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Dentre os rituais que acionam o funcionamento das redes de relações inter-comunitárias, destacam-se o diálogo cerimonial e as festas. Ambos têm em comum o potencial de fazer e desfazer os laços que interligam o conjunto das comunidades locais, que, no caso tiriyó, corresponde ao conjunto das patahton (plural de pata), e têm ainda em comum, embora por mecanismos distintos, o poder de transformar quem era “de fora” em alguém “de dentro” e vice-versa.
Cada um destes rituais, porém, corresponde a âmbitos distintos. O diálogo cerimonial põe em foco relações entre membros de diferentes itupü, tendo como figura principal o tamutupë (chefe de uma itupü); e as festas põem em foco relações entre membros de diferentes pata, tendo dentre seus principais protagonistas a figura do pataentu (dono do lugar).
Tanto o diálogo cerimonial quanto as festas estão circunscritos às fronteiras sócio-lingüísticas nativas. Mas isto não significa que esses rituais, sob determinadas formas adaptadas, não apresentem operacionalidade fora dessas fronteiras, nas relações com não-índios.
Do ponto de vista das relações internas às fronteiras sócio-culturais nativas, o diálogo cerimonial e as festas permitem que relações do tipo kutuma (relação entre não-parentes) sejam administradas e que sejam viabilizados, ou evitados, o estabelecimento de novos laços.
Cada um destes rituais encerra, a seu modo, um sinal positivo e outro negativo. Por meio do diálogo cerimonial, que implica um desafio de argumentos entre chefes de itupü diferentes, ambas as partes podem sair com vantagens iguais, ou uma delas em desvantagem. E, por meio das festas, por um lado surgem novas possibilidades de trocas matrimoniais ou materiais, mas, por outro lado, o contato com quem é “de fora” abre margem para novos conflitos e descontentamentos.
Mas este é um jogo político com o qual os Tiriyó se mostram muito bem familiarizados, de tal forma que o seu mundo é impensável sem essas instituições ou sem formas adaptadas delas. É por meio delas que se negociam casamentos e bens, assim como se recebem visitantes.
Em contextos que extrapolam as fronteiras sócio-culturais nativas, como é o caso das históricas relações de comércio com os Mekoro (Negros), bem como em contextos recentes, de maior convívio com os Karaiwa (Brancos do continente) e com os Pananakiri (estrangeiros de além-mar), observa-se na performance dos encontros, apesar das evidentes dificuldades lingüísticas, a tentativa de administrar as relações nos moldes das relações baseadas no diálogo cerimonial.
Mas há um momento na vida dos Tiriyó especialmente interessante de ser focalizado, já que parece condensar e confrontar todas as dimensões, valores e seres que fazem parte deste mundo. Esse momento é o da Festa. Os Tiriyó definem a Festa como uma “brincadeira” que, como costumam complementar, “tem que ser organizada”. O que remete à idéia de brincadeira na Festa são as encenações e imitações de situações e de seres diversos que compõem o seu universo. Também o clima lúdico em que os momentos se desenrolam e, ainda, a leveza de estado de espírito dos participantes parecem apontar para a pertinência de tal definição.
Em suas festas fazem-se presentes os próximos e os distantes, os “iguais” e os “diferentes”, os parceiros e os inimigos, os humanos e os não-humanos. E, em sua seqüência, desenrola-se a seqüência mítica por meio da qual um estado de guerra inicial dá lugar a um processo de enyawa (termo que designa a constituição de uma parceria), de tal forma que a aliança - que pode envolver casamento, mas não necessariamente - entre uns e outros torna-se possível.
