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Nos locais denominados “pata”, é possível identificar a unidade sócio-espacial básica de referência para os Tiriyó. Pata equivale ao que costumamos designar, genericamente, de aldeia. Em tiriyó, pata significa lugar de moradia, e cada um destes lugares está associado ao seu “pataentu”, ou seja, ao “dono do lugar”, aquele que identificou, escolheu o local e nele reuniu um conjunto de parentes bi-laterais.
Cada pata é composta por uma única ou por um conjunto de unidades residenciais, denominadas pakoro. Em cada pakoro, normalmente, vive um casal com seus filhos solteiros e/ou com sua filha e genro recém-casados - composição básica de um imoitü, termo que designa grupo familiar de parentes co-residentes.
Imoitü é uma categoria que designa a existência de parentesco (real ou virtual) e de co-residência, mas possui um caráter relativo e necessita de um referente espacial para que se possa compreender, contextualmente, seu escopo de referência. Neste sentido, as possibilidades de composição de um imoitü variam conforme o âmbito que se tome, e ao longo de um gradiente que vai da família nuclear, que co-habita em uma mesma pakoro, passando pelo conjunto de parentes bi-laterais que co-habitam em uma mesma pata, ou ainda por um conjunto de parentes bi-laterais que residem em duas ou mais pata relativamente próximas. É possível chegar até um limite genérico, em que a co-residência no mesmo território, de um ponto de vista mais amplo, designa o pertencimento ao conjunto dos imoitühton (plural de imoitü num sentido coletivo).
O número de pakoro existentes em uma pata varia de acordo com o número de parentes que o pataentu consiga reunir e conforme o tempo de existência do lugar. A disposição das pakoro ocorre em torno de um espaço denominado anna, que é uma espécie de praça pública, equipada com uma toëfa (tábua de dança), onde ocorrem as festas. Normalmente, há ainda, no espaço da anna, uma casa de reuniões, freqüentemente de formato oval ou retangular, denominada paiman.
O território mais amplo que circunscreve o conjunto das pata em que reside toda população é designado “Tarëno nono”, ou seja, “terra dos Tarëno”. Embora seja possível constatar que não há uma distribuição aleatória, mas um padrão de ocupação baseado na formação de conjuntos de pata em torno das principais bacias deste território, não há, em tiriyó, termo específico para designar tais conjuntos.
Em 1940/42, segundo Schmidt (1942) os Tiriyó estavam vivendo nas bacias dos rios Sipariweni, Paru de Oeste/Marapi e Paru de Leste/Citaré. Já no final dos anos 60, segundo Rivière (1970), estavam vivendo nas bacias dos rios Sipariweni, Tapanahoni/Paroemeu e Paru de Oeste, divididos pelos rios e por faixas de savana. Atualmente, encontram-se em torno de todas essas bacias, totalizando quatro conjuntos populacionais.
Assim, enquanto pakoro (casa), pata (aldeia) e tarëno nono (território) servem para designar realidades ao mesmo tempo físicas e sociais, sendo portanto unidades sócio-espaciais de referência, os conjuntos de pata que se formam em torno das bacias do “tarëno nono” não encontram, em termos nativos, uma concepção que permita recortá-los enquanto unidades sociológicas. Tais conjuntos, de fato, constituem realidades físicas e sociais, mas não configuram “unidades”, e sim “dinâmicas” que são fruto das relações entre as unidades sócio-espaciais básicas tiriyó, ou seja, entre as pata.
Fisicamente, apresentam-se na forma de “aglomerados” de “aldeias” em torno dos cursos de alguns rios, mas, do ponto de vista social, o termo “aglomerado” tal como utilizado na literatura etnológica guianesa (ver Rivière, 1984) para caracterizar a estrutura social típica da região, deixa a desejar, se comparado com o potencial analítico da noção de “redes de sociabilidade”, no sentido de dar conta do modo como as relações sociais se estruturam na dimensão intermediária entre o nível local da pata e o nível mais amplo do tarëno nono, e, ainda, do modo como o tipo de relação estabelecido nesta dimensão intermediária influencia na configuração e nas relações internas à cada pata.
