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Últimos remanescentes da nação
Guaná no Brasil, os Terena falam uma língua
Aruak e possuem características culturais essencialmente
chaquenhas (de povos provenientes da região do
Chaco). O domínio dos grupos de língua
Aruak entre os diversos povos indígenas do Chaco,
todos caçadores e coletores, deveu-se ao fato
daqueles grupos serem, de longa data, predominantemente
agricultores – e sobre esta base econômica
se organizarem socialmente em grupos locais (aldeias)
mais populosos, expansionistas e guerreiros.
Os estudiosos dos povos chaquenhos afirmam que os Chané
ou Guaná dispunham de uma base social muito mais
sofisticada do que seus vizinhos Mbayá. Estavam
estratificados em camadas hierárquicas: os "nobres"
ou "capitães" (os Naati ou "os
que mandam") e a "plebe" ou "soldados"
(Wahêrê-xané, ou "os
que obedecem"). As relações de aliança
Guaná-Mbayá estavam alicerçadas
no casamento: os chefes Guaná cediam mulheres
da sua casta para casar-se com os "maiorais"
Mbayá. As relações entre os dois
grupos, por essa via, consolidariam ao longo do tempo
uma estrutura social complexa: de um lado, um segmento
social autônomo na posição de fornecedor
de mulheres e alimentos; de outro, uma casta guerreira
tomadora de mulheres e responsável pela segurança
dos grupos locais e supridores de instrumentos de ferro
e cavalos.
Na década de 1760, a pressão crescente
dos espanhóis sobre os territórios Mbayá
localizados nas margens ocidentais do Paraguai, somada
a disputas internas por prestígio guerreiro,
forçariam a migração de inúmeros
subgrupos Mbayá e Guaná para o lado oriental
do rio. Essa migração provavelmente se
estendeu até as primeiras décadas do século
XIX. Os subgrupos Guaná – Terena,
Echoaladi, Layana e Kinikinau – que se estabeleceram
ao leste do Chaco, mantiveram contudo no novo território
a forma tradicional de organização em
metades e estratos sociais endógamos, suas roças
e também a aliança com os Mbayá-Guaykuru.
Os Terena atuais ainda guardam a memória desta
migração e da travessia do rio Paraguai:
“Eu tenho a história comigo, história
do meu pai. Aqui na Cachoeirinha não havia ninguém...
Meu pai é daqui mesmo. O bisavô dele veio
do Eêxiwa [região compreendida entre
a margem direita do rio Paraguai e a chamada “morraria”
de Albuquerque – hoje Corumbá – na
margem esquerda do mesmo rio], meu pai contava. Eles
tinham sido atacados por outros índios diferentes
lá do Eêxiwa. Aí eles vieram de
lá, atravessaram o rio Paraguai até Porto
Esperança, atraz da morraria... Ficaram um pouco
perto de Corumbá e depois fizeram aldeia aqui,
em Miranda... Naquele tempo não tinha purutuyé
[brancos, portugueses], só mesmo índio
Terena, Laiana, Kiniquinao, Echoaladi, Caduveo...”
(Felix, ancião morador da aldeia Cachoeirinha).
Outro ainda descreve o modo como foi feita a travessia
do rio Paraguai:
"Minha avó, meu avô vieram do
Eêxiwa. Eles usaram uma taquara bem grande para
atravessar o rio... Eles trançaram cipó
(hymomó) para fazer canoa para atravessar
o huveonókaxionó ("rio dos paraguaios")..."
(João Martins, ancião morador da aldeia
Cachoeirinha).
A resistência dos Mbayá-Guaykuru diante
do avanço dos paulistas que se dirigiam à
região de Cuiabá manteve os Guaná
distantes de relações com europeus. Essa
situação se manteve até a última
década do século XVIII, quando, em 1791,
é assinado o tratado de paz entre Portugal e
os Mbayá-Guaicuru.
Esse tratado permitiu a fixação portuguesa,
ainda que incipiente, na margem direita do Paraguai,
ao mesmo tempo em que propiciaria o desgaste da aliança
Guaná-Mbayá. Um dos sustentáculos
dessa aliança, como vimos, era o fornecimento
de instrumentos de ferro aos Guaná pelos Mbayá
– e que os primeiros começariam a obter
independentemente, através do comércio
com os portugueses.
