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ASPECTOS CONTEMPORÂNEOS   
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ASPECTOS CONTEMPORÂNEOS

Como vimos, a changa funciona como uma forma de trabalho temporário que, ao mesmo tempo em que explora a mão-de-obra indígena, se reveste de uma válvula de escape fundamental para a pressão social advinda da superpopulação nas reservassobretudo para a imensa maioria dos jovens que desistiu da escolarização completa, seja no mundo dos brancos (o 2º grau nas escolas dos purutuyé) ou nas aldeias (onde têm a chance de completar o 1º grau). Estes jovens – que integram 90% dos trabalhadores das "turmas" – se encontram em um momento crítico: já fora da escola (por isso changueam), perderam a chance de escapar "para o mundo dos brancos" e competir num mercado de trabalho em condições de extrema inferioridade (só uns poucos privilegiados o conseguem); nas "reservas", hesitam entre casar – e assumir o futuro ali, na roça e no trabalho externo eventual – ou tentar a sorte no subemprego das cidades, usando (quando existente) a rede de solidariedade da parentela ali já estabelecida.

Em três reservas (Cachoeirinha, Taunay-Ipegue e Buriti), os Terena situados na faixa etária 0-24 anos ultrapassam os 65% da população total. Os conflitos geracionais (entre jovens e a autoridade dos mais velhos) e entre os jovens são cada vez mais violentos, sobretudo em Cachoeirinha e Taunay-Ipegue, onde as possibilidades da utilização da changa como válvula de escape estão se tornando cada vez menores. Na reserva do Buriti, dada a proximidade física de uma usina de álcool e da Ceval Alimentos, aqueles problemas ainda não se manifestaram na mesma intensidade. Examinando os últimos contratos de trabalho com as usinas em Cachoeirinha, por exemplo, este número tem diminuído ano após ano, desde 1993.

Este quadro tende a agravar-se no curto prazo em vista das mudanças nos métodos de colheita da cana-de-açúcar que as usinas da região deverão implementar nos próximos anos (algumas já estão praticando o novo método) - e que dispensam a mão-de-obra no corte (este novo método, já bastante alastrado no interior de São Paulo, introduz uma colheitadeira no corte e plantio direto, evitando a queima do canavial). O que implicará na dispensa maciça da mão-de-obra indígena (Terena e Guarani), responsável em anos anteriores por 100% dos empregados no corte da cana em todas as usinas da região.

Os governos federal e estadual terão que se defrontar com o destino de uma massa de trabalhadores temporários indígenas cujo número ultrapassa os 20 mil, considerando a população trabalhadora Terena e Guarani. Se entre estes últimos o suicídio dos jovens é o sintoma de uma situação sócio-cultural explosiva, entre os Terena o sintoma será a violência entre gangues de jovens dentro das Reservas, prenunciando um estado que, sem qualquer exagero, poderá ser descrito como de, no mínimo, "convulsão interna" e, no limite, de verdadeira "guerra civil". Os números de conflitos entres jovens nos últimos anos, em Cachoeirinha, já apontam para isso.

As Reservas atuais, dada suas óbvias e extremas limitações territoriais, também colocam sérios obstáculos para a absorção econômica dos jovens Terena: como 95% dos pais são agricultores, o destino natural seria a lavoura na área do grupo doméstico a que pertence. Contudo, dadas as condições técnicas das lavouras Terena, a absorção de um novo membro não incrementa a área plantada; logo, a alternativa seria a abertura de uma nova área de lavoura em reservas de matas – o que sempre acaba em uma negociação política tensa com o Conselho da aldeia e que em geral proíbe novas aberturas, devido ao risco de ficarem sem matas, necessárias para reserva de lenha, material para artesanato e fonte de remédios. E também não há qualquer incentivo, por parte dos órgãos de governo, visando a diversificação das atividades dentro das reservas que poderiam absorver os jovens recém-saídos das escolas.

Apesar deste quadro, a vocação de agricultores ainda está presente nas reservas – e o balanço entre esta prática e o trabalho feminino traduz-se no equilíbrio ecológico da paisagem, observado na análise das imagens-satélite. As amplas áreas de vegetação ainda preservadas nas três áreas indígenas aqui tratadas – apesar da pressão interna por novas áreas de cultivo – refletem a necessidade de manter-se as fontes básicas do trabalho das mulheres Terena: a cerâmica, a cozinha e o extrativismo vegetal. Mas aqui aparece outra limitação: o mercado para o artesanato, também não incentivado por quaisquer governos. O resultado desta limitação é o crescente número de jovens mulheres Terena empregadas no serviço doméstico em centros urbanos regionais – de onde é comum voltarem grávidas dos filhos (ou mesmo maridos) de suas "patroas".

Por outro lado, os Terena que vivem exclusivamente da lavoura (82% na faixa etária 24-60 anos em Cachoeirinha; 78% em Buriti e 54% em Taunay-Ipegue) não conseguem auferir dela a renda necessária para manter, durante todo o ano, seu grupo familiar. A média de membros deste grupo é de sete pessoas, segundo o levantamento efetuado; as áreas cultivadas por grupo não ultrapassam um hectare (não é maior devido às limitações para compra de óleo e remuneração do tratorista), com uma produtividade média de 25 sacos de feijão, 12 de milho, 120 kg de mandioca e (mais raramente) de 15 sacos de arroz. Como afirmou um líder Terena de Cachoeirinha, os Terena ainda plantam porque isto "está no sangue, mas não dá para viver...". Por sorte, em geral existe um aposentado por família.

Deste quadro resulta a necessária procura pelo trabalho externo, e também a valorização interna, crescente, do trabalho feminino, seja como doméstica nos centros urbanos, seja na produção da cerâmica e no extrativismo do palmito de bacuri. Com isso aparece sua contrapartida perversa, que é a imensa oferta de mão-de-obra e o conseqüente aviltamento de sua remuneração.


Maria Elisa Ladeira
elisaladeira@uol.com.br

Gilberto Azanha
gazanha@uol.com.br

Antropólogos, membros do CTI (Centro de Trabalho Indigenista)

Novembro 2004

 
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