Com efeito, na falta de termos nativos, a noção de aglomerado permite descrever uma realidade que, de fato, aparece-nos de forma altamente fluida e provisória, porém, se tomamos a falta de termos nativos como um indício de que entre a unidade social básica (pata) e a unidade social mais ampla (tarëno nono) não há “unidades” sociais intermediárias, nem simplesmente “fluidez”, mas “dinâmicas” sociais que funcionam sob formas específicas de articulação social, então a noção de “redes de sociabilidade” se torna mais útil à compreensão da paisagem sociológica da região.
Com base nesta perspectiva, tem-se nas redes de relações entre os pataentu a espinha dorsal da estrutura social tiriyó, e na pata, a unidade sociológica básica de referência desta estrutura. O nível de maior densidade nas relações sociais é dado pela co-residência entre o pataentu e sua parentela bi-lateral, que equivale ao seu “yimoitü” (“minha família” ou “meus parentes co-residentes”). No interior de cada pata, a parentela de um pataentu tende a manter, entre si, relações estreitas e preferenciais de troca matrimonial. Cada parentela local corresponderá a uma única ou a mais de uma pakoro, conforme sua extensão e sub-divisões. Em seguida, há o nível inter-local, dado pelas relações entre os pataentu de lugares diferentes. Neste nível, cada pata funciona como unidade trocadora e estabelece, através de seus sub-componentes, as pakoro, trocas simultâneas com membros de outras pakoro, de diferentes lugares. Formam-se, assim, múltiplos direcionamentos nas relações de troca.
No caráter destes direcionamentos, interferem dois parâmetros, um de ordem espacial, e outro de ordem temporal. No primeiro caso, trata-se do eixo proximidade/distância. No segundo, da oposição identidade/diferença, relacionada à noção de itupü, termo que designa “continuação” e que é utilizado em vários sentidos, inclusive no sentido genealógico. Neste sentido, itüpü corresponde a uma categoria social de pertencimento e põe em foco noções ligadas à identidade/diferença entre pessoas de linhas de ascendência genealógica semelhantes ou distintas. Assim, por exemplo o pertencimento, ou não, de dois indivíduos a uma mesma itüpü, aliado a suas respectivas posições no eixo espacial proximidade/distância de moradia, interferirá na qualidade e no rumo das relações estabelecidas.
A noção de etnia e a categoria itupü
Do ponto de vista de uma sociologia da vida tiriyó, a etnia, enquanto uma “supra” categoria social de análise, é de pouca relevância, se comparada ao peso da categoria itüpü. Isto porque o pertencimento à etnia (tribo ou sociedade) tiriyó está estreitamente relacionado a aspectos conjunturais, ligados a circunstâncias particulares de intervenção de agentes da sociedade envolvente - incluindo países e políticas indigenistas distintas - na região. Trata-se de uma designação genérica, a eles historicamente atribuída, que se tornou útil em contextos informais de interação com pessoas de fora - incluindo índios e não índios -, onde, para simplificar, apresentam-se como “Tiriyó”. E, como eles mesmos dizem, “Tiriyó” é apenas o nome com que foram “batizados” pelos brancos.
A categoria nativa itupü, ao contrário da categoria “etnia”, traz à tona a importância da descendência genealógica para os Tiriyó, para quem a diferença entre os seres animais e/ou vegetais simboliza a diferença entre as gentes de diferentes itüpü que vivem no mundo. Na língua tiriyó, os sufixos yana, yó so e koto são os mais freqüentemente usados para designar ‘gente’, ‘povo’. Assim, temos, entre os Tiriyó atuais, os Aramayana (gente abelha), Aramiso (gente pombo) Maraso (gente águia), Okomoyana (gente vespa), Akuriyó (gente cotia), Piyanokoto (gente gavião), Pürouyana (gente flecha) e outros aos quais alguns Tiriyó atuais dizem pertencer, como os Püröpü e os Saküta.
