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Até o final da década de 1950, a população que deu origem aos atuais Tiriyó distribuía-se entre os rios Panamá e Paru de Leste e estendia-se até as cabeceiras dos rios Sipariweni, Tapanahoni e Paloemeu, ao norte, reconhecendo-se como pertencente a uma diversidade grupos diferenciados, que os Tiriyó denominam de itüpü, predominantemente falantes de línguas Karib, com dialetos diferenciados. Apesar de viverem em lugares dispersos dentro deste território, mantinham relações específicas de sociabilidade que, se por um lado ultrapassavam as redes internas, por outro lado estavam circunscritas a certas fronteiras espaço-temporais.
Em alguns relatos de cronistas e viajantes, que datam do final do século XIX e início do século XX, há informações sobre a existência de uma rede de trocas freqüente, intensa e de longa distância, que ora inter-relacionava, ora colocava em conflito os diferentes grupos que vieram a compor a etnia Tiriyó, não apenas entre si, mas com grupos vizinhos do Suriname, Guiana Francesa e Brasil, como os Salumã (Xarumã) e os Makuxi, a Oeste de sua área, bem como os Emerillon e os Piriu à leste.
Os processos de pacificação envolviam, em sua concretização, a troca de sangue entre os tamutupü (chefes) dos grupos envolvidos, durante um ritual em que ambos deveriam beber, em uma cuia, o sangue extraído da coxa de cada um para selar a paz. Os processos de guerra envolviam os raptos de mulheres e crianças e as tentativas de extermínio dos homens do grupo inimigo, tanto através de lutas quanto do envenenamento coletivo, por meio da dissimulação e do oferecimento de bebida envenenada para os inimigos.
Para o período que corresponde às vésperas da chegada dos missionários na região, há informações, em registros históricos e em fontes orais, de que alguns dos grupos que vieram a compor a etnia Tiriyó referiam-se aos Wayana como sendo seus parceiros ideais de trocas comerciais, depois de muito tempo de inimizades. Segundo Frikel (1960), no decorrer dos anos 1950, época em que conviveu com os grupos da região, os Tiriyó diziam que os Wayana eram kuré kurano (muito bons). Já em relação aos Katxuyana que habitavam perto do rio Trombetas e que hoje compartilham o mesmo território dos Tiriyó, comentava-se que eles eram piá kuré (pouco bons), porque costumavam raptar as mulheres tiriyó.
Em relação à configuração que essas redes assumem com a chegada dos missionários, e com a concentração, num mesmo local, de descendentes de diferentes grupos que até então se consideravam inimigos, é necessário levar em conta que a noção cristã de que ‘todos somos irmãos’, presente tanto no discurso dos que caíram sob a esfera de influência católica, quanto dos que caíram sob influência protestante, contribuiu para que se encarasse como viável a possibilidade de englobar e estabelecer novas redes de aliança com grupos indígenas vizinhos, até então considerados inimigos.
Ao longo desse processo, é possível observar que entram em ação uma série de re-classificações sociais e de redefinições no uso das categorias de alteridade, de tal modo que os índios Katxuyana, por exemplo, que em um passado não muito remoto eram considerados ipürume, inimigos, depois de serem transferidos para a Missão Tiriyó por iniciativa dos missionários, e de serem aceitos pelos Tiriyó, sob o argumento de que “estavam se acabando e precisavam de assistência”, passaram a estabelecer um convívio próximo e a ser considerados ainya imöitü, “nossos parentes co-residentes”, e, deste modo, inseridos na rede de trocas matrimoniais dos Tiriyó.
Por outro lado, há os Ewarhuyana, que também eram considerados irupüme, inimigos, e que, por iniciativa dos missionários, foram co-residir com os demais grupos que se concentraram na Missão Tiriyó, no lado brasileiro. Até hoje, os 12 membros desta etnia não estabeleceram trocas matrimoniais com os Tiriyó, mas vivem próximos a estes e são considerados genericamente parentes (imoitühton), porque são índios também. Neste caso, não há relação baseada em trocas matrimoniais, mas há a possibilidade de haver. Neste domínio dos “entre si” e dos que podem vir a fazer parte dele, pela proximidade espacial e pela possibilidade de trocas matrimoniais (portanto de substâncias corporais), tem-se os requisitos básicos para o estabelecimento de relações de parentesco.
A este domínio contrasta-se o domínio dos radicalmente outros, os Brancos, com quem até hoje não está posta a possibilidade de trocas matrimoniais. Assim, de um ponto de vista mais amplo, para os Tiriyó não basta ser humano para ser parente.Com efeito, nota-se nos relatos tiriyó sobre os primeiros contatos com os missionários a intenção de deixar bem claro que estes só tiveram sua presença aceita na medida em que chegaram munidos de objetos que despertaram interesse e curiosidade, requisitos básicos para uma boa acolhida: “alguma coisa para trocar”. Nestas falas, representativas daquilo que os Tiriyó em geral,entendem por uma relação entre índios e não-índios, é possível vislumbrar alguns elementos para a compreensão da razão pela qual os missionários não foram incorporados à categoria de inimigos invasores: desde o início, apontaram para a possibilidade de uma rede de trocas materiais, cuja natureza era consideravelmente distinta daquela que, até então, os Tiriyó haviam experimentado com outros grupos indígenas dos arredores, considerados pawanaton (parceiros de troca). Assim, a relação com os Brancos foi condicionada à troca de coisas materiais, assim como a relação entre parentes e afins é condicionada à troca de substâncias corporais. |