Neste sentido, paralelamente à idéia de brincadeira, a festa remete à idéia de guerra. Com efeito, as etapas das festas tiriyó parecem corresponder ao processo de afronta, guerra, apaziguamento e troca, ou então, de estranhamento, familiarização e aliança recorrente em suas narrativas e mitos. É interessante notar que os termos brincadeira e guerra parecem intercambiáveis. Assim, quando um Tiriyó diz que a festa é uma brincadeira, bem poderia estar dizendo que na festa se “brinca de fazer guerra”:
Os motivos da festas e os motivos das guerras
Os Tiriyó, e também os Katxuyana, costumam dizer que, antes da chegada dos missionários, os moradores de “aldeias” (grupos locais) próximas viviam brigando entre si por causa de “fuxicos”.
Os “fuxicos”, quando veiculados internamente a uma pata (grupo local), poderiam ocasionar um homicídio e uma subseqüente cisão do grupo, com o abandono do lugar por uma das partes afetadas, dando início a uma cadeia de vinganças do tipo vendeta.
Quando veiculados entre moradores de grupos locais vizinhos, tais “fuxicos” motivavam a investida de um grupo local (pata) sobre outro e desencadeavam um processo vingativo que tendia a culminar com a dizimação total dos habitantes de um dos lugares.
Estes conflitos caracterizam-se por envolver grupos aparentados por casamento e co-residência. Tais processos vingativos guardam semelhança com as “festas de hoje para amanhã”, ou “festas curtas”, que se caracterizam por envolver apenas os moradores de uma pata, ou de poucas, ou ainda duas ou três patahton (plural de pata) próximas. Com as atuais “sakura de Domingo”, basta que durante a semana alguém faça um comentário, ou pedido inapropriado, para que se tenha o motivo da sakura do próximo final de semana.
Mas há também um outro tipo de conflito que talvez corresponda ao que na literatura histórico-etnológica amazônica aparece sob o nome de “guerra inter-tribal”. Entre os Tiriyó a “guerra inter-tribal” corresponde aos conflitos que opõem não os moradores das diferentes pata, mas os membros de diferentes itupü.
E, nas festas de Natal o que parece estar em evidência é justamente essa dimensão da vida tiriyó, a das relações entre famílias de itupü distintas. Trata-se de uma época em que a “brincadeira” do saque antecede a “brincadeira” da guerra. Nessa época todas as mulheres se sentem autorizadas a “saquear” os caçadores no caminho de volta da caça. Assim como, num mito tiriyó, o roubo da caça de um Prouyana, por parte de uma Aramayana, desencadeava um confronto entre ambos grupos.
Por meio dos rituais em torno das caças, a festa adquire metaforicamente o caráter de ritual canibalístico. As pessoas correm umas das outras imitando animais, como se fossem presa e caçador.
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Uma constante nas festas tiriyó é a fabricação de sakura, um tipo de caxiri à base de mandioca fermentada, assim como de wïï (beiju), por parte das mulheres anfitriãs. Os Tiriyó sempre dizem: “Sem sakura não tem festa. A caça fica a cargo dos homens que o “dono da festa” designar para tanto. As caças, assim como a bebida, serão consumidas ritualmente, e a definição do tipo de festa, cantos e vestimenta a serem utilizados depende da época em que for realizada e das caças que predominam naquele período.
A época do natal é época de kuriya
(jabuti) e ariwe (jacaré), de tal forma
que todo o repertório e componentes dessas festas
correspondem à simbólica que estes animais
suscitam. Outras caças também fazem parte,
mas o lugar proeminente é ocupado por eles: os
jabutis e jacarés que forem caçados.
Festa mãe e Festa filha
Antes da chegada dos missionários na região,
até o final dos anos 1950, as atuais festas de
final de semana (a chamadas “sakura de
Domingo”) eram realizadas nos intervalos entre
as festas maiores, e estas, como a atual Festa de Natal,
ocorriam em qualquer época do ciclo anual, mas
principalmente nas épocas de fartura de alimentos.
As festas curtas eram chamadas de “festas mãe”.
Já as festas cíclicas, maiores e mais
demoradas, eram consideradas “festas filha”
e era a estas que se dedicava maior zelo nos preparativos.
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