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O padrão de localização das aldeias
(oneó) Guaná ou Chané se
alterou ao longo dos anos em função da
limitação territorial imposta a estes
grupos após a guerra com o Paraguai. Antes da
guerra, quando a disponibilidade de terras era ainda
grande, a distribuição das aldeias Guaná
não diferia muito do padrão, digamos "clássico",
descrito por Sanches Labrador (El Paraguai Catolico:
275-276). Esse padrão combinava – como
já indicavam os primeiros cronistas, ainda no
século XVII, para os Guaná do Chaco meridional
– uma agricultura bem desenvolvida com a caça,
a pesca e, já no Brasil, a criação
de gado vacum e cavalar – com os quais aprenderam
a lidar no longo período de convivência
que mantiveram com os Mbayá-Guaicuru.
Este modo de ocupação – com a fixação
da aldeia em um ponto privilegiado do território
– exigia uma área de extensão considerável,
posto que as roças (cawané), pertecentes
a um mesmo grupo de parentesco (liderado por um "capitão"
ou chefe da família extensa), iam se distribuindo
em matas de "galeria" contíguas, ao
longo dos anos.
Historicamente, aldeias Guaná possuíam,
em média, de 30 a 40 casas (ovocuti) e,
segundo Sanches Labrador, cada casa media "de 16
a 20 jardas de comprimento por 8 de largura" e
na qual viviam um "capitão... junto com
seus irmãos e seus parentes...[e] cada casa tem
cinco portas". Se considerarmos que casas nestas
dimensões (15 x 7 metros no mínimo!) abrigariam
entre 20-30 pessoas (cinco grupos domésticos,
delimitados pelas suas "portas"), então
podemos estimar a população das aldeias
no Eêxiva em cerca de 600 a 1.200 pessoas –
cifras que, como vimos no tópico anterior, se
manteriam no Brasil até a primeira metade do
século XIX.
Os grupos domésticos (compostos por marido,
mulher, filhos, genros e, eventualmente, cativos de
outros grupos indígenas, os chamados cauti)
de cada casa possuíam áreas contíguas
de roças. Nenhum dos cronistas, do Chaco ou do
Brasil, menciona as dimensões das roças
Terena antes da guerra do Paraguai. Porém, os
Terena atuais afirmam que as roças "de toco"
de seus avós possuíam, em média,
seis "tarefas" (uma "tarefa" é
igual a 30 "braças" quadradas ou cerca
de 3.600 m²) por grupo doméstico (ou seja,
cerca de 2,16 ha). Esta cifra é perfeitamente
compatível com os instrumentos então utilizados
pelos Guaná para suas lides agrícolas
– equipmentos bem mais desenvolvidos do que, por
exemplo, aqueles utilizados pelos Guarani, seus vizinhos
meridionais e também dependentes da agricultura.
A escolha do local para o estabelecimento das aldeias
Guaná deveria levar em conta a disponibilidade
de matas que denunciavam solos propícios para
a formação das roças e áreas
de caça, coleta e pesca (lagoas ou rios de porte),
necessários para o período de seca (e
de entressafa dos produtos cultivados). Ao lado disso,
o território desse grupo deve possuir área
necessária para a criação de bois
e cavalos em regime extensivo.
Dados estes critérios – e limitações
impostas pelas condições ecológicas
do planalto pré-pantaneiro brasileiro –,
a única região propícia ao estabelecimento
das aldeias Guaná seria aquela do interflúvio
Miranda-Aquidauana-Taquari. Ademais, barreiras e limites
sociais impuseram a fixação da maioria
dos grupos Guaná naquela região. Ao sul
(nas cabeceiras do Miranda e serra de Maracajú)
e a leste (os chamados “campos de Vacaria”,
além Aquidauana), os limites para expansão
dos Guaná seriam dados, de um lado, pelos índios
“Coroados” (Ofayé-Xavante) e, de
outro lado, pelos Kaiowá-Guarani (interflúvio
Brilhante-Dourados-Apa). Ao norte, a barreira era dada
pelo Pantanal e os índios Guató, inimigos
históricos dos Guaná – como mencionam
vários cronistas (por exemplo, Castelnau, 1949)
e estudiosos clássicos (como Metraux,1946).
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