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Os Tupiniquim mais antigos não
se recordam de ter conhecido regras matrimoniais ou
qualquer outra norma de parentesco diferente das de
hoje, cujas prescrições são idênticas
às da população rural. Dos ancestrais,
os índios herdaram o receio em utilizar a língua
indígena, totalmente perdida em reminiscências
esparsas. Os avós dos atuais Tupiniquim conheciam
a língua, mas tinham deixado de empregá-la
porque eram ameaçados, deixando então
de ensiná-la aos mais jovens, desde o início
do século. Os índios mais velhos ainda
se referem ao língua, índio que tinha
o papel de tradutor, falava bem o português e
a língua indígena, recebendo as visitas
e conversando com os índios das matas que vinham
para as aldeias participar da Dança do Tambor
(Banda de Congo) nas festas religiosas.
Em 1951, o pesquisador Guilherme Neves
distinguiu entre várias bandas de congos os figurantes
da banda de Caieiras Velhas, composta por descendentes
dos índios que a constituíram em Santa
Cruz no século XIX.
As festas eram nos dias de São
Benedito, Santa Catarina, São Sebastião
e Nossa Senhora da Conceição, durando
de dois a três dias: os índios tiravam
o mastro da mata, e o Capitão do Tambor, todo
ornamentado, usando bastão e cocar, comandava
a Banda, saindo a convocar os índios para a dança,
de casa em casa. Na ocasião, as índias
preparavam uma bebida, a coaba, feita com aipim fermentado,
enquanto os índios empregavam como instrumentos
de percussão a cassaca (reco-reco antropomorfo)
e o tambor, feito de madeira oca, recoberto de couro.
Esses rituais ocorriam em Caieiras
Velhas, Pau-Brasil e Comboios, havendo intercâmbio
entre as duas primeiras, quando os índios atravessavam
as matas atrás das festividades. Hoje a Dança
do Tambor só permanece em Caieiras Velhas. Antigamente
o Capitão do Tambor detinha prestígio
e era também reconhecido como curandeiro (rezador)
pelos demais índios. Os Tupiniquim se declaravam
católicos, pois as igrejas pentecostais só
se instalaram na região recentemente, quando
atraíram famílias indígenas para
suas denominações.
Apenas o Capitão do Tambor
tinha ascendência sobre as famílias de
uma aldeia, se responsabilizando pela reprodução
das tradições culturais entre os índios.
A Dança do Tambor reforçou o intercâmbio
e integração simbólica dos Tupiniquim,
foi a cultura residual que deu suporte à ressurgência
indígena, possibilitando o estabelecimento de
uma distintividade cultural que os identificava frente
à população regional, não
como índios selvagens, uma representação
muito difundida, mas como caboclos Tupiniquim.
A partir da luta pela demarcação
das Terras Indígenas Tupiniquim na década
de 70, surge em cena o Cacique, categoria social que
vai expressar as novas articulações que
se estabelecem entre os indígenas, que reconheciam
anteriormente apenas o Capitão do Tambor. A figura
do Conselho Comunitário surge junto com a do
Cacique. Os Conselhos das aldeias, através das
lideranças Tupiniquim e Guarani, participaram
ativamente dos trabalhos de identificação
das Terras Indígenas, junto com os respectivos
Caciques. A luta pela ampliação de seus
territórios produziu uma organização
política formal, denominada Comissão de
Articulação Tupiniquim e Guarani, mas
são os problemas cotidianos e imediatos - desmatamentos,
improdutividade de terrenos, plantios, falta de assistência
- que mantêm a coesão entre lideranças
e comunidades, fortalecendo a disposição
reivindicatória de todas as aldeias.
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