Novos parceiros: os purutuyé
Afastada a ameaça dos constantes ataques dos
“índios cavaleiros”, pequenos núcleos
populacionais portugueses/paulistas começariam
a se estabelecer em torno das fortificações
avançadas que vinham sendo construídas
na região nas duas décadas que antecederam
a assinatura do tratado, em função da
disputa de limites com a Espanha: Forte Coimbra (1775),
Forte de Príncipe da Beira (1776) e Presídio
de Miranda (1778).
Estas relações de amizade entre os purutuyé
(portugueses) e Guanás seriam reforçadas
pelos agentes da Coroa: em 1797, um dos principais chefes
Guaná recebeu uma carta patente do Governador
Geral das Capitanias do Mato Grosso, em troca da sua
fidelidade e vassalagem à Coroa portuguesa. O
documento recomenda aos agentes oficiais portugueses
que (ao “capitão” e “a todos
os seus”) “...tratem e auxiliem com todas
as demonstrações de amigos e de vassalos
da Coroa Portuguesa, deixando-os gozar de todas as liberdades,
privilégios e isenções de que gozam
os demais vassalos da mesma Coroa...” (documento
original depositado no Arquivo Público do Estado
do Mato Grosso, in Carvalho & Carvalho, 1998).
As relações com os portugueses e brasileiros,
após 1791, tiveram variações entre
os diversos subgrupos Guaná. Hercules Florence
descreveu, na década de 1820, um grupo ao qual
denominou “guanás” – provavelmente
os Echoaladi, cuja aldeia era “um pouco acima
de Miranda” – da seguinte maneira:
“De quantas tribo tem o [rio] Paraguai,
é esta que mais em contato está com os
brasileiros. Lavradores, cultivam o milho, o aipim e
mandioca, a cana-de-açúcar, o algodão,
o tabaco e outras plantas do país. Fabricantes,
possuem alguns engenhos de moer cana e fazem grandes
peças de pano de algodão com que se vestem,
além de redes e cintas. Industriais, vão,
em canoas suas ou nas dos brasileiros, até Cuiabá
para venderem suas peças de roupa, cintas, suspensórios,
cilhas de selim e tabaco”.
A guerra do Paraguai e a perda dos territórios
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A eclosão do conflito entre o Paraguai e a Tríplice
Aliança, no final de 1864, viria a mudar de forma
dramática a vida de toda a nação
Guaná, inaugurando um novo tempo. Um dos palcos
do conflito foi justamente em território destes
povos que, aliado dos brasileiros, sofreram ataques
e represálias por parte das tropas invasoras.
É certo que todas as aldeias então existentes
na região dos rios Miranda e Aquidauana se dispersaram,
com seus habitantes buscando refúgio em matos
inacessíveis na região (como o lugar chamado
Pulôwô'uti, para aonde foram os moradores
de Cachoeirinha) ou nas serras de Maracajú (onde
Taunay esteve em 1866, perto do córrego Piranhinha
e utilizada como refúgio pelos Kiniquinau).
No relatório sobre o "estado da catequese"
em 1866, o Diretor de Índios informava que "...nada
posso informar a V.Exª sobre o estado das aldeias...
em consequência de achar-se aquela parte da província
ocupada pelos paraguaios desde janeiro do ano passado...".
Em 1870, o mesmo Diretor noticiava ao Presidente da
Província que o diretor das aldeias de Miranda,
Frei Mariano, havia sido capturado e feito prisioneiro
pelas forças invasoras. A aldeia do Ipegue foi
destruída pelas tropas invasoras em 1866.
Apesar da intensa participação dos Guaná
em favor das forças imperiais e na defesa de
suas terras – cujos episódios desta participação
foram descritos por Alfredo Taunay (nas obras "Entre
os Nossos Índios" e "A Retirada da
Laguna") – o governo do Império não
reconheceria estes esforços, não consignando
um palmo sequer de terras para os Guaná –
como o faria, em 1880, para os Kadiweu na concessão
de cerca de 500 mil hectares de terras na região
do Nabileque/Bodoquena.
Os impactos do pós-guerra: "tempos
de servidão"
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Findo o conflito com o Paraguai, o antigo território
das aldeias já era disputado por novos "proprietários",
em geral oficiais desmobilizados do exército
brasileiro e comerciantes que lucraram com a guerra
e permaneceram na região. Nas memórias
de Taunay (1931:35), fica evidente o modo como ocorreu
este processo de "fixação dos desmobilizados"
e o processo de expropriação das suas
terras e sua agregação como peões
nas fazendas que começariam a se implantar da
região:
"Nos diversos acampamentos da serra [de
Maracaju] construíram-se ranchos vastos e
cômodos e, pouco a pouco, regularizou-se o modo
de viver daquelas colônias híbridas de
brasileiros civilizados [sic] e índios,
sobretudo kiniquinaus, a que se haviam agregado guanás,
terênas e laianos".
