
Indigenista Missionário (CIMI), da Igreja Católica,
os Tembé do rio Guamá fizeram uma reunião
com os do Gurupi em 1983, quando fizeram um abaixo-assinado
contra a redução da Terra Indígena.
Simultaneamente, foram convidados pela Funai a mudarem-se
para o Gurupi. Alguns migraram, mas parte deles retornou
depois de serem atacados pela malária e o sarampo. |