Na literatura histórico-etnológica sobre a região centro-leste da Guiana (cf. principalmente Frikel, 1958 e Rivière, 1963, 1969) estas muitas outras gentes são mencionadas como constituindo os chamados “sub-grupos” que deram origem aos atuais grupos étnicos da região, como os próprios Tiriyó, os Katxuyana, os Waiwai, os Aparai e os Wayana.
Assim, partindo da pata, enquanto unidade de referência sócio-espacial, e da itupü, enquanto unidade sócio-temporal, encontraremos a chave para a compreensão das bases que estruturam, no espaço e no tempo, o mundo vivido pelos Tiriyó. Nas fronteiras internas à pata, do ponto de vista espacial, e à itupü, do ponto de vista de uma linha de descendência genealógica, as relações sociais são mediadas pelo idioma das regras de parentesco.
Já no âmbito que extrapola as relações locais, internas à pata, entram em jogo as variáveis espaciais matano/mano (proximidade/distância) e o pertencimento ou não a uma mesma linha de continuação temporal (no sentido de descendência genealógica), ou seja, a uma mesma itupü. Neste nível inter-local, as relações sociais são mediadas pelas regras da política nativa, cujo caráter varia ao longo de um gradiente de possibilidades que vai de uma maior flexibilidade, conforme a proximidade espacial e conforme o pertencimento a grupos de descendência que mantenham relações pacíficas; até uma maior rigidez, conforme a distância espacial aumente e conforme diminua o grau de afinidade entre as diferentes itupü envolvidas na relação.
A terminologia de parentesco tiriyó é do tipo prescritivo de duas linhas, o que faz com que toda e qualquer parentela bilateral contenha tanto parentes quanto afins, e com que se realize o ideal nativo da pata enquanto unidade endogâmica. De outro lado, é comum que a distinção entre parentes e afins seja deixada de lado e que todos os co-residentes sejam representados como consangüíneos.
Assim, se no nível local, onde vive um pataentu e seu imoitü, o parentesco é um dado e todos os afins co-residentes tornam-se idealmente consangüíneos, através de um mecanismo de “mascaramento da afinidade”, característico dos povos da região da Guiana; no nível inter-local, principalmente quando envolve distância espacial e pertencimento a diferentes itupü, a efetivação do parentesco, através de trocas matrimonias, é uma possibilidade cuja realização depende da mediação de um tipo de diálogo cerimonial, denominado kato pompö (“conversa dura”), através do qual as partes envolvidas negociam suas condições de aliança e troca.
Mas as fronteiras da sociabilidade possível não se esgotam ali onde terminam possibilidades de troca matrimonial e de estabelecimento de relações de parentesco. À esfera do não-parentesco, que os Tiriyó situam no exterior do “tarëno nono”, correspondem as diferentes categorias de não-índios com quem historicamente se relacionam. Nesta esfera, o idioma das trocas matrimoniais, e portanto das trocas de substâncias corporais, é substituído pelo idioma das trocas comerciais, que envolve estritamente trocas de “substâncias materiais”. O estabelecimento desta forma específica de sociabilidade fica condicionado ao cumprimento de regras próprias de reciprocidade, distintas das regras baseadas nas relações de parentesco.
Ao longo deste eixo de relações, que vai do nível local ao nível das relações externas, configuram-se múltiplas redes de sociabilidade concretas, e infinitas possibilidades de novas articulações, mais amplas ou restritas. Assim, a compreensão da lógica do estabelecimento destas redes e o seu mapeamento permitem uma compreensão do mundo vivido pelos Tiriyó, de um ponto de vista mais amplo. |