De fato, o conflito com o Paraguai acarretou uma mudança
radical no modus vivendi dos Guaná com
a população brasileira local. Se antes
a relação era de mútua dependência,
alicerçada na troca recíproca entre os
índios e as tropas regulares que formavam a população
dominante nos “presídios” de Miranda
e Albuquerque, depois da guerra as populações
indígenas passaram a se relacionar com um grupo
humano heterogêneo e oportunista – e que
passaria a receber apoio oficial para a “colonização”
da região conflagrada. Nesses novos tempos, a
antiga relação de respeito e solidariedade
seria alterada.
Os recém-chegados, desmobilizados de uma tropa
que participou de uma guerra violenta e quase sem comando
(Taunay, 1935) eram em geral pessoas aventureiras e
ambiciosas, prontas a lutar para iniciar a ocupação
de uma região devastada do ponto de vista político
e social – como indica o documento oficial acima
citado. Esses novos colonizadores – a maioria
chegada de regiões do Brasil onde a relação
com os índios era fundada na prepotência
e no desprezo ao “bugre” – desconheciam
completamente qual havia sido o papel dos Guaná
na conquista e manutenção da região
em mãos brasileiras. E os índios se surpreenderam
com o caráter eminentemente predador destes novos
porutuya, recorrendo como podiam às autoridades
de Cuiabá – que antes os tratavam com o
respeito devido a aliados – para defenderem suas
terras.
A respeito dessa situação, assim se pronunciava
o Diretor Geral dos Índios, em novembro de 1871:
"Acerca do índio da Tribo Terena, de
nome José Caetano, de quem trata o ofício
de V.Exª de 7 do corrente, cujo recebimento tenho
a honra de acusar, o que sei e posso afirmar é
que o dito índio com mais alguns da sua tribo,
em número de 17 [e] Pedro Tavares, capitão
da aldeia do Ipegue, no distrito de Miranda [contaram]
que na ocasião da invasão paraguaia não
só sua tribo como todas as outras, e mais habitantes
do distrito, abandonaram os seus lares e retiraram-se
para os montes e bosques, onde permaneceram por seis
anos; que ultimamente voltando seus moradores a reocuparem
seus domicílios, esses Terenas encontraram sua
aldeia do Ipegue ocupada por Simplicio Tavares, por
sua autonomásia Piché, o qual lhes obsta
a repovoarem e lavrarem suas antigas terras e de seus
antepassados; pelo que vinham pedir providências
para não serem esbulhados de suas propriedades
das quais não podiam desprender-se. Um outro
índio da mesma tribo, de nome Victorino, que
farda-se como alferes, e pertence à aldeia do
Nachedache, distante da Ipegue uma légua, fez-me
igual reclamação".
Logo em seguida, no mesmo documento, esse funcionário
considerava – tendo em vista a ausência
de um missionário para dirigir as aldeias de
Miranda e que ali havia se estabelecido um "corpo
de tropas" – ser "...conveniente
que V.Exª recomende ao comandante militar e às
autoridades do local toda proteção aos
índios e que os mantenham em suas terras, visto
que serão precisos ainda anos para que Miranda
volte ao seu antigo estado e tenha autoridades próprias
de uma Vila".
Em 1871 era nomeado o tenente coronel José Vicente
Vieira Couto como diretor das aldeias e nesta qualidade,
segundo relatório do Diretor Geral datado de
02 de Maio de 1872, "...conseguiu concentrar
grande número de índios em seus antigos
aldeamentos...". Porém, a situação
de pressão sobre as terras das aldeias já
era grande.
Este tempo do pós-guerra é conhecido
pelos Terena como o tempo da servidão.
Dispersos em razão do conflito, os vários
sub-grupos Guaná começariam a recompor
suas antigas aldeias, agora pedindo "licença"
aos novos ocupantes. É a época em que
se intensifica a abertura dos estabelecimentos pecuários
e do "fechamento" dos pastos, com apoio das
autoridades do Império, que pretendia consolidar
a ocupação brasileira na área recém
conflagrada. E todos estes empreendimentos só
foram possíveis graças à "liberação"
das terras e o uso intensivo da mão-de-obra indígenas,
agora disponíveis. Os relatos dos velhos Terena
sobre este período são eloqüentes:
"O pessoal daquela época tinha medo
porque ainda se lembrava do patrão que os chicoteava
na fazenda. Quem se atrasava para tomar chá de
manhã era surrado...foi o finado meu avô
quem me contou. Como castigo o pessoal tinha que arrancar
mato com a mão. Quando a comida estava pronta,
eles mediam toda a sua tarefa. Eram quinze braças
de tarefa e, mesmo não terminando a tarefa do
dia, de manhã mediam outra tarefa, que acumulava"
(João Martins Menootó, ancião de
Cachoeirinha).
O advento da República – e as concessões
político-administrativas descentralizadoras feitas
aos Estados federados e, conseqüentemente, aos
chefes políticos regionais – só
fez agravar a situação dos Terena. Neste
sentido, os depoimentos de Rondon são esclarecedores:
"São comumente explorados pelos fazendeiros.
É difícil encontrar um camarada Terena
que não deva ao seu patrão os cabelos
da cabeça...Nenhum 'camarada de conta' poderá
deixar o seu patrão sem que o novo senhor se
responsabilize. E, se tem ousadia de fugir, corre quase
sempre o perigo de sofrer vexames, pancadas e não
raras vezes a morte, em tudo figurando a polícia
como co-participante de tais atentados" (1949:
83-84).
Os Terena e o SPI
Nas décadas de 1910 e 1920, dois fatos significativos
marcariam a história Terena: a criação
do Serviço de Proteção ao Índio
(SPI) e a construção da Estrada de Ferro
Noroeste do Brasil (NOB), esta última responsável
direto pelo aumento da população não-indígena
da região sulmatogrossense em cinco vezes ao
longo de duas décadas.
O SPI instalaria seus postos na década de 1920,
com o objetivo de levar aos Terena os objetivos da "proteção
fraternal" preconizada por Rondon – o quê,
ao menos nos primeiros anos, foi de fato tentado. Mas
logo essa "proteção", que deveria
ser de direitos, foi sendo gradualmente transformada
em imposição ideológica, culminando
na perda do que ainda restava da autonomia política
dos Terena.
O "encarregado do posto", em pouco tempo,
passaria a interferir em praticamente todos os aspectos
da vida social Terena: da mediação de
conflitos internos entre famílias à lavratura
– e guarda dos registros – das ocorrências
civis (nascimento, casamento e óbitos) até
a gestão dos contratos de trabalho e estabelecimento
de uma "guarda indígena" para a manutençao
da "ordem": em cada detalhe e momento, ficava
marcado que os Terena, ali, viviam por concessão.
Como veremos adiante, no caso de Buriti, um chefe do
posto – na década de 1920 – foi o
responsável direto pela "autorização"
para que um fazendeiro vizinho se apropriasse de uma
gleba de terras dos índios, contribuindo ainda
para a expulsão da aldeia ali estabelecida.
Agente subalterno local de um sistema verdadeiramente
colonial de poder, este funcionário passaria
a decidir o futuro do povo Terena. E esse futuro, agora
"orientado legitimamente" por um purutuyé,
se direcionaria a marcar todas as reservas Terena como
reservas de mão-de-obra para as empresas agropecuárias
da região – e ele, o gerente deste estoque.
Na história oral dos Terena, são poucos
os funcionários do SPI (ou da Funai, posteriormente)
lembrados por tentar realizar uma gestão que
privilegiasse o trabalho interno.
Lugar de uma estrutura de poder colonial, o "posto"
se impunha para imobilizar a força de trabalho
interna com vistas a torná-la disponível
externamente. De fato, já nos anos 1950 os dados
colhidos por Cardoso de Oliveira em Cachoeirinha impressionavam:
dos 127 grupos domésticos que constituíam
a aldeia em 1957, apenas 19 (17%) viviam exclusivamente
da agricultura interna e do artesanato, enquanto 46%
viviam exclusivamente do trabalho externo e outros 37%
combinavam o trabalho em suas roças com o trabalho
esporádico externo. A população
na época era de cerca 900 pessoas (Cardoso de
Oliveira, 1968).
Esses números não se alteraram nos anos
seguintes; com a implantação de usinas
de açúcar e álcool na região,
no final dos anos 70, os números, em termos absolutos,
com certeza aumentaram – assim como a população
indígena residente nas "reservas" Terena,
que ultrapassaria os dez mil em meados da década
de 1980.
O fenômeno da urbanização de indivíduos
Terena nos centros regionais (sobretudo Campo Grande
e, em menor medida, Aquidauana e Dourados), crescente
a partir do final dos anos 50, estaria diretamente ligado
à superpopulação das "reservas"
e pouca perspectiva de futuro que apresentavam (Cardoso
de Oliveira, 1968). Em 1960, este autor registrou 418
indivíduos Terena morando em Campo Grande; hoje
certamente esse número passa dos 2 mil indivíduos
– grande parte mantendo ainda vínculos
com as suas aldeias de origem.
A maioria desses migrantes saiu da "reserva"
de Taunay/Ipegue e sobrevive como prestadores de serviços
(empregados domésticos, fornecedores de mão-de-obra
para serviços gerais, donos de pequeno comércio,
funcionários públicos ou da antiga NOB
etc.). As razões alegadas pela primeira geração
de migrantes urbanos para deixarem as reservas foram
os conflitos internos (por diferenças sobretudo
religiosas, quando da chegada dos missionários
protestantes às duas reservas citadas). Comparativamente
às outras reservas, são poucos os Terena
urbanizados egressos de Cachoeirinha (os quais ainda
mantêm laços permanentes com suas famílias
de origem na reserva).
Podemos inferir das análises de Cardoso de Oliveira
(1968 e 1976) que as condições adversas
que foram impostas aos Terena pela sociedade regional
dominante, nas quatro décadas imediatas ao fim
da guerra do Paraguai, foram sendo, naquele período
de tempo, positivadas sociologicamente pelos Terena.
Assim, a situação de confinamento na Reserva,
ao mesmo tempo em que acarretou a perda da autonomia
política das aldeias – dado que submeteu
os índios à dependência política
do chefe branco do posto do SPI/Funai – foi transformada
pelos Terena na base territorial necessária para
a atualização e manutenção
do ethos tribal; a sua integração
à estrutura econômica compensou de certa
forma a perda da auto-suficiência econômica;
e, finalmente, a urbanização crescente
de parte de sua população foi a resposta
encontrada pelos Terena às limitações
políticas, sociais e econômicas, reinantes
na situação de Reserva. Portanto, poderíamos
compreender as novas pautas sociais engendradas pelos
Terena “modernos” como derivadas da estratégia
de um povo na busca de novos espaços para o exercício
da sua sobrevivência, espaços estes onde
a pressão para a negação da identidade
indígena fosse minimizada.
As reservas indígenas Terena, consolidadas a
partir da década de 1920, serviriam de ponto
de apoio vital para o reagrupamento das famílias
dispersas pela guerra e que ainda se encontravam sob
a servidão nos barracões das fazendas.
Passaram a representar, para os Terena, não só
o espaço necessário para a reafirmação
do ethos tribal, mas também de uma certa
liberdade. Para os moradores das reservas, o trabalho
externo voltaria a ganhar sua característica
de trabalho facultativo, readquirindo a liberdade de
escolher o tipo de serviço e até o patrão.
Esse período de relativa liberdade, ao que parece,
duraria pouco tempo, exatamente até o SPI alterar
sua política nas reservas.
Havia a necessidade da imposição dos
limites das Reservas porque, na verdade, os Terena não
os respeitavam, isto é, continuaram usando e
ocupando as áreas vizinhas para as suas necessidades,
caçando, pescando e coletando suas ervas medicinais
ou mel, sempre e quando lhes aprouvesse. E é
somente a partir de 1960 que os Terena começariam
a ser perseguidos e reprimidos, pelos fazendeiros e
pelos encarregados do SPI, nessas suas expedições.
E mesmo depois, quando se configurou uma situação
de verdadeira clandestinidade, jamais interromperam
suas incursões.
Do SPI à Funai
Pouco mudaria nesta estrutura de poder com a substituição
do SPI pela Funai: o chefe do posto deste novo órgão
herdaria do seu antecessor do SPI as mesmas prerrogativas
de poder. Contudo, o aumento da procura em "escala"
da mão-de-obra para as usinas de cana daria motivo
para que aquele funcionário público (com
o beneplácito do "capitão" e
autorização de Campo Grande), passasse
a cobrar uma taxa, por índio contratado, dos
intermediários ("gatos") das usinas.
O dinheiro assim arrecadado deveria ser utilizado na
"manutenção" de algumas atividades
do posto. Este recurso passaria a ser, nos anos 80,
o principal atrativo para a disputa da "capitania"...
e fonte importante de ganhos para o Posto Indígena
– cuja prestação de contas é
em geral um segredo, apenas partilhado pelo chefe do
PI e o "capitão".
A administração da changa (como
é chamado regionalmente o trabalho temporário
nas fazendas e hoje nas usinas de açúcar
e álcool) passaria a ser um dos principais –
senão o principal – papel desempenhado
pelo núcleo de poder na reserva (chefe PI, capitão
e membros privilegiados do Conselho). Assim, para sustentar
a posição de poder, atualmente, aquele
núcleo é responsável pela indicação
exclusiva dos "cabeçantes" –
figuras da aldeia, necessariamente alfabetizadas, que
são os encarregadas das "turmas" de
trabalhadores contratadas pelo empreiteiro das usinas.
Estes "cabeçantes" recebem um salário
diferenciado e se responsabilizam integralmente pela
"sua" turma (composta por 20/30 trabalhadores)
distribuindo (e anotando) as tarefas realizadas no dia-a-dia
do corte de cana. A escolha destes indivíduos
é basicamente determinada pelas relações
de parentela e – sobretudo – pelo aliciamento
de lealdades, que ocorrem durante o processo eleitoral,
feita pelos canditados a "capitão".
Um bom "cabeçante" traz dividendos
políticos para o seu "padrinho".
Fora da changa, portanto, as opções são
poucas – e o próprio sistema de poder não
favoreceria alternativas para além de consentir,
por exemplo em Cachoeirinha, nos anos 30 e 50, a operação
de um extrativismo individual, também taxado
pelo PI (de casca de angico para os cortumes regionais
e lenha para as cerâmicas/olarias locais e para
uma caieira que existiu num povoado vizinho a Cachoeirinha
até 1960). Porém esse extrativismo, nos
anos 70, extinguiu-se devido ao fechamento dos cortumes
e por oposição das lideranças locais,
preocupadas com a predação das matas da
Reserva. Houve também o estímulo de um
chefe de posto para o plantio de café, de início
com bons resultados; mas, sem acompanhamneto técnico
adequado, foram sendo atacados por pragas até
serem totalmente erradicados 8/10 anos depois.
À exceção deste surto extrativista
e de tentativa de implantação de culturas
comerciais permanentes, outra iniciativa visando contemplar
o trabalho interno nas aldeias teve lugar nos fins dos
anos 1970 e início dos 80. Favorecida por um
orçamento pródigo administrado pelos militares-presidentes,
a Funai de então, durante cinco anos, beneficiou
os poucos produtores locais de Cachoeirinha por meio
de "projetos de desenvolvimento comunitário".
Na realidade, tais projetos (aos quais eram destinados
anualmente verbas orçamentárias, fora
daquelas enviadas com a rubrica "manutenção
do PI") serviram como uma espécie de capital
inicial gratuito para a introdução da
"revolução verde" no universo
das Reservas Terena. Os efeitos sobre o ambiente natural
deste processo de "modernização"
do trabalho agrícola serão analisados
adiante. Mas é a partir deste surto modernizante
que novas áreas de roças seriam abertas
nas "reservas" Terena, privilegiando culturas
não mais de mera subsistência, mas claramente
buscando a geração de excedentes comercializáveis.
Enquanto durou a fartura dos recursos a fundo perdido
da Funai, de fato alguns produtores locais foram beneficiados,
trazendo alguma esperança para os que viviam
exclusivamente das roças. Foram adquiridos pequenos
tratores, máquinas de beneficiamento, além
do fornecimento de adubos e sementes selecionadas e
do óleo para o preparo e plantio – às
vezes o PI cobrando a restituição da semente
e do óleo, outras não, dependendo do acerto
com o "capitão" e do caixa do PI. E
também trazendo invasoras resistentes, compactação
do solo e o estímulo à abertura de novas
áreas. Foram contratados técnicos agrícolas
e agrônomos para dar suporte à agricultura
comercial Terena. A chefia do PI passou a gerenciar
então, além da changa, um empreendimento
agrícola mais sofisticado – e de pouca
